Destaques Dia a Dia

Mea Culpa

POR ADELMO SOARES LEONEL

22 de agosto de 2020

Hoje, os leitores hão desculpar o cronista pelo desvio da sua obrigação de relatar aqui as palhaçadas de costume. Demorei trinta e oito anos para fazer, de público, uma confissão que me corrói as entranhas todas as vezes em que ponho a cabeça no travesseiro, pelo tamanho da sacanagem por mim executada. Corria o ano de 1961 e eu estudava no Grupo Escolar Josino Alvim, em Piumhi, fechando a quarta série, sob a batuta da Dona Lourdes (ou era a Dona May? É que esta teve uma gravidez no período e as duas se revezaram no ano letivo).

A Dona Serafina reinava na diretoria, iniciando uma nova metodologia de ensino da qual fomos cobaias, com muito orgulho, pois houve depois um reconhecimento nacional da sua proposta pedagógica. Bão. Na porta do Grupo, eram executadas obras na instalação de rede esgotos e havia um enorme buraco em toda a extensão da rua. Os operários retiravam a terra vermelhona e a acumulavam nas beiradas, em montes convidativos às molecagens de então, ainda mais quando a chuvinha fina permitia a formação de bolotas, transformadas em mísseis atômicos na nossa imaginação infantil, estimulada pelas matinês dominicais. E quem não tem neve, guerreia com barro!

Na saída da aula, aquele bando de animaizinhos desengaiolados, despejados aos borbotões pela única saída, se pôs a resolver suas diferenças e rixas pessoais com as armas à nossa disposição. Um tal de Laerte, mais espevitado, lançou a primeira bolota e acertou o Rubinho, ao meu lado, provocando o revide imediato que atingiu um companheiro dele, que assumiu as dores e mandou ver também. Logo, vários meninos participavam da barafunda.

Azar o nosso ao ignorarmos a vinda, em passos lentos e respeitosos, do Juiz de Paz, prestes a atravessar a linha de fogo. Achando que sua presença de autoridade constituida fosse suficiente para interrupção da travessura, ele caminhava imponente até que levou uma humilhante barreada na orelha, o chapéu voando à distância. Outra, nas costas, escorreu pelo paletó de brim, sujando os fundilhos das calças.

O Juiz, num acesso de cólera, ainda nos tentou segurar mas já estávamos longe, apavorados com a cagada feita e as possíveis, e certas, consequências punitivas. Não deu outra! Dia seguinte, no meio da aula, recebo a temível convocação da Dona Serafina para comparecer à diretoria. Tentei negar a arte, no entanto inúmeros dedos testemunhais me atribuiam a culpa e a tal autoridade, dos quadros da UDN, fêz questão de apontar-me, filho de um simpatizante do PSD, virando a coisa rusga partidária.

Quando minhas negativas foram derrubadas pelas contradições do meu depoimento, ante o inquérito firme da diretora, alternei a estratégia de defesa pela diluição da culpa, isto é, perguntado sobre quem estivera envolvido na lamaceira, respondi aleatoriamente:

– Quase todo mundo. Dona Serafina queria nomes. Tomou nas mãos a lista de chamada da classe:
– O Inácio estava?
– Não.
– O Marcílio? O Euclides?
O Rubinho? O Laerte?
Adotei o expediente de acusar os bons e deixar a malandragem de fora e aí, quem sabe?, diminuisse o castigo.
– Sim. Não. Sim. Não.
– E o Alessandro?
O Alessandro era um garoto exemplar, estudioso, sério, de uma maturidade acima da média, fora de qualquer suspeita.
– Sim. O susto dele, coitado, assim que foi convocado à presença da Dona Serafina, completamente inocente, só foi menor do que a intensidade da negatória. As lágrimas lhe escorriam ante tamanha injustiça e o ódio que lhe dominava pela minha patifaria. Ainda me espeta na consciência a sua forma envergonhada de abaixar a cabeça durante o castigo a nós impingido de ficarmos meia hora de pé, na diretoria, expostos ao ar de reprovação de todas as professoras!

Com atraso de quase quatro décadas e, sabendo que esta crônica vai lhe chegar ao conhecimento, peço desculpas a você, Alessandro e fique sabendo da admiração que eu lhe dedicava, e dedico, e saiba que meu caçula de dez anos é seu xará… E pode passar a penitência desta confissão, não importando quantas Ave-Marias, Pais Nossos e Salve Rainhas, que eu rezo, ajoelhado em grãos de milho, como nós fazíamos ante a brabeza do Padre Abel!
Só espero que você e seu supermercado nada tenha a ver com a derrubada do vizinho Cine Ipiranga de tantas saudades – nossa festa de formatura foi lá, lembra-se? – porque aí, corro novamente à dona Serafina e reafirmo a sua participação na agressão barrística do Juiz de Paz!