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Livro revela bastidores do centro de cura de João de Deus

9 de Maio de 2020

Quando Flávio Moura e André Conti, editores da Todavia, perguntaram a Chico Felitti se ele queria escrever um livro sobre João de Deus, a resposta imediata foi “não”. O jornalista e autor de Ricardo e Vânia não tinha interesse algum no personagem. Os editores propuseram, então, que ele fosse até Abadiânia e encontrasse um recorte da história do médium. “E eu enlouqueci”, conta Felitti.

Em Abadiânia, o escritor se deparou com duas cidades. Uma pobre e católica, de um lado da BR-060, e a outra rica e badalada, conhecida como Lindo Horizonte. Ali funcionava a Casa Dom Inácio de Loyola, o centro no qual João de Deus atendia, fazia as cirurgias espirituais e cometia as agressões sexuais pelas quais acabou preso depois de denunciado e julgado entre 2018 e 2019.

O resultado da investigação de Felitti está em A casa, lançamento da editora Todavia, já disponível nas plataformas on-line e em e-book. “Era um lugar tão peculiar, fora do tempo e do espaço, que não fazia sentido nenhum ali, num pedaço de cerrado pobre, com a cidade católica de um lado e do outro a cidade da seita. Era muito diferente e a BR é um fosso mesmo: descobri que mal havia contato entre as duas partes”, detalha Felitti. “Eu era muito de fora desse universo e fiquei muito embasbacado.”

O repórter fez da casa na qual o médium atuava o personagem central do livro. Para ele, a apuração parecia ser bastante fácil. Em uma cidade de 20 mil habitantes, pensou Felitti, todo mundo teria histórias para contar, já que as denúncias de crimes sexuais cometidos por João de Deus acabavam de ser reveladas. O jornalista desembarcou em Abadiânia em janeiro de 2019, pouco mais de um mês após as primeiras denúncias terem sido feitas no programa de entrevistas de Pedro Bial.

A apuração, no entanto, não foi nada fácil. “Era uma cidade muito em choque com o que tinha acontecido”, conta.

Em dezembro de 2019, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres, embora haja mais de 100 denúncias registradas contra o médium.

Denúncias

Uma das coisas mais chocantes com a qual Felitti se deparou durante a apuração foi a quantidade de denúncias conhecidas de todos. “Era uma tragédia anunciada”, conta. “Achei que tivesse ineditismo na história e, quando cheguei à cidade, descobri que tinha denúncia de assédio desde 1979, que havia a história do avião que explodiu, denúncia de tráfico de material radioativo, coisas que já tinham chegado ao poder (público) de alguma maneira, e tinham vazado mesmo pela cidade. O que mais me chocou foi que essa monstruosidade já existia e era denunciada, conhecida e não foi suficiente para a sociedade barrar um criminoso.”

Uma das passagens mais impressionantes do livro é o depoimento de uma das vítimas, cujo nome foi trocado a pedido da entrevistada. Ela conta com detalhes como os abusos ocorriam e revela o medo de ser julgada como boba e inocente, uma postura comum para desqualificar as agressões sofridas.

A Casa. De Chico Felitti. Editora: Todavia. 264 páginas. R$ 47,92