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Maternidade sustentável

1 de outubro de 2020

Fernanda Floret e filhos. Ainda na gestação, família se vê diante de uma lista imensa de itens, muitas vezes desnecessários. / Foto: Divulgação

O tempo de decomposição de alguns produtos que fazem parte da criação de um filho pode ser assustador. No caso de fraldas descartáveis, são 600 anos em que o material fica na natureza. É como dizer que, se tivesse sido inventada no século 15, até mesmo antes do descobrimento do Brasil, a primeira unidade ainda estaria entre nós. Na gestação do primeiro filho, Theo, hoje com 11 anos, a bióloga Erika Guimarães ficou apreensiva:

Ficava me perguntando como lidar com as intermináveis listas de produtos ‘necessários’ para o enxoval e em todo o incentivo ao consumo que a maternidade carrega. Então, eu e meu marido começamos a pesquisar sobre o assunto e a preparar nossa visão sobre como lidar com isso”, lembra.

Laís de Oliveira descobriu que estava grávida aos 20 anos de idade, em 2011, e não sabia nada a respeito da maternidade.

“Fui à internet procurar mais sobre a criação de filhos e mergulhar nesse assunto. E foi aí que encontrei algumas famílias que já faziam uso da fralda ecológica. Aquilo ficou na minha cabeça, mas, quando comentava com as pessoas, a maioria dizia: ‘Ter filho é muito difícil, tu não tem noção e com a fralda de pano você não vai conseguir dar conta, é só mais um problema’”, lembra.

Mas a produção de lixo começa muito antes do nascimento, já nos festejos do intitulado “chá revelação”, em que pais realizam uma confraternização repleta de decoração pouco sustentável, com enfeites de plástico e isopor. Em agosto, o DJ Alok, por exemplo, realizou um polêmico evento para anunciar o sexo do bebê que Romana Novaes está esperando. Com balões e fogos de artifício, o casal foi duramente criticado nas redes sociais. Balões podem ser fabricados com dois tipos de material: látex e nylon. Os primeiros são considerados mais adequados porque são biodegradáveis, mas demoram de seis meses a quatro anos para se decompor, ou seja, tempo suficiente para causar impacto ambiental irreversível.

Ainda na gestação, os pais acabam deparando com uma lista imensa de itens, muitas vezes desnecessários, para cuidar dos pequenos nos primeiros meses de vida.

Quando eu fiz o enxoval do meu filho mais velho, seis anos atrás, o legal era realmente você comprar tudo, até porque você quer oferecer de tudo e o melhor para seu filho. Mas acho que esse pensamento mudou. Oferecer o melhor não é ter tudo, mas ter um mundo melhor, mais consciente”, enfatiza Fernanda Floret, do blog Vestida de Mãe.

Quando começaram a comprar os itens para o filho, Erika e o marido decidiram adquirir o mínimo possível. “Avaliamos a necessidade de cada item que as pessoas diziam ser obrigatórios para os cuidados do bebê”, lembra.
Ela ressalta que o casal ganhou muitas roupas usadas de sobrinhos e filhos de amigos. “E passamos tudo adiante para outros bebês à medida que nossos filhos iam crescendo. Construímos uma bonita rede de trocas. Até hoje me emociono quando vejo filhos de amigos usando coisas que foram dos meus filhos”, afirma a bióloga. A conscientização foi tão marcante para a família que a “mentalidade sustentável” é prioridade para todas as decisões em relação à educação dos filhos.

A busca pela maternidade sustentável, com menos geração de lixo e mais consciência de consumo, tem aumentado no Brasil. E esse movimento impulsiona novos negócios que são criados pelas próprias mulheres que deparam com a questão, como Laís de Oliveira, que decidiu criar uma empresa de fraldas ecológicas. Quando o pequeno Davi nasceu e começaram as trocas intensas de um recémnascido, ela se assustou e teve a ideia:

Fiquei chocada com a quantidade de fraldas! Um lixeiro recolhe, no dia, mais de oito. Vi a quantidade de lixo no meu dia a dia e fui atrás de uma solução para aquilo”, lembra.

A empresária, que trabalhava na área de tecnologia, teve uma experiência ruim de compra quando começou a pesquisar sobre produtos ecologicamente corretos.

Vi que existia um produto com grande potencial de transformação, as fraldas ecológicas, mas não era bem o que eu imaginava. Então, resolvi empreender e a ‘Nós e o Davi’, que é minha empresa, foi aberta em 2013 com o objetivo de ser mais acessível não só no quesito venda e informação, mas na capacitação de famílias”, explica.

Laís admite que as fraldas descartáveis são mais fáceis no manejo diário, porém, o custo ambiental é alto.

Não vou mentir, é muito mais fácil descartar e jogar fora, mas a problemática do lixo é muito urgente. A gente precisa parar porque tudo está dentro do nosso planeta. Uma fralda leva 600 anos para se degradar, então, a primeira fralda inventada ainda está no planeta e continua prejudicando nosso solo, nossos lençóis freáticos”, lamenta.

9 ATITUDES FUNDAMENTAIS

Enxoval – Escolha produtos mais duráveis, para descartar menos. Chupetas e mamadeiras inicialmente são desnecessárias
• Amamentação exclusiva no seio – Assim, o plástico da mamadeira não será descartado no meio ambiente, além das embalagens de leite industrializado
• Introdução alimentar – Quando o bebê fizer seis meses, cuide desde a escolha de frutas, verduras e legumes, que podem ser orgânicos, até a produção desses produtos
• Fraldas ecológicas – Elas não precisam ser esfregadas à mão e reduzem uso de pomadas contra assadura
• Reaproveitar a vestimenta – Para quem tem filho, sobrinho, amigos com crianças, pegar roupas usadas para o mais novo é prática antiga
• Brinquedo – Prefira produtos biodegradáveis ou recicláveis, feitos de madeira de reflorestamento
• Festa de aniversário – As comemorações podem ter o menor consumo possível de plástico e outros materiais descartáveis. Para servir o bolo, guardanapos de papel, que demoram três meses para se decompor
• Material escolar – Promova a troca de livros didáticos e uniformes entre os alunos. E é possível reaproveitar lápis e até cadernos do ano anterior
• Exemplo dos pais – Atitudes ecologicamente corretas dos adultos serão passadas para os filhos de forma natural