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Moda volta à cena política nos EUA

Por Alice Ferraz Especial

27 de janeiro de 2021

A vice-presidente Kamala Harris e a primeira-dama, Jill Biden. / Foto: Divulgação

Na semana passada, o mundo da moda voltou os olhos para o meio político em um dos momentos mais esperados dos últimos anos, a posse do novo presidente norte-americano, Joe Biden. Vestir primeiras-damas dos Estados Unidos sempre foi motivo de orgulho e teve lugar de destaque na trajetória de estilistas no mundo todo.

Desde Mamie Eisenhower, primeira-dama entre 1953 e 1961, que participava da lista das mulheres mais bem-vestidas do país e simbolizava, através de seu modo de vestir, o ideal de feminilidade na década de 1950, passando pela icônica Jackie Kennedy que, em seu terno Chanel rosa, tornou-se um símbolo de independência com feminilidade, influenciando mulheres do mundo todo com seu “Jackie look”.

Na história recente, a moda nunca viu um recuo tão inesperado quanto o que foi visto durante os quatro anos em que Melania Trump ocupou a Casa Branca. O cenário da moda contemporânea, repleto de referências e códigos sobre inclusão e liberdade de gênero e expressão, e sua relação com o simbolismo do que é vestir uma primeira-dama tiveram uma profunda transformação de significados ao longo dos anos.

Melania infringiu vários hábitos desse mercado, tornando-se uma pária entre muitos estilistas americanos que se negavam a vesti-la, entre eles Marc Jacobs e Tom Ford. Destaco uma situação particular que explica um pouco o porquê era tão mal vista pelo universo da moda: em uma de suas aparições em um centro de detenção de crianças imigrantes, Melania usou uma jaqueta com os dizeres: “Eu realmente não me importo. Você se importa?”. A partir desse momento, sua já frágil persona pública fashion tornou-se ainda mais questionada quanto às escolhas de como se vestir usando a moda para dar voz às suas iniciativas.

Na quarta-feira passada, no entanto, o mercado de moda se abriu novamente para a personagem que aparenta ser o sonho de estilistas do mundo todo. Uma nova transformação aconteceu e, desta vez, a protagonista aparentemente não será a primeira-dama, mas, sim, a vice-presidente, Kamala Harris, primeira mulher e primeira negra a ocupar tal cargo nos Estados Unidos.

Já na posse, Kamala trouxe de volta a longa tradição, que havia sido quebrada por Melania, de vestir especialmente jovens designers americanos: os escolhidos foram os estilistas negros Christopher John Rogers e Sergio Hudson. A cor escolhida para a posse foi um vibrante roxo real. Kamala parece estar disposta a usar a moda como uma declaração forte de expressão de suas ideias e de seu tempo. Ela possui um estilo de se vestir de uma mulher ativa e cosmopolita, uma moda descomplicada e cheia de referências atuais.

A primeira-dama, Jill Biden, seguiu um caminho mais conservador, mas não com menos significado em suas escolhas para o dia da posse. A marca americana escolhida foi a Makarian, da estilista Alexandra O’Neill, que também faz parte da geração de jovens designers americanos. Cheia de propósito ao vestir Jill, a designer enviou um release à imprensa no qual explica a escolha da primeira-dama por vários tons de azul como símbolo de confiança, segurança e estabilidade. Além disso, a escolha do tecido, o tweed, material usado pela rainha da Inglaterra há décadas, chega como uma decisão sóbria, simples e confiável.