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Gentileza e eleição: o que essas palavras deveriam ter em comum?

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

14 de novembro de 2020

Fiquei sabendo que ontem foi o dia da gentileza, no Brasil. Tal ideia apareceu pela necessidade de proporcionar estímulo à gentileza e, dessa forma, gerar mais esperança a partir desse contexto histórico e triste do covid-19. A data foi idealizada por Glauber Gentil que considera o conhecimento e o respeito pelas pessoas, pontes para a felicidade e a tolerância.
Quando se fala em gentileza, pensamos em comportamento. Essa palavra vem do Latim “comportare”, que significa “trazer junto”. A sua morfologia, ou seja, a sua formação, como vemos, é aliada por com- (“junto, com”), seguida de “portare” (“carregar, transportar”). Após isso, o seu significado ficou conhecido como “arrumado, corretamente disposto, bem arranjado”.

Para saber se há gentiliza no gesto de alguém, precisamos nos ater ao seu tipo de comportamento. O que a pessoa traz junto consigo? Situações boas, de equilíbrio, para o bem, em conjunto, mesmo diante de coisas ruins? Ou ela traz o mal só pelo prazer de fazer tal evocação? A partir dessas questões, vamos conhecer a origem da palavra gentileza. Ela é derivada do Latim “gentilis”, que significa “da mesma família ou clã”, de gens, “grupo de famílias definido no início da formação de Roma”. Isso nos remete a uma ideia de pessoas nobres, que querem tratar bem os outros. A palavra gentílico, usada para designar uma origem, vem da mesma origem de gentileza. Por exemplo: qual é o gentílico de quem nasce em Passos? Passense.

Olhando pelo prisma das origens das palavras comportamento e gentileza, não há como não lembrar de nossa maior conquista histórica dos últimos 30 anos: o voto direto, a democracia na política. Por óbvio, aqueles que se dispõem a participar do pleito eleitoral, precisam ser transparentes, idôneos, leais, éticos, ter o espírito de liderança, ser bons comunicadores e prestadores de serviços para o bem comum. Isso tudo podemos ver diante dos comportamentos que os candidatos possuem (lembra do significado que coloquei acima?).

Ainda que haja divergências no campo das ideias, me pergunto: por que uma pessoa que está em um processo democrático, não consegue ser gentil de forma nenhuma? Será pelo foco no poder? Para dizer que é bom, o melhor e vai acabar com isso e aquilo, sem ao menos dizer como? Ah! Estamos em nível muito abaixo no que se diz respeito aos argumentos e o modo como eles são dispostos. Aristóteles que nos ensinou isso estando no IV século a.C, deve estar se revirando na tumba. O pior de tudo é que há ignóbeis que adoram coisas tacanhas e violentas.

Quer um exemplo de que ainda falta-nos mais gentileza? É só observar o trânsito. Tenho visto que já existem muitas pessoas educadas ao volante. Você já observou que quando acontece de um motorista parar na faixa de pedestre, acenando com gentileza para alguém atravessar e, por sua vez, essa pessoa se nega? Eu já vi e vivenciei várias vezes. Sabe o que significa isso? As pessoas ainda não estão acostumadas com a gentileza. Por isso, não a reconhecem. Santa democracia, rogai por nós!

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: @prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob