Destaques Do Leitor

Il Pibe: O Menino Encantado

27 de novembro de 2020

Chega a notícia postada pelo meu filho, Dmitri. Ligo para confirmar. Ele balbucia e diz que tinha acabado de acessar o Clarín, no exato momento da publicação. A mim pude perceber que chorava. Chorei, também. Os antigos narradores clamavam pelos “deuses do futebol”. Não entendia muito bem até que pude identificar muitos deles. Brasileiros. Argentinos. Uruguaios. Chilenos. Europeus, muitos. Africanos, vários. Quando vi Pelé frente a frente num pequeno estádio do interior tive a certeza. Eu era um menino de 11 anos de idade.

Já torcia pelo Botafogo carioca por conta do Garrincha, Didi, Nilton Santos. Mas, sabia deles pelo rádio. Pelé jogou só o primeiro tempo. Pouco ou nada fez. Os torcedores, então, começaram a vaiá-lo. Devia faltar uns dois ou três minutos para o fim do tempo regulamentar, como se dizia. Escanteio para o time do Santos. No meio da área, Pelé bate com a mão em seu topete. Tite cruza. O desvio foi o de um menear de cabeça. O ótimo goleiro Aldo de um lado e a bola do outro. Explosão. Havia um Deus à nossa frente.

Maradona, o menino encantado que faleceu quarta, é um dos mais salientes dessa galeria. De origem humilde, desde a infância provocava emoções por conta de um talento invulgar no domínio da bola. Do chute certeiro. Dos dribles desconcertantes. O competente técnico César Luís Menotti não o convocou para a Copa de 78 em que os argentinos foram campeões. Disse que era muito jovem. E realmente o era, ainda não completara 18 anos. Esqueceu-se – e não devida – porque jogou na Vila Belmiro quando o jovem Edson começava. E que foi campeão do mundo com essa idade. Uma injustiça ao Pibe que teria mais um elemento de comparação com o Rei.

Aliás, os dois tiveram tantas rusgas e desafeições que acabaram por se tornar grandes amigos. A foto em que Maradona beija Pelé num evento da Fifa o confirma. Criaram uma recíproca afeição de um ver-se no outro por talentos diferentes mas absurdamente superiores. As novas gerações vêm em Maradona o que não puderam ver em Pelé. A minha teve o enorme orgulho de vê-los, os dois e os outros, desfilar pelos estádios do mundo. A mensagem mais bonita só podia ser de Pelé: “um dia vamos bater bola no céu.” Na última entrevista, D. Diego pergunta: “me pergunto se vão me amar…” Descanse em Paz, pequeno Deus. Por amarmos o futebol, nós te amaremos para sempre!!!

Gilberto Abreu – Ribeirão Preto/SP