Destaques Dia a Dia

Formação de valores

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

22 de dezembro de 2020

Sem resolvermos os nossos ‘conflitos’ interiores, ou os que existem naturalmente em nossas convivências, estaremos sujeitos a sofrer de ‘angústia’. Somente com a tomada de ‘decisão’ a respeito de assuntos pendentes é que se resolve este problema. Mas essa solução poderá acarretar outro sentimento: a ‘frustração’, que vem a ser uma necessidade interior, arquivada, que não se realizou. Isso acontece porque a vida é uma série de ‘escolhas’, que poderão ser compensadoras, ou não. É importante salientar que não existem escolhas sem ‘perdas’ e ‘ganhos’, e nem sempre estamos preparados para enfrentar essa realidade.

É através desse processo que a Família e a Escola, em especial, a primeira, vão trabalhar na formação de ‘valores’, desde a infância. A criança, em seu desenvolvimento, na formação de sua personalidade, passa por conflitos psicológicos, através do embate entre a sua Consciência Moral ‘versus’ seus impulsos, e é esse confronto que irá ocasionar a sensação de angústia. Esta é uma palavra que deriva do latim, ‘angor’, e significa estreitamento; ela se caracteriza pela sensação física de opressão, de tristeza, de ‘aperto’ no coração, que se reflete nos brônquios (o que leva a pessoa a suspirar). Para os sintomas da angústia, não há remédio clínico.

Existe, nos relacionamentos e em nossas ações, um distanciamento entre o possível e o desejável. Nem sempre tudo o que queremos, ou pretendemos, será possível conseguirmos, pelo menos de imediato, e é essa, sem dúvida, a causa do surgimento de tanta angústia nos adolescentes, e nos adultos mal resolvidos, pois nem sempre conseguiremos a ‘compensação’ desejada em nossos empreendimentos, o que irá acarretar um sentimento de frustração, culminando com o surgimento da já referida angústia.

Temos que considerar a criança como um todo. Além do desenvolvimento psíquico, motor e afetivo, ela terá o crescimento orgânico, sendo que até um ano de vida ela cresce muito: em geral até duas vezes de tamanho e o triplo do seu peso de nascimento. De um a doze anos acontece o que chamamos de ‘fase do tio’ – quando alguém da família, que se encontra com ela depois de algum tempo, e diz, surpreso: “nossa, como cresceu”, embora os pais não tenham percebido tanta diferença, por estarem muito próximos a ela. Em seguida, apresenta um crescimento significativo até os quatorze anos, voltando a crescer pouco até os vinte, quando se estabiliza.

Paralelamente, esse crescimento físico afeta também suas emoções, que passam por uma série de transformações, com o desenvolvimento e o aparecimento de sentimentos, como agressividade, afetividade, sexualidade e, finalmente, o ‘medo’, que deverá ser combatido com ‘decisões’. Desses sentimentos, que são analisados aos pares, sabemos que a ‘sexualidade e a afetividade’ são encaminhadas, vivenciadas e resolvidas, em maior grau, através da vida familiar, enquanto que a ‘afetividade e a agressividade’ são trabalhadas através do diálogo e da capacidade de saber ouvir e falar. Por último, a ‘agressividade e o medo’ terão que ser desenvolvidos junto a noções de respeito e de integridade, pois farão parte do processo decisório de conflitos, nas diversas situações da vida.

A definição antiga de adolescência dizia que esse período ia ‘da puberdade à soldadura das cartilagens da ponta dos ossos’, baseando-se apenas no desenvolvimento físico, ou seja, quando a pessoa parasse de crescer, já seria considerada adulta. Modernamente, considera-se adolescência como o período que vai da puberdade (saída da infância) até quando o jovem tiver capacidade de prover sua própria manutenção, de assumir, com responsabilidade, a consequência de seus atos. A palavra ‘manutenção’ tem a seguinte origem: manu = mão e tenere = ter, donde podemos concluir que, só terá saído da adolescência quem tiver condições de “ter em suas mãos” o próprio destino.

Como podemos ver, a saída da adolescência terá que ser bem encaminhada pelos pais e pela escola, num trabalho conjunto, para que a pessoa se transforme em um adulto coerente e responsável. É preciso que o jovem saia da adolescência com determinados valores e sentimentos definidos e bem sedimentados. Com sentimentos de ‘coragem e prudência’ para enfrentar as adversidades, ao invés de ‘covardia e imprudência’. O jovem deverá que ter condições de tomar decisões importantes, que exijam, ao mesmo tempo, uma dose de audácia e destemor, mas que saiba também, ao mesmo tempo, medir as consequências de seus atos.