Destaques Dia a Dia

Lição do tempo de minha avó

Por Maria Mineira

8 de janeiro de 2021

Era mês de junho… Uma barra alaranjada à entrada do sol, sinal que o frio já havia chegado. Depois de vir da roça, Joaquim perguntou à mulher:

— Ô Ervira, bamu passiá na casa do cumpadi João?
— Bamu… Inquanto ocê arrêia us cavalo, ieu mudo a rôpa dos minino…

Antes de sair de casa, as crianças ouviam uma ladainha de como deveriam se comportar durante as visitas à casa dos padrinhos.

— Ocêis tenha modo, num vão mi passá vregonha na casa dus outro. Sinão condo nóis vortá pra casa, ieu acerto o passo docêis. — Avisava o pai, à filha Geralda e aos cinco irmãos menores.

Pouco mais tarde, dois cavaleiros, vão a passos lentos pela estrada afora. Joaquim e Elvira, empencados de crianças nas garupas dos cavalos e nas cabeceiras dos arreios. Iam para a Matinha do Ouro, localizada do outro lado da serra. Visitariam o compadre João e a comadre Nina.

Quando apontavam na estrada, os cachorros vinham encontrá-los, latindo e fazendo festas. Os donos da casa e a filharada estavam no curral ansiosos, esperando. Muito abraço, muita alegria, quando as famílias de antigamente se visitavam. Ali era uma casa de fazenda igual a muitas daquele tempo. A cozinha era grande e aconchegante. No fogão à lenha havia sempre um gato cochilando encolhido. Por baixo do fogão, gravetos e sabugos. Por cima, o varal de linguiça e toucinho defumando. A cozinha era um ambiente alegre onde se reuniam a família e os amigos para uma animada prosa.

O forno era aceso para fazer quitandas. As comadres preparavam a massa na gamela, polvilho, ovos, queijo, leite e coalhada. Depois do forno varrido com feixe de alecrim do campo, o perfume se espalhava pelo terreiro todo, aguçando a vontade de experimentar aquelas delícias.

A mesa da cozinha era coberta por uma toalha bordada e em cima, colocados os bules com vários qualidades de chás: alecrim erva cidreira, hortelã e funcho. Também havia um caneco com leite e todos os bolos, biscoitos e pães recém-saídos do forno. Uma verdadeira festa para os olhos e o estômago.

O problema aconteceu porque na casa do compadre João e da comadre Nina, não tinham o costume de tomar café. Na casa só bebiam leite ou chá de ervas. Geralda, na época contava nove anos de idade e gostava muito de café. Ao ver a mesa toda arrumada indagou:

— Ieu num vô cumê biscoito sem café. Ô mãe, faiz café pra ieu!
— Minha fia, bebe o chazim de hortelã qui a madrinha feiz. Tá docim qui dá gosto.
— A sinhora sabi qui num gosto de chá, ieu quero é café!

A menina deixou a anfitriã constrangida por não poder atender ao pedido da afilhada. Na casa, não havia nenhum grão de café. Em silêncio, Joaquim guardou no bolso um biscoito de polvilho, enquanto a filha dava uma birra de rolar no chão, deixando a todos sem graça.

Já era noite quando voltaram à casa. Após Elvira colocar os filhos pequenos para dormir, o marido deu uma ordem:

— Ervira, acende o fogo, côa um café e enche aquele bule grande.
— Já é tarde Joaquim, nóis num vai bebê café di noite.
— Tô mandano ocê cuá o café. Intão ocê côa um café bem doce e dispois traiz a Gerarda aqui na cuzinha…Agora ieu quero tê uma prosa cu’ela.

Naquele tempo, as mulheres obedeciam cegamente aos maridos. Dona Elvira adivinhando a intenção de Joaquim, não teve saída, fez o que ele mandou.

— Pai, ieu tô é cum sono, num quero café e nem biscoito, não sinhô- Falou a menina Geralda, ao ver o pai colocar um biscoito de polvilho em cima da mesa, junto com o enorme bule de café.
— Minha fia, ieu num to priguntano se ocê qué! Ieu to mandano ocê bebê todo café desse bule e cumê esse biscoito de porvio.

Joaquim pegou um chicote guardado atrás da porta. A filha tratou de tomar o café sem falar mais nada. Ao mesmo tempo o pai dizia:

— Isso é pra modi ocê aprendê a num pidi nada na casa dus outro e num passá vregonha no seu pai e na sua mãe.
Minha avó Geralda contou-me que bebeu todo o café… Passou mal por vários dias com dor de barriga.

MARIA MINEIRA é autora do do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br