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“Fui o vereador mais jovem, e agora, o prefeito mais jovem de Alpinópolis”

30 de novembro de 2020

O prefeito eleito de Alpinópolis, Rafael Henrique da Silva Freire, quer fazer mudanças significativas na administração do município. / Foto: Divulgação

Dando continuidade à série de entrevistas com prefeitos eleitos na região, a Folha recebeu nesta semana a visita de Rafael Henrique da Silva Freire, 27 anos, que assumirá o Executivo de Alpinópolis pelos próximos quatro anos. Ele é advogado, pós-graduado em Direito Constitucional e Eleitoral pela Universidade de São Paulo (USP), técnico em Administração, além de, atualmente, exercer o cargo de vereador.

Natural de ‘Ventania’, o filho da costureira Suzana Vilela e do motorista Wanderley Freire, e irmão de Bruno e Luana, contou à reportagem que os apoios da campanha foram seus familiares e também a família de seu vice-prefeito, Leonaldo Cândido da Silveira, o Léo do Posto. Para se dedicar à prefeitura e por uma questão legal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Freire deixará as funções em seu escritório.


Folha da Manhã – Você disse durante a campanha que iria representar a mudança que a população busca. Você vai manter esse pensamento na sua administração? Se sim, como?

Rafael – A mudança já aconteceu na nossa campanha. Nós fizemos uma campanha completamente diferente das que Alpinópolis estava acostumada, pois não teve barulho, não tivemos tanta presença de rua. Principalmente em respeito ao momento de pandemia que vivenciamos. Então, neste sentido, não abrimos comitê, não fizemos comício e nem contratamos pessoas para trabalhar conosco. Foi a nossa família que abraçou a campanha, meus pais chegavam do trabalho e já iam para as ruas ajudar a distribuir panfletos nas casas. Este foi meu primeiro mandato como vereador, que termina agora em dezembro. Fui eleito aos 22 anos, sendo o mais jovem da história de Alpinópolis, e agora o mais jovem da história como prefeito, com 27 anos.


FM – Seu material de campanha foram basicamente os santinhos?

Rafael – Santinhos, plano de governo e muito diálogo. Nós entramos em todas as casas de Alpinópolis, tanto na cidade quanto na zona rural, nas residências que nos receberam, claro. Foram 45 dias de uma intensa maratona, uma verdadeira peregrinação para conseguir atingir o máximo de pessoas possível em um curto período de tempo.


FM – E Alpinópolis tem uma característica de ter bairros rurais muito distantes?

Rafael – São bairros distantes e com uma população rural extensa, isso dificulta um pouco o acesso, mas nós tentamos dar cobertura a todos aqueles dentro desse espaço pequeno que nós tínhamos e, depois da vitória, fizemos uma comemoração muito modesta. Não soltamos fogos (o que foi histórico, porque a política em Alpinópolis resolvia-se com barulho e na base dos foguetes). Foi em respeito aos animais, aos idosos, aos autistas, às pessoas com necessidades especiais, à população e, inclusive, aos nossos adversários. Não fomos a nenhuma residência insultar ninguém, fizemos uma comemoração muito serena e muito pacífica que até a própria Polícia Militar ficou surpresa com a realidade e a situação.


FM – O que fez depois de eleito?

Rafael – Depois de eleitos, no domingo, dia 22, nós promovemos a carreata solidária da União, então nós trocamos os foguetes por alimentos não perecíveis, já arrecadamos mais de 500 quilos de alimentos. Esperando chegar até uma tonelada até o final do ano, porque a campanha de doação vai continuar. Se a população quiser doar ainda dá para levar o seu alimento, é só deixar no quartel, uma vez que a Polícia Militar é parceira, está conosco nessa ação. Com isso, esta eleição tem várias características diferentes das anteriores.


FM – De onde vocês tiraram essa ideia?

Rafael – Vi que aqui em Passos o prefeito eleito Diego Oliveira havia promovido a carreata nestes moldes, não sei se a ideia é dele, ou se ele viu alguém fazendo, mas nós fizemos igual. Quando tomamos conhecimento desta ideia pensamos que era bacana e positiva. Tem um lado social muito forte. Nós já estávamos pensando em fazer algo diferente, uma comemoração diferente e quando nós nos deparamos com essa possibilidade pensamos: “é isso que Alpinópolis precisa”. Nos nossos últimos atos de campanha, também substituímos os fogos por balões biodegradáveis com sementes. Soltamos 40 balões na porta da Igreja Matriz lá de Alpinópolis, com sementes de sucupira e mudas frutíferas. Cada balão com quatro ou cinco sementes. Não podiam ser muitas, se não eles não iam subir. Foram 40 por ser o número da nossa legenda partidária. Esta foi uma maneira de homenagear a legenda e um ato simbólico, mas que teve uma grande repercussão na cidade e ficou muito bonito, a gente fez um vídeo, então foi uma coisa bem elaborada. Depois de eleito, já começamos a trabalhar na segunda-feira, cheguei na Câmara na segunda-feira no meu empenho para finalizar a vereança.


FM – O seu secretariado será reflexo desta mudança que você prega?

Rafael – Sim, certamente a composição do secretariado – que em Alpinópolis são departamentos – vai seguir este mesmo caminho. Nós ganhamos a eleição sem fazer troca, então não trocamos nenhum apoio e isso está me dando uma tranquilidade, independência e liberdade para escolher quem realmente eu acho que tem um perfil para ocupar cada secretaria. Para a Secretaria Municipal de Fazenda, convidamos Vicente Diniz. Ele foi chefe de gabinete do Banco Central, foi diretor do Banco do Brasil, diretor adjunto da Secretaria de Fazenda do Estado de Minas Gerais. Aposentou-se como servidor público federal, e participou da elaboração do Plano Real. Casado com uma filha de Alpinópolis, a Eliane Cristina Ribeiro Diniz, ele está morando na nossa Ventania. Quando eu soube que ele estava de volta, fui até ele, fiz o convite e prontamente ele aceitou esse convite e essa missão. Eu ainda comentei com ele que não é pelo dinheiro, mas pela causa, e o sim dele não foi para mim, foi para Alpinópolis.


FM – E isso vai se repetir com relação à maioria dos seus secretários?

Rafael – Vai ser nesta pegada, esse perfil. O nosso secretário de Obras é engenheiro, jovem de 27 anos, Deile Vaz. Preparado, tem muitas especializações dentro da Engenharia. A secretária de Saúde será Sandra Mara Borges da Silveira, que já foi secretária de Saúde do município, é professora, foi vereadora, foi candidata a prefeita na eleição de 2012 e é considerada até hoje a melhor secretária de Saúde que Alpinópolis já teve. Ela tem uma vasta experiência na área e é servidora do quadro efetivo do município. Então, já faz parte dos quadros e teremos, com isso, a redução de salário. Já representa uma economia. A pasta de Educação nós ainda não fechamos. No Esporte temos tratativas com Maurício, que é ex-jogador do América-MG e hoje é o coordenador técnico de um ex-jogador da Seleção Brasileira de futebol. Nosso secretário de Obras de estradas vicinais, que é o setor rural, será o Mauro da Ração, que é vereador nesse mandato e que atua muito dentro do setor rural, tem um amplo conhecimento do setor do município. Para secretário de Administração, convidamos Everaldo Carvalho.


FM – Você pretende reduzir departamentos e fazer uma reforma administrativa?

Rafael – A minha intenção inclusive é essa: promover uma reforma administrativa para reduzir o número de departamentos, criar secretarias e dar mais independência para os secretários trabalharem. Eu não vou conseguir fazer isso no ano que vem, por causa da Lei 173 que congelou os gastos públicos. Eu não posso fazer essas alterações. Então, a partir de 2022, vamos colocar em prática. Para a área de Patrimônio, por exemplo, ele já é servidor público do município, atua dentro do setor, que é o Leonardo Santos, então ele já atua e tem uma ampla experiência, ainda mais na economia que nós estaremos fazendo, porque são profissionais que já estão ali. Na Licitação, por exemplo, nós estamos direcionando a Tânia Silveira, que é servidora de carreira. No RH, nós estamos direcionando a Rita Faria e a Fernanda Ávila, que já são servidoras. Para a Chefia de Gabinete e Agricultura, eu não nomeei.


FM – O vice-prefeito vai ter alguma atuação específica, vai assumir alguma diretoria?

Rafael – O Léo do Posto ocupará o papel dele, será um vice-prefeito atuante, substituirá o prefeito nas minhas ausências. Tenho defendido muito que eu não quero que a prefeitura fique sozinha quando eu não estiver. A população não ficará desassistida. E já temos agendas em Belo Horizonte e em Brasília já para os primeiros dias de 2021. E, com relação à zona rural, o Léo vai acompanhar de perto, afinal de contas ele conhece muito produtor rural, trabalha com isso já nas empresas dele e vai oferecer suporte para a diretoria de Agricultura e para as estradas vicinais. No departamento jurídico, temos três cargos à disposição do município, mas queremos criar concurso público para o cargo de procurador, que não tem em Alpinópolis, mas não posso fazer para o ano que vem, também em razão da Lei 173, que foi editada agora em virtude da pandemia. Mas, já é algo que vamos deixar estruturado para, a partir de 2022, realizar o concurso. Quanto aos outros dois advogados, serão pessoas da minha confiança, com conhecimento na área. Um deles, de Alpinópolis, e o outro, de Carmo do Rio Claro, Antônio Giovani, que já está conosco compondo a equipe de transição. A parte de Convênios ficará a cargo de Cláudio Krauss, ele que nos dará esse suporte, é uma pessoa que tem conhecimento na área e é uma economia também, pois hoje o município paga R$8 mil para uma empresa prestar o serviço, então ele vai receber o salário de um diretor e nós vamos economizar significativamente para os cofres públicos. A equipe realmente é qualificada, estamos entrando com um grupo de primeira. Secretário da Fazenda eu acho que na região não tem igual, ele vai destravar muitas coisas para nós.


FM – Dentre os maiores gargalos que Alpinópolis tem, podemos citar: déficit de casas populares, o convênio com a Copasa e o desemprego. Quais suas ações para estes casos?

Rafael – Uma das prioridades é com relação às casas populares. Este é um assunto que já está nas mãos do nosso secretário de Fazenda para destravar junto à Superintendência Estadual da Caixa Econômica e parece que a coisa já está fluindo. Quanto à Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), vamos nos reunir com a empresa, tentar uma tratativa administrativa e, se isso não for possível, nós vamos romper o contrato. Vamos criar alternativas, que seriam através de autarquias como o Saae ou com outras empresas privadas em parceria pública. Uma coisa é certa: nós vamos resolver os problemas relativos à Copasa.


FM – Quando você diz destravar, há algo pendente?

Rafael – Nós temos uma pendência do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, que a gente tem que regularizar. É uma parte mais burocrática de documentação e a política municipal de habitação que nós vamos ter que implantar, fortalecer o Conselho Municipal de Habitação e Interesse Social. Já foi criado, mas isso não foi colocado em prática, tanto que nós chegamos a procurar essa legislação no site e não encontramos. Então, para ver a gravidade da situação, a gente precisa regularizar essa pendência, para depois fazer com que o recurso chegue até o município. Queremos solução no menor tempo possível, fazer com que se torne realidade.


FM – Você tem alguma ideia do déficit habitacional de Alpinópolis?

Rafael – Cerca de 800 famílias que pagam o aluguel, o que é um número considerado alto para Alpinópolis. Tanto que os aluguéis hoje são os mais caros da região, sendo o de uma casa simples de poucos cômodos praticado em R$500, R$600. Isso para quem tem salário mínimo é impossível de manter. E aí entra a Copasa para terminar de enterrar a população, cobrando R$200, R$300, R$400 de água por mês e um serviço que não funciona, porque a qualidade é péssima. Então, a gente olha Passos hoje, que tem um Saae que paga R$30, R$50, paga o mínimo do mínimo, a tarifa social, que sem a tarifa social seria mais caro.


FM – E, atrelado a isso, tem o fator de empregos?

Rafael – Apenas 14% da população trabalha de carteira assinada, 33% vive com renda de até meio salário. Então você pega esses 33%, é um número muito significativo de pessoas que estão vivendo com um salário mínimo em Alpinópolis e, com esse salário mínimo, a pessoa tem que manter as despesas da casa, tem que pagar Copasa, tem que pagar aluguel, filho na escola, tarifa de tudo, pagar IPTU. Precisamos resolver este problema social.


FM – Qual o índice de desemprego no município?

Rafael – Acredito que o índice de desemprego deve estar na casa de uns 30% ou 40%, até porque a população que está trabalhando, em sua totalidade, é considerada desempregada, porque você vê o desemprego pelas carteiras de trabalho, então 14% na totalidade, e está faltando muita gente para completar. Vamos realmente ter um olhar especial para o desenvolvimento econômico do município, nós teremos a criação de Distrito Industrial, já fiz contato com o Sebrae, nós queremos levar o Sebrae para dentro do município, afinal, o empreendedorismo está na veia do nosso povo, mas faltava suporte da prefeitura. Quero reaver o convênio com a Emater, para desenvolver um trabalho no campo, porque é um dos segmentos que pode gerar muitos empregos. Penso e quero um modelo econômico de gestão que é colaborativo e criativo. Uma economia criativa se observa no governo de Tony Blair. Quando ele assumiu como primeiro-ministro na Inglaterra, ele fez com que o conhecimento fosse a bola da vez. Por exemplo, o aparelho celular que você tem hoje, ele vale menos do que os aplicativos que estão dentro dele. Este é o caminho da economia criativa e é o que a gente quer implantar em Alpinópolis. Uma pessoa que esteja produzindo doce ou artesanato, nós vamos agregar valor ao produto dela através do conhecimento.


FM – Ainda sobre a geração de empregos, vai buscar alguma empresa para se instalar em Alpinópolis?

Rafael – Nós iremos buscar empresas, inclusive já tem duas que estamos conversando, do ramo de confecção, que estão interessadas em investir em Alpinópolis. Mas queremos valorizar também as empresas da terra, por exemplo, nós temos hoje uma empresa de reciclagem que não contrata mais pessoas porque não tem matéria-prima. Alpinópolis não conta com coleta seletiva do lixo, portanto, enterramos o dinheiro. O lixo é dinheiro, então aquela garrafa PET que você manda para o lixão em terra, é dinheiro. Famílias poderiam estar se alimentando a partir disso. Outro exemplo: um serralheiro que produz móveis rústicos com a ferragem nos disse: “Olha, trabalha aqui comigo mais um funcionário, e eu teria condições de empregar outros dez se eu tivesse um espaço maior para trabalhar”. Então, quando eu falo da criação do Distrito Industrial, é realmente colocar e direcionar essas pessoas, esses empreendedores, para aquele local para movimentar a economia da cidade.


FM – Terá algum tipo de incentivo fiscal?

Rafael – Nós vamos criar uma política de incentivo fiscal também, aquele comerciante, o empresário que empregar mais pessoas no município, ele terá uma redução fiscal da sua carga tributária, lógico dentro de um planejamento, porque eu não posso fazer renúncia de receita, mas é possível reduzir um pouco dessa contribuição tributária, naqueles impostos que dizem respeito ao município. E, em contrapartida, a gente aumenta a oferta de emprego no município. Nós sentaremos também com o Ministério Público, com Poder Judiciário e a Câmara de Vereadores para criar os programas Jovem Aprendiz e Primeiro Emprego. Hoje é comum você ver um jovem de 20 anos, 22, 25 anos que não trabalhou e, quando chega para disputar a vaga, pedem experiência. Se você nunca teve oportunidade, como é que você vai ter experiência? Então nós vamos mudar essa cultura do emprego na cidade também.


FM – Como vereador foi seu primeiro mandato? E pretende seguir carreira política?

Rafael – Foi meu primeiro mandato o de vereador. Espero, tenho pretensão, sim. Comecei a despertar para política no ensino médio, eu participei da eleição como membro do colegiado e eu sempre gostei muito da área de humanas, então desde muito novo eu falava que queria ser advogado, que iria fazer Direito e queria ser promotor de justiça. Era o que eu tinha em mente, mas depois, já no final do ensino médio, comecei a participar dos movimentos estudantis e isso foi despertando a minha vocação para política, pois eu não vim de uma família de políticos, então eu não tenho nenhuma influência familiar dentro da política, ou qualquer referência. Sou o primeiro membro da minha família a ocupar um posto com mandato eletivo.

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