Destaques Dia a Dia

Lembranças de menino

Por SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

9 de setembro de 2020

Ontem, dia 8 de setembro, comemorou-se o dia de Nossa Senhora da Penha e eu, como devoto, resolvi deixar aqui um resumo de sua aparição: esse o título da Virgem Maria teve início em 1600 quando um monge Francês chamado Simão Vela sonhou com a imagem de Nossa Senhora que estava enterrada no alto de uma grande montanha que se chamava Penha de França, de muito difícil acesso e que ficava na província de Salamanco. À procura da Imagem, Simão caminhou três dias e três noites, escalando a grande montanha. Já exausto, parou para descansar e ali adormeceu.

Nisso, uma enorme serpente aproximou-se para pica-lo, mas neste exato momento, um grande lagarto pulou sobre ele e o acordou. É por isso que a imagem de Nossa Senhora da Penha tem aos seus pés um peregrino, a cobra e o lagarto! Neste momento, Simão viu uma Senhora com um Filho ao colo, sentada perto dele. Esta Senhora lhe indicou o lugar onde estaria o que procurava, e assim Simão conseguiu encontrar a imagem vista em sonho. Por causa de sua aparição na serra Penha de França, e pelos inúmeros milagres, ali foi edificada um grande Santuário em honra a Nossa Senhora da Penha. Normalmente, as igrejas dedicadas a Ela são edificadas no alto de colinas e morros, seguindo a origem da descoberta de sua imagem numa montanha.

E assim foi lá pelos idos anos de 1864 que aqui em Passos, Antonio Caetano Loulou, devoto de Nossa Senhora da Penha, alcançando uma grande graça, prometeu que construiria uma Capela na parte mais alta da cidade. Durante muitos anos se empenhou, contou com o apoio de várias pessoas, e após muita luta conseguiu atingir seu ideal: a benção e inauguração desse símbolo de grande esplendor arquitetônico e da religiosidade Passense que é a nossa Capela de Nossa Senhora da Penha. E o tempo passou!

Lá pelos anos 50 um menino teve sua infância brincando ao redor dessa Capela, e traz hoje em sua memória lembranças de suas antigas e saudosas festas: Os galos dão as últimas cantadas anunciando o amanhecer. No ar, o estrondar dos foguetes de rabo, e nós, meninos, esfregamos os olhos um pouco tontos de sono. Ainda com um ar frio da madrugada, o sino badala sem parar se misturando com os acordes de um dobrado.

É a banda de música da Corporação Musical São José em um caminhão descendo pelas ruas do bairro, acordando a cidade e anunciando o início da Festa da Penha! No dia 8 de setembro, dia de Nossa Senhora da Penha era feriado na cidade de Passos, e via – se pessoas de todos os níveis sociais subindo e descendo pelas ruas e becos do bairro, e na pracinha próximo à Capelinha, o comércio fervia com dezenas de barracas e a multidão circulando em volta. No curral de uma chácara, perto da Capela, juntavam-se os fazendeiros, e o leiloeiro dava início ao animado leilão de gado. Fachadas das casas eram enfeitadas com arranjos especiais para aquele dia, as ruas cobriam com arcos de bambus, e bandeirinhas de todas as cores se estendiam por onde a procissão passava!

Quando o sol vai se escondendo, a primeira bateria de fogos explode. A multidão se aglomera de frente à Capela, a banda já posicionada, Monsenhor Matias à frente do andor todo enfeitado, a sua frente, coroinhas, Sagrado Coração de Jesus, Filhas de Maria, e mantendo ordem nas filas os Congregados Marianos. A todo momento se ouve o repicar dos sinos, e o barulho ensurdecedor dos contínuos foguetes de rabo a subir e estralejar no alto. E a procissão segue com milhares de pessoas numa fé e alegria entoando essa beleza de hino, ”Virgem querida, ó Mãe carinhosa/ Que de Teu trono uma graça venha/ Nós te pedimos, com fé jubilosa,/ Teus filhos somos, teus filhos somos/ Ò Senhora da Penha”. Na chegada da procissão Monsenhor Matias com seu rompante: “Viva Nossa Senhora da Penha”!

“Vivaaaaaaaa” e os sinos voltam a repicar, os pais seguram os meninos pela mão: vai começar o espetáculo da queima de fogos, preparados pelo Sô Tião fogueteiro e família. Volta a agitação na praça, a banda tocando sucessos da época: Saudade de Matão, Branca, Saudade de Ouro Preto, entre outras tantas belas retretas. E na memória daquele menino, entre tantas lembranças, ficou também a cena do leiloeiro com a voz rouca: “Dou lhe uma, duas, e três!” E o povo em volta do coreto disputando cada brinde, sabendo que a espera seria longa até a grandiosa Festa da Penha do próximo ano! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!