Destaques Dia a Dia

Meio de integração

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

17 de novembro de 2020

Um assunto pouco debatido no Brasil é o da discriminação intelectual. Se existe a discriminação racial e social, o principal motivo é o socioeconômico que, por sua vez, acaba persistindo em nosso meio em virtude da falta de oportunidade de acesso à educação de qualidade para grande parte de nossas crianças e jovens.

Nenhuma atuação profissional exerce seu efeito tão duradouro e permanente como a educação, porque o seu campo é o intelecto e a moral das pessoas, setores que, uma vez modificados, dificilmente voltam a ser o que eram antes. Desse modo, os efeitos da educação acompanham o educando em toda a sua vida, a menos que o processo educativo tenha sido tão ineficaz que não tenha conseguido “ferir” a consciência do educando.

Se for eficaz, enquanto viver, o educando terá as marcas dos processos informativos e formativos que lhes foram aplicados na infância e na adolescência. A função educativa é ‘desvendar’ e ‘descortinar’ aquilo que estava encoberto. É tirar o ser humano de uma posição inferior, baixa, da qual ele vê uma porção muito limitada de seu próprio mundo, para colocá-lo em lugares altos, de onde se vê um mundo muitas vezes ampliado e bem diferente do que se via antes. Negar a educação a uma pessoa é condená-la a viver na depressão da vida. Que coisa maravilhosa é estender a mão a uma criança carente para tirá-la do vale sombrio da vida e colocá-la no planalto de horizontes largos!

Para a educação e para a sociedade não é bom a ‘elitização’ exagerada da educação. Não é bom para ambas, pois haverá o aprofundamento da estratificação social: a classe dos que podem e a dos que não podem vão se separando cada vez mais, até perderem os pontos de contatos, tão importantes e imprescindíveis para a formação de uma sociedade harmônica. O contato das duas classes, especialmente na juventude, é de suma importância: o pobre teria no rico o padrão de prosperidade e o rico tomaria conhecimento do mundo das necessidades e das limitações.

A escola seria o centro de convergências para todas as classes sociais e funcionaria como equilíbrio da sociedade.
Os jovens, na fase escolar, não são discriminatórios; se se tornarem, foram os adultos que lhes ensinaram. O dia em que a escola pública for ótima, os ricos estarão todos nela. Isto acontece atualmente no ensino superior; os que podem estão nas universidades públicas; os demais estão nas escolas particulares. O menos favorecido precisa da escola para crescer.

O significado da escola para ele é quase de vida ou morte, de sucesso ou insucesso, de progresso ou estagnação. Por isso ele a respeita como algo que pode determinar sua ascensão na vida. Nada mais gratificante do que ajudar um jovem carente a subir na escala intelectual e social, a vencer as resistências do caminho e se tornar ‘grande’. Em sendo grande, ele não perde as amarras de sua origem, continua sendo exemplo e modelo para sua classe humilde.
Quantos bons profissionais da educação, da saúde e de outras áreas não “vieram de baixo”, venceram as resistências, transpuseram os obstáculos, e hoje são exemplos para todos nós.

O nosso argumento é o de melhorar a sociedade, melhorando cada cidadão, através da educação. Isso só é possível se trabalharmos com a criança para dar-lhe uma nova visão da vida, tirá-la do mundo miserável da ignorância onde as trevas impedem o vislumbre de qualquer caminho, onde o futuro é a repetição do dia de hoje, onde a perspectiva é esperar o amanhã, talvez um pouco pior do que o hoje. A escola tem nas mãos o grande poder de transformação, mas é necessário que este seja exercido também nas classes menos favorecidas.

Cremos na escola plural, diversificada, com filosofia de educação variada para atender às diversas opções familiares. Entretanto, isto não impede que ela desempenhe seu dever social. Neste artigo, dirigimo-nos àqueles que têm a educação como fim, com a consciência de que jamais atingiremos aos que têm a educação como meio. “Nem toda miséria é fruto da ignorância, mas toda ignorância gera a miséria”.