Destaques Dia a Dia

Lição do tempo de minha avó

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

13 de janeiro de 2021

A cidade amanheceu bem tranquila esse final de semana. Tempos difíceis. Tomada de consciência. Há tempos não via as ruas de nossa Passos tão vazias. Não podendo sair para a caminhada, resolvi dar uma volta de carro pelas ruas, e passei a observar detalhes, e nisso a imaginação viajou para uma época bem distante.

Ao me aproximar da Barrinha, num repente vi a molecada da Rua do Ouro se equilibrando na pinguela que era uma opção de travessia dos moradores do centro para aquele local, que já foi palco de circos, parques, barracas e grandes jogos de futebol. Barrinha de namoros e muitas histórias!

Eu, no carro, seguindo pela avenida bem devagar, com a passagem de um caminhão ao lado, lembranças vieram em mente e senti balançar a grande ponte de madeira que separava a Rua da Praia com a Praça Blandina de Andrade. Virei à esquerda, subi a Rua da Praia rumo à Capelinha da Penha, fui “memoriando” aqueles tempos idos, o sobrado Santiago e a venda do Alcione, de frente o bonito sobrado do Neca Lucio e na fachada a data 1918. O casarão e a Sapataria do Zé Valadão.

Num silêncio, ouvi apitando, saindo da Estação, fumegando, lotado de passageiros, o mixto da 5, passando pelo grande pontilhão da Praia, Vi antes de ser tampado na 1ª Gestão do Prefeito Geraldo Maia o grande buracão na Praça Trindade, vários animais na porta da Ferraria do Seo Duca para serem ferrados, o novo e bonito grupo Jaime Gomes, com seu alambrado.

Lembrei o dia da sua inauguração, 1º de dezembro de 1953. Presença da 1ª dama do Estado Sara Kubitschek, gritos, correria, algazarra, fila para o escorregador e balanços, centenas de crianças no pátio, hoje senhoras e senhores. Senti o gostoso cheiro do chão ao entrar pela Rua Brasil! Vi seus antigos moradores em suas portas, hoje ali alguns filhos e seus netos.

A venda do Zequinha Santiago, Geremias Bueno e sua máquina de arroz, o carroção do Bicharra ao lado do fordinho do Oto Daher. Açougue do Mustafé, Alfaiataria do Afonso Papudo, exalando pelo ar o cheiro gostoso da goiabada feita pela minha amiga Maria Imaculada Ribeiro Silveira (Tia Dita). A escola particular da Santa, filha da Zilica.

Parecia que eu estava vendo Tia Doce conversando na porta com Maria das Dores Silveira, a Dona Liquinha, e sentindo no ar o cheiro dos pães de sal e sovado da Padaria do Custódio, da Venda da Marvina. Revi as quitandas, meus fregueses, telefone de manivela na parede, caixote cheio de areia esfriando cerveja, o macaquinho e as pencas de bananas na corrente no Salão do Nonó, as boiadas subindo e descendo, o povo rezando no Cruzeiro, pedindo chuva. Nós, meninos, correndo das vacas bravas indo para o corte, as batidas das caixas dos ternos de Congo do Eliseu, Jorge e Cana Verde. A grande árvore de óleo!

Cheguei à Capelinha da Penha num relâmpago. Vi Padre Caio e os saudosos jogadores Nelson, Nilson, Otinho, Normelio, Sirico,Rufino, e outros, campeões de 1954 chegando para treinar. A muda Maria capinando a pracinha, eu dentro do confessionário, pernas tremendo, confessando para a Primeira Comunhão. Vi Monsenhor Matias entrar na Capelinha num relance, uma mão no campanário puxando uma corda, fazendo o sino da Capelinha repicar!

Já voltando, desci a avenida, lembrando a poeira vermelha que era trazida pelo vento. Me vi menino cumprimentando na porta de seu salão, o Adolfo Felix , os irmãos Lucas e Benedito Caetano, e em sua venda, o Celino Leite.

Vi com saudade o Salão de Papai cheio de gente, vários cavalos amarrados no toco, e lá dentro, engraxando, o menino, com seu bonezinho do Flamengo, ouvindo atento os casos, piadas e mentiras dos adultos, e quem diria que um dia seriam contadas em livros e nessa coluna de jornal. É o tempo passando e a gente “Memoriando”!