Destaques Geral

Para juízes, furtos de fios em Passos são para alimentar vício em crack

Por Mayara de Carvalho / Especial

11 de março de 2021

Foto: Divulgação

PASSOS – Casos de furtos de fios em Passos têm se tornado corriqueiros e muitos estão relacionados ao crack, apontam juízes que atuam em varas criminais no fórum da cidade. Segundo eles, é preciso investimento em políticas públicas para ressocializar os usuários da droga e combater a receptação. De acordo com empresas de telefonia e serviços de internet, a prática do crime tem levado a interrupções no fornecimento, o que afeta os usuários, e a prejuízos para o setor.


Você também pode gostar de: Vendas de peixe aumentam cerca de 50% na Semana Santa

Segundo denúncia feita pelo vereador Michael Silveira durante a sessão da Câmara da última segunda-feira, 180 boletins de ocorrências sobre furto de cabos e fios foram registrados em 15 dias por 13 provedores que atuam na cidade. De acordo com o vereador, nos últimos dias, cerca de 10 mil imóveis ficaram sem comunicação devido aos crimes e os prejuízos às empresas é estimado em R$5,8 milhões.

Para o juiz titular da segunda vara criminal e infância e juventude de Passos, Mateus Queiroz de Oliveira, os furtos de fios e cabos, muitas vezes, estão relacionados ao uso de crack.

Na semana passada, fiz um processo sobre um caso desses. O que vemos é que esse tipo de furto é cometido, na grande maioria das vezes, por usuários de crack. Essa questão já é bem recorrente na cidade. São dependentes químicos que vivem em situação de rua, em situação de vulnerabilidade”, disse o juiz.

Cada caso é um caso, porém, em um exemplo que a pessoa pega dois anos de reclusão, acaba por cumprir 20% da pena, depois vai para o semiaberto, em seguida prisão domiciliar e volta, sim, para a rua”, disse.

Segundo Oliveira, uma das soluções seria a criação de políticas públicas para ressocializar essas pessoas.

Um furto desse não merece uma pena maior. Essas pessoas vão para o presídio, saem sem encontrar trabalho e não conseguem se ressocializar e tratar a dependência química, então, continuam a cometer crimes”, disse o juiz.

O vício nessa droga faz com que os indivíduos comecem a cometer pequenos furtos e, normalmente, nem vendem o produto furtado para comprar as drogas, já o trocam pelo entorpecente. Essa questão deveria ser analisada pelo poder público. Não vejo como um fator de direito penal em si. O sujeito é preso, na hora de sair já sai excluído, ex-detento, viciado em crack, sem estrutura familiar, na maioria das vezes, sem estudo, sem condições financeiras. A questão é muito social”, afirma.

O juiz da primeira vara criminal e de execução penal de Passos, Ademir Bernardes de Araújo Filho, também aponta a relação entre os furtos e o vício em crack e que muitas das pessoas que cometem o crime são réus primários.

Em caso de condenação, não acarreta prisão, sendo primária. Se ao final a pessoa vai ter a pena substituída ou não, depende do caso. Grande parte dos que têm sido flagrados são réus primários e a própria lei não permite que essas pessoas permaneçam presas”, disse.

Para ele, o trabalho social e o combate à receptação dos produtos furtados devem ser adotados para resolver o problema.

Dizem que tem que aumentar as penas. Contudo, essas pessoas vão sair da cadeia em algum momento, então é preciso um trabalho de socialização, uma política voltada para esse pessoal e, claro, a sociedade não pode adquirir esses tipos de produtos”, afirma o juiz.

Temos a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), que faz esse tipo de trabalho de ressocialização. Mas a problemática da droga é muito maior que o fato dele já ter sido preso. Então temos que lidar melhor com essa questão da droga”, disse.


Empresas cobram segurança e ação contra receptadores

PASSOS – Empresas que atuam em telefonia e serviços de internet recorrem ao poder público e cobram mais segurança. O gerente de uma rede de internet e telefonia na cidade Daniel Amaro Soares afirma que ter procurado o poder público após perceber que não conseguia êxito apenas acionando a Polícia Militar após as ocorrências.

A polícia prende cedo, o judiciário solta à tarde. Isso não é apenas um furto, é uma questão social. Na última vez que nossos cabos foram furtados, deixamos 3 mil clientes offline. Alunos ficam sem aulas, empresas de monitoramento ficam sem câmeras, etc. O que está acontecendo é uma calamidade pública”, disse.

O gerente também cobra atuação sobre os receptadores que compram os cabos.

Quem compra esses cabos furtados está alimentando o crime. Tivemos uma reunião com todos os provedores. Quem está sendo mais prejudicada é a empresa Oi, pois os fios deles são só de cobre. Os nossos, de fibra ótica, são apenas cortados juntos e, quando o indivíduo vê que não tem valor, só deixa o cabo solto no chão”, disse.

De acordo com o gerente, em cada ocorrência de furto, a população chega a ficar até dez horas sem o serviço. Por meio de nota, a Oi informa que tem enfrentado dificuldades para manter o funcionamento dos serviços de telefonia e internet em algumas regiões de Passos e que, em virtude da ação de criminosos, a empresa vem sendo vítima recorrente de furtos e de vandalismo, o que impacta na manutenção e disponibilidade dos serviços oferecidos.