Destaques Dia a Dia

Maria prata

POR LARA ANDRADE PEREIRA

16 de outubro de 2020

Na região da Serra da Canastra existe uma pequena ponte de madeira chamada “Ponte da Maria Prata”. O nome gera comentários e dúvidas: por que tal nome? Pois bem, para matar a curiosidade de alguns, contarei o motivo de a ponte ter esse nome.

Perto do local da ponte existia uma fazenda grande e bonita. O proprietário era o homem mais rico, bonito, e popular da região, naquela época. Seu nome era Raimundo Antunes. Ele estava à procura de uma moça para se casar e dividir sua vida. Todas as famílias ofereciam suas filhas, pois ele tinha características que agradavam a todos. O fato motivou os pais a levarem suas filhas para apresentar a Raimundo.

Em uma dessas famílias ele encontrou sua “amada”. Seu nome era Maria Prata que, além de linda e inteligente, sabia fazer vários serviços de casa e da fazenda. Rapidamente, já organizaram o casório e em menos de um mês a moça já morava na fazenda.

Maria nunca imaginou que sua vida viraria um inferno, pois Raimundo não era quem ela pensava. Ele era agressivo e nos primeiros meses as agressões eram apenas verbais, mas com o passar do tempo a violência tornou-se frequente. Além de xingamentos, o homem partia para maus tratos físicos, tratando a esposa pior que às escravas.

Raimundo queria Maria somente para satisfazer suas vontades. Além de tudo, ela fora proibida de ver a família, e, quando iam visitá-la, Raimundo arrumava desculpas para não deixar que os sogros vissem a filha.

Um dia, Maria descobriu que estava grávida e resolveu fugir para um quilombo com sua melhor amiga, a escrava Odete. No caminho, embaixo de uma ponte, Maria começou a sentir contrações. Pediu à Odete para ir até o quilombo buscar ajuda.

Odete seguiu caminho. Enquanto isso, na fazenda, Raimundo sentiu falta da mulher e de outros escravos. Juntou seus capangas e foram atrás deles. Ao avistar Maria perto da ponte, não teve dúvidas: disparou vários tiros, e Maria e o bebê, infelizmente, vieram a falecer.

Quando Odete chegou com a ajuda, já era tarde. Viram o patrão chorando ao lado do corpo de Maria. Ao ser questionado, ele disse que a mulher não resistira às dores do parto. Porém, seu corpo estava com ferimentos parecidos com tiros de pistola. Tiveram a certeza de que por pura maldade Raimundo a havia matado.

Os escravos, enfurecidos, o prenderam e o levaram para o quilombo. Ele foi torturado, e quando já estava pedindo misericórdia para morrer, os escravos, sem pena, deram a ele, o mesmo destino de Maria. Alvejaram-no no peito com um tiro certeiro.

Os familiares e a população não tiveram notícias nem da filha, nem de Raimundo, nem dos escravos. O povo falava que eles haviam mudado daquela região.

Passaram-se meses. Debaixo daquela ponte, antes seca, começou a brotar água. Só depois de alguns anos, a descendente de um desses escravos veio para a região e contou toda a verdade. Disse ela que, pelo fato de Maria morrer chorando pela dor do tiro e das contrações, aquela água vinha de suas lágrimas. Por isso, até hoje a ponte recebe esse nome em homenagem àquela mulher.

Ainda brota água por lá. Contam que às sextas-feiras de lua cheia quem passar por ali e aguçar os ouvidos poderá escutar os lamentos de Maria Prata…

Esta e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br