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Leio. Logo, sou livre

POR ALEXANDRE MARINO

2 de outubro de 2020

Quarenta e oito anos se passaram. Era uma sexta-feira. Eu, Antônio Barreto, Marco Túlio Costa e Paulo Regissilva, adolescentes e aprendizes de escritores, tomamos um ônibus noturno para Belo Horizonte na rodoviária de Passos. Cada um levava uma mochila quase vazia e dinheiro suficiente para alguns lanches e as passagens de volta. Nosso destino: Itabira. O objetivo era receber medalhas e diplomas pela premiação no 2º Festival de Arte da cidade, promovido pelo Diretório Itabirano de Estudantes (DIE).

Tais conquistas nesse concurso foi um impulso para nossos sonhos literários. Éramos membros atuantes da diretoria da União Passense dos Estudantes Secundários (Upes). Ainda não havíamos lançado a revista “Protótipo”, mas ela já estava em gestação. A revista, que circulou no final daquele ano de 1972, sem vínculos com a Upes, uniu ainda mais nosso grupo em torno da literatura, uma união que não se desfez mais.

Ainda hoje guardamos na memória aquela simbólica viagem a Itabira, assim como as medalhas e diplomas que trouxemos. Recebemos os prêmios durante o Baile da Primavera, embora tivéssemos planejado sair de lá no primeiro ônibus. Obrigados a esperar até a noite, caminhamos sem rumo pelas ladeiras íngremes de Itabira. “Oi, vocês são hippies?”, perguntou um garoto. “Não, somos escritores”, respondemos.

Não tivemos muita energia para curtir a festa, cansados e famintos. Mas tomamos uma cerveja, e pelo menos uma vez entramos na pista para dançar – foi quando o conjunto que animava o baile tocou “Guajira”, do guitarrista mexicano Carlos Santanna, uma de nossas músicas preferidas, sempre presente em nossas festinhas – e nos bailes do Passos Clube ou do CPN.

Não tínhamos câmeras fotográficas e aquela aventura ficou só na memória, a não ser por um detalhe: lá pelas tantas, tirei o rótulo da garrafa de cerveja e o assinamos, como recordação. Com aquele rótulo, comecei uma coleção que hoje deve estar chegando aos 2 mil, todos assinados, rabiscados, desenhados por quem tomou a cerveja. Mas isso é outra história. Rótulos de cerveja rabiscados, memórias, relatos são registros de momentos importantes, e a literatura dá ordem a tudo isso.

Itabira é a terra de Carlos Drummond de Andrade, que na época já era um nome importante da literatura brasileira. É de se perguntar: por que não procuramos a casa onde ele morou, os locais que frequentou? Há uma boa razão. Em Itabira, Drummond era desconhecido, até desprezado. Só anos depois de sua morte a cidade acordou para seu filho mais ilustre, restaurou imóveis, espalhou estátuas e criou a fundação cultural que leva seu nome, além de um “roteiro drummondiano” em suas ruas.

Éramos leitores de Drummond – e de uma penca de outros escritores, que descobríamos e indicávamos uns aos outros. A leitura nos levou à escrita. Qualquer escritor ficará indeciso ao responder o que é mais prazeroso. A leitura nos retira de nosso mundinho limitado e nos apresenta um horizonte aberto. A escrita nos ajuda a organizar nossa visão de mundo e aprofunda a experiência de viver.

A leitura é imprescindível na educação. Estimula a ação dos neurônios, desenvolve a cognição, a memória, a compreensão da linguagem e a capacidade de compreender novos mundos – ou outros indivíduos. Educar não é apenas ensinar a resolver equações, introjetar fórmulas, desenvolver raciocínio lógico. Não é obrigar o estudante a acreditar em dogmas ou sectarismos. É abrir a cabeça do indivíduo, para que enxergue o horizonte à frente e escolha seus próprios caminhos. É prepará-lo para ter autonomia, capacidade de discernimento, de reflexão. Por isso, educar é libertar.

O Brasil atual é diferente daquele. Na época, com o AI-5 em pleno vigor, nós, jovens, acreditávamos na transitoriedade da ditadura e num futuro de liberdade, mais justiça, menos desigualdade. Hoje vivemos um gigantesco retrocesso, as instituições fraquejam, artistas são perseguidos, a educação sofre pesado ataque, o poder público atenta contra as liberdades, o país é literalmente incendiado e nos tornamos alvo do deboche internacional.

Vivemos tempos de desprezo às ciências, à educação, às artes e particularmente à literatura – embora muito se fale na importância da educação e da leitura para o desenvolvimento do país. Governos autoritários não admitem questionamentos, e sabem que pessoas bem educadas são questionadoras, porque têm o raciocínio livre e capacidade de discernimento. A liberdade é assustadora.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna