Destaques Dia a Dia

Jeitim mineiro

POR ADELMO SOARES LEONEL

12 de dezembro de 2020

O perdigueiro brecou nas quatro patas, riscando o chão, quase encostando no velho que segurava o pato morto, avaliando-lhe o peso. Atrás, bufando da correria, surgiuo caçador, cartucheira presa na cacunda, botas lustrosas de cano alto engolindo as pernas da calça, cinturão grosso segurando a pança proeminente, chapéu de marca indicando abastança de cobres. A voz cortou funda, ordenando a seco:

– Me dá meu pato aí.

O velho matuto, entre curioso e manso, espalmou a mão pro fulano:

– Peraí, peraí. Di premero, bas tarde.

O outro só fungou.

– Intonces. Qui é memo qui o sinhô qué?
– O meu pato, que acabei de caçar.
– Uai. Num tô veno pato ninhum seu aqui, sô.
O sossêgo do da roça enervava o da cidade.
– Este aí dependurado na sua mão, com marcas de chumbo.
– Acá nas Minas Gerais a gente marca criação do dono di ôtro jeito. Furo di chumbo? Esse? Aara, esse é meu.
– Seu porcaria nenhuma. Eu cacei, eu matei. O pato é meu.
– O sinhô as veiz num sabe mas essa terra é minha, dereito de herança. Tamém de dereito, o pato é meu.
– Eu atirei no pato do lado de lá da cerca. Por acaso, ele caiu aqui.
– Num me interessa. O sinhô tem dicumento qui o pato é seu?
– Aqui, ó mineiro! Me dá logo o pato e vou perdoar sua ignorância.
– Ingnorante? Ieu? Sô é munto do sabido. Inté logo.

Foi a conta:

– Capiau de uma figa! Você nem imagina com quem está falando, não é?
– É. Ainda num tive a sastifação di sê apresentado.
– Pois saiba que eu sou o Doutor Alfredo de Lima Álvares Penteado, famoso advogado na cidade de São Paulo.
– Prazer. Vito do Marcolino Sirva. E inté mais qui ieu tenho di intrá pra dentro pro mode cozinhá esse pato. Sirvido?

A tentativa de escapulir do doutor adevogado (“raça ruim di mexê!!!”) foi interrompida pelo ultimato ameaçador:

– Vou levar esta questão às barras da justiça e vai ser em São Paulo. Você vai quebrar e perder suas terras só com os gastos de viagem. Mesmo se o juiz lhe der ganho de causa, estarei vingado.
– Pro mode dum pato? (“Esses dotô da cidade, delegado, adevogado, de consurta, da política só dá pobrema, quero distança. Mas dá o pato ansim de mão bejada? Ara!”)
– Pur causa de que nóis intão num pode arresorvê essa pendenga do jeitim mineiro, hã?
– E como seria esse tal “jeitim” mineiro.
– Simpres: ieu dô treis chute no sinhô. Dispois o sinhô dá treis chute ni mim. O qui guentá os chute sem chiá nem gemê, fica cum pato.

A avaliação da compleição física do velho quase fez rir o Doutor Alfredo. (“Quem propôs foi ele, não foi? Azar o seu.”) Não lhe informaria os anos de karatê e sua potência de golpes. Daria uma lição inesquecível naquele caipirinha.

– Topado. Pode começar você chutando. (“Depois o arrebento!”)

Abriu as pernas, cruzou os braços e aguardou, mirando firme o velho. Não gostou da botina gomeira com sola de pneu quando seu opositor arregaçou a barra da calça, desconfiou das dobradas de joelho à guisa de aquecimento nem do galeio incial ao vê-lo correr em sua direção. E aí…

O Vitor lembrou-se com orgulho de seus tempos como beque de espera no time do povoado, da bola pesada de couro cru que fazia voar lá em riba (“as veiz inté vortava moiada”) e tacou um chutaço no saco do paulista, pensando ter ouvido mesmo uns barulhinhos de bolotas esmigalhadas…

Primeiro esbugalhou os olhos, segundo dobrou-se em dois, depois se quedou estático tentando entender a dor e respirar. (“Cadê o ar?”)

( “Ih, parece qui o dotô bebeu forgo! Tá arroxeano!!!”) Trato era trato. Sem parar de dar seus pulinhos como numa corridinha imaginária, mirou a boca do estômago e soltou a botina com vontade, como num tiro de meta. O adevogado paulista se espatifou para adiante, engruvinhado…

Em posição fetal, desoxigenado, em instâncias de desmaio, a última coisa que viu, antes da escuridão, foi o velhinho saltitante virlhe com a botina em direção ao queixo.

(“Danado! Num deu um pio!!!”)

O tempo transcorrido? Uma incógnita. Apenas um sonho ruim misturando alguém a lhe triturar os testículos numa máquina de moer carne, um boi de tourada perfurando o estômago e o Mike Tyson arrancando-lhe o pescoço. Avoado, tonto, aos poucos se recuperava, com uma vontade doida de matar enquanto a imagem dócil do velho se reconstruía à frente.

-Tá miorando, dotô?

(“Já já você verá!”)

– Agora é minha vez de bater. Prepare-se.
– Sabe o quié, doto. Num carece batê não. Perdi a questã, pode ficá cum pato!!!