Destaques Dia a Dia

Levou Surra Duas Vezes!

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

16 de dezembro de 2020

Tempos atrás ganhei de minha filha Cleyde o livro “A Cabana”. Ao ler as páginas 132 a 134 que nos contam que Jesus e Mack atravessam o rio caminhando sobre a água, com Jesus achando esse modo mais natural, e Mack rindo de orelha a orelha só de pensar no que estava fazendo e, depois, sentados numa sombra, os dois começam a ricochetear pedras na água e, então, Jesus retira a matula do embornal, preparada pelo Papai (Deus), peguei um gancho deste capítulo e me lembrei de Sô Tonico, e ainda: resolvi escrever sobre ele!

O conheci quando ainda menino. E como era gostoso ouvi- lo contar e descrever seus causos simples e inocentes. Além de famoso contador de causos, na sua profissão era um verdadeiro artista. Trabalhando na frente de sua casa, eu e outros meninos íamos ali admirar sua maestria na arte de lidar com bambu. Com uma pequena foice afiada, rachava todos no meio, em cima de um toco, dava vários cortes na ponta do bambu, depois desfiava enormes taquaras, e quando já tinha o material suficiente, começava a trançar peneiras, cestas, balaios, e até forro para casa. Em certas horas dava um descanso do serviço, sentava no degrau de entrada da sala de sua casa e, na nossa inocência de criança, era maravilhoso ouvir seus causos e histórias! Eis alguns:

Na cidade havia dois homens que gostavam de massari (dinheiro). Cada qual era mais munheca e pão duro que o outro. Lá, num certo dia, numa roda de amigos, apostaram muito dinheiro para saber qual dos dois tinha mais fôlego. Os dois ao mesmo tempo enfiaram a cabeça em um tambor cheio d´água. Quem levantasse a cabeça primeiro perdia a aposta. Resultado: os dois morreram afogados!

Outro: Padre Antônio todos os dias fazia sua fezinha no jogo do bicho e ficava ansioso para saber o resultado. Assim também era sua comadre Maria. Um dia, saiu a procissão e Padre Antônio só pensando qual foi o bicho que deu. Ao ver sua comadre Maria entrar na procissão atrasada, chegou perto dela e cantou: “Comadre Maria que bicho deu hoje? E Maria respondeu cantando: “Deu á-vê-á-vê-á vestruz. E assim seguia a procissão com o padre tirando os cantos. E num outro dia, iam os fiéis cantando na procissão, e nisso lá no alto, surgiu desgovernada, uma velha Jardineira. Padre Antônio viu o perigo e gritou para os fiéis: “A Jardineira, gente!” E todos cantaram: “Oh jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que aconteceu?”

Até hoje quando me recordo eu começo a rir! Mas voltando ao assunto, ainda sobre o texto do livro “A Cabana“ e recordando minha infância, Sô Tonico também contava várias passagens de Jesus e São Pedro: “Jesus, andando com São Pedro, no caminho pegou uma grande pedra, colocou no embornal e falou para São Pedro fazer o mesmo. São Pedro enganou Jesus colocando no seu embornal uma pequena pedra que parecia um pedregulho. Caminharam, e na volta do dia, cansados e com fome, sentaram na sombra de uma árvore e Jesus disse para São Pedro: “Vamos comer.” São Pedro disse: “Comer o quê Mestre?” Disse Jesus: “O que está no embornal”.

E tirou de seu embornal um pão do tamanho da pedra que carregou. E São Pedro tirou do seu um pãozinho que mal deu para colocar na boca! E seus causos continuavam: certa vez Jesus e São Pedro pediram pouso em uma casa. Só havia uma cama. São Pedro deitou na beirada e Jesus, muito cansado, deitou no canto, e pegou no sono. Já de madrugada o dono da casa, embriagado, resolve dar uma surra no que estava deitado na beirada da cama. Bateu e falou. “Daqui a pouco apanha mais! Jesus, dormindo, nada escutou. São Pedro, dando uma de esperto, acorda Jesus e troca de lugar com ele, passando para o canto. O dono da casa volta mais embriagado e diz: “O da beirada já apanhou, agora é a vez do que está dormindo no canto!” E deu outra surra em São Pedro! Enfim, um causo ou uma história que se encerra um dia poderá ser o princípio de outros causos e outras histórias! É o tempo passando e gente “Memoriando!“