Destaques Opinião

Lei de Murphy

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

11 de novembro de 2020

“Não há nada tão ruim que não possa piorar” (máxima da Lei de Murphy) Com certeza, todos já experimentamos, em algum momento de nossas vidas, a ação e os efeitos desta tenebrosa lei, provavelmente naquela conjuntura em que tudo já está muito ruim e, aí, você pensa que nada de pior pode acontecer… e acontece.

Lembro-me de personagem que, altas horas da noite, chegando de viagem à sua residência, no segundo andar de um prédio, em noite chuvosa, passa, antes, por um carrinho de cachorro-quente e compra um sanduiche para comer em casa. Após comer a pequena refeição, resolve atirar os restos e a embalagem na lixeira externa do edifício, que ficava na rua. Dirige-se, então, à sacada de seu apartamento, piso de granito, molhado pela chuva fina que caía, e lança o pacote de lixo em direção à lixeira. No balanço do movimento, escorrega no piso molhado, desequilibra-se no parapeito e cai dois andares abaixo, em direção ao contêiner de lixo (sorte não ter caído dentro).

Acorda algum tempo depois, corpo estirado na calçada, rodeado por socorristas do Samu e pelos vizinhos. Ainda atordoado, sem se dar muita conta do que estava ocorrendo, sente a ausência de um de seus braços. É que, na queda, ao bater na cerca de proteção do prédio, este membro ficou praticamente separado de seu corpo, preso apenas pelos ligamentos. Sobreviveu. Não perdeu o braço, mas teve que usar uma estrutura de metal para sustentá-lo, cheia de hastes e de pinos que o atravessavam, por um bom tempo, até a sua recuperação.

Ufa! Que sorte, não é mesmo? Porém, pouco tempo depois, ainda se recuperando da queda, tal personagem, caminhando descontraidamente por avenida da cidade, depara-se, inadvertidamente, com degrau – depressão, na realidade -, à sua frente e, pisando em falso, sofre nova queda, desta vez ao nível do solo. Porém, segundo a máxima da lei de que dá título a este artigo, indaga-se: sobre qual dos braços o nosso personagem, supostamente fictício, caiu? Sobre o saudável ou sobre o já danificado?

Para resumir o final da história, o ‘sortudo’ caiu sobre o membro que já estava lesionado, vindo a quebrar a estrutura de metal que o sustentava e, chegando ao hospital para ser socorrido, teve um final feliz… não, não teve um final feliz pois, como diz uma das leis de Murphy, quando algo de ruim acontece, acontece da pior forma possível. Nessa sucessão de tragédias ocorridas com essa pessoa, ao chegar ao maior hospital da cidade para ser socorrido, verificou-se que não havia naquele estabelecimento instrumento capaz de cortar os pinos de aço e de titânio que sustentavam o seu braço e que necessitavam ser removidos. Não vou, aqui, contar o desenrolar final desse drama tragicômico. Fica por conta da imaginação do leitor. Mas, para alívio geral, após algum tempo do ocorrido, o nosso personagem passa bem.

“Eu era feliz e não sabia” Quem já não disse essa frase, quem já não viveu uma situação, ou encontrava-se em uma condição, em que se julgava insatisfeito, infeliz e, por vontade própria, buscou sair dela metendo-se em outra que se tornou pior que a anterior? Depois, muitas vezes, bate o arrependimento. Mas, quase nunca é possível resgatar a situação anterior.

Isso ocorre muito em relacionamentos amorosos rompidos, na troca de parceiros, em separação de casais, na vida profissional, em quase todas os aspectos e circunstâncias da vida e, até, na política. Nesta sociedade imediatista em que nos tornamos e vivemos, em que tudo se torna objeto de consumo rápido e descartável, necessitamos investir e trabalhar mais nas coisas ordinárias do nosso cotidiano, nos nossos relacionamentos e nas coisas que nos apresentam dificuldade, antes de as abandonarmos aos primeiros sinais de dificuldades e partirmos para outra opção como resposta aos nossos problemas, sem exaurirmos todas as possibilidades de solução.

Uma vida melhor e mais justa para nós e para todos não nos chega gratuitamente, é uma construção pessoal e coletiva e demanda compromisso com princípios éticos e com o outro, em trabalho árduo, diuturno e incessante. As eleições se aproximam. Pense bem em quem você vai votar. Solução fáceis e mirabolantes não existem – e, se adotadas, com certeza, vão atrair as fatalidades da Lei de Murphy (sobre você e sobre outros). “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos”. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente, nesta coluna