Destaques Opinião

Mentiras que viram verdades

POR GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA

13 de agosto de 2020

“Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.” – Winston Churchill. No início da década de 80, o Brasil iniciava o processo de finalização do regime militar, marcando eleições diretas para governadores e concluindo o processo cujas diretrizes foram apontadas pelo presidente Geisel de uma abertura “lenta, gradual e segura.”

A sociedade civil iniciava movimentos de grande vulto que culminaram com o “Diretas Já”, voltando organizações de trabalhadores a organizar movimentos paredistas que se espalharam por todo o país. Foi o “começo do fim” da era militar que, demonizada pelos governos de esquerda a partir de FHC e culminou com a tal “comissão da verdade” na era petista, que foi uma disfarçada inquisição de facção ideológica, buscando justiça para pessoas de esquerda que foram penalizados, sem entretanto compreender que o outro lado também foi alvo, ainda que em menor escala, de atos violentos e até criminosos.

Não se trata de aqui louvar medidas inaceitáveis cometidas durante o período, entretanto não faz o menor sentido a institucionalização de uma patrulha ideológica que, sob auspícios de governantes, buscou uma verdadeira cassada às bruxas que, a bem da verdade foi mais um retumbante fracasso. Se alguém torturou, ceifou vidas, prendeu ilicitamente, produziu atentados terroristas, organizou luta armada, sequestros e assaltos a bancos, todos, indistintamente, devem, ou fazer valer uma verdadeira anistia, ou punir sem distinções quem tenha praticado tais atos. Mas não foi assim o que ocorreu na era pós militar, quando tivemos inclusive Presidente da República participante de grupo armado que praticara tais atrocidades.

Mesmo diante das dificuldades que o Brasil atravessa atualmente, me entristeço quando vejo pessoas defenderem abertamente um regime de exceção que interfira nas liberdades individuais. Embora, como disse, exista um excesso na avaliação histórica do período militar, somente quem viveu esses tempos como eu vivenciei sabe o quão deprimente é entrar em uma faculdade através de um corredor polonês de militares armados e ver subtraído todo o desejo de manifestar, reivindicar e participar ativamente da politica com plena liberdade de opinião. Os excessos cometidos pelos governos e sua correspondente reação muitas vezes excessiva de seus oponentes, mostraram o aniquilamento da política nacional e a ausência de lideranças que até hoje refletem na miséria política do Brasil.

Assim, existem sempre duas versões, duas verdades e duas histórias, confundindo a mente do brasileiro que termina por não conhecer o que de fato aconteceu e acaba por rotular pessoas ou grupos, muitas vezes injustamente. E ninguém, em sã consciência sabe a verdade do que ocorreu, a não ser versões parcimoniosas de cada uma das partes.
Cito um fato que rotulou injustamente um governador e que pude testemunhar: greve dos professores no Governo Francelino Pereira em Minas Gerais; uma grande multidão de professores grevistas cerca o Palácio da Liberdade em uma manifestação por melhorias salariais. Nesta época eu era oficial de gabinete da Secretaria de Governo e presenciei uma cena que me marcou para sempre.

O Secretário de Segurança Pública, coronel Amando Amaral, reformado do exército, informa ao governador que o aparato militar estava posicionado em defesa do Palácio, indagando qual era a orientação do governador. Francelino de forma categórica determinou que fosse montado apenas e tão somente um policiamento ostensivo e que não admitia nenhum tipo de violência. O coronel indaga ainda o que fazer caso houvesse tentativa de invasão derrubando as grades do jardim da sede do governo de Minas. Disse o governador: “não se preocupe, coronel, os professores não são agressivos e não avançarão sobre o cordão de isolamento.

De fato, não houve tentativa de invasão, mas diante dos insultos e provocações verbais dos grevistas, foram lançados jatos de água do caminhão de bombeiros sobre os professores, cujas imagens rodaram o mundo nos jornais televisivos. De imediato o Secretário de Segurança foi exonerado. Na madrugada, agora no Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador, ocorreu o telefonema de um ministro mineiro informando que o Presidente da República decretaria intervenção em Minas Gerais caso a exoneração fosse mantida. Fui pessoalmente à imprensa oficial na madrugada para organizar a exclusão da exoneração. Mas Francelino ficou estigmatizado para sempre como o governador que jogou água nos professores.

Quase 20 anos depois, Francelino foi eleito senador da República e durante a campanha ainda sofreu ataques na TV, salvo engano do candidato Tarcísio Delgado, reproduzindo imagens e sugerindo não votar em quem “jogou água” nos professores.

Hoje, com o poderio das mídias sociais e abundância das fake news, fatos desta monta e imputações maliciosas contra candidatos pode acontecer na campanha eleitoral municipal em nossa cidade, numa sangrenta guerra de aniquilação de reputações, e pelo curto período de campanha, possivelmente fatos podem não serem devidamente esclarecidos, queimando nomes da disputa, confundindo o eleitor, o que será uma ameaça à democracia que deve medir a vontade do povo e nunca ser alvo de mentiras que se tornam verdade.

Eu particularmente adotarei um critério para escolher meu candidato: candidato que não discute proposta séria, projeto para a cidade e sua visão da Administração Pública, praticando ataques (ele ou seis apoiadores) pessoais, levianos e difusos, fora do tema eleitoral, jamais terá o meu voto, sejam eles quem for.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.