Destaques Dia a Dia

Flagrantes

POR ADELMO SOARES LEONEL

26 de setembro de 2020

Depois que o macaco desceu das árvores, perdeu o rabo e principiou a andar em duas pernas, houve necessidade de se estabelecer regras para uma boa harmonia social. Uma delas se referiu à fidelidade nas relações homem/mulher, estabelecendo a posse mútua, uso restrito dos instrumentos sexuais. Se bem que regras se fazem para se quebrar e, quando não se consegue, adapta-se segundo as conveniências e poder de fogo de cada um.

Não foi assim com o sapientíssimo rei Salomão que conseguiu se manter fiel na sua vida conjugal? Se bem que pensar em trair trezentas esposas e aguentar a bronca de trezentas sogras seria um ato de burrice extrema! Os fatos históricos mais relevantes se compõem de duas faces: a versão oficial que vai nos livros e a de alcova que se restringe aos segredos e é regida pelos baixos instintos. Por que “baixos”? Porque se situam na parte inferior da linha mediana do corpo humano.

Atualmente, o comportamento sexual banalizou os desvios e a infidelidade e o filósofo contemporâneo conhecido por Juca Chaves afirma, peremptório e incontestável, que “água de morro abaixo, fogo de morro acima e mulher quando quer dar, ninguém segura!”. O problema é manter as aparências, ocultar o ato proibido pois o chifre só dói se se tem consciência dele e aí, mesmo no flagrante delito, há que ser negar até o fim, usando os mais variados expedientes.

Certa ocasião, na roça, o Izé entestou de papar a Dita, mulher do compadre Caburé, vizinho de cerca, após notar olhares quentes e cobiçosos por parte dela. Aproveitaram a noite em que o corno se ausentara numa ida à cidade e combinaram o encontro atrás de uma paineira, ao lado da trilha que ligava as duas casas. Tratado e feito. Na hora aprazada, a Dita chegou e pulou nos braços do Izé, afogueada. A coisa desandava dentro dos conformes quando, de repente, a escuridão é quebrada por um facho de luz vinda da lanterna segurada pelo Caburé, alumiando a cena: deitada, com a saia arregaçada, a mulher; em pé, de braguilha aberta, o Izé segurava o bingolim.

– Que qui é isso, cumpade? Atônito, buscando uma naturalidade não sei de onde, retruca:

– Isso o que, Caburé?

– Qui ocê tá fazeno aí, de peru prá fora?

– Nada, uai! Só ia dá uma mijadinha.

– Vem não, sô! E a Dita? Deitada aí embaixo?

O Izé olha prá onde o facão do Caburé apontava e leva as mãos à cabeça:

– Nossa! Cumpade, muito brigado ocê, viu? Se num é ocê chegá agorinha e mi avisá, eu tinha mijado nela!!!

No entanto, existe o inverso também, onde a inocência é desmentida pelo inusitado. Foi aquele caso do marceneiro contratado para montar um armário embutido no quarto da madame. Realizado o serviço, o diabo do armário deu de apresentar um defeito esquisito: todas as vezes que um ônibus passava na rua, umas da portas abria sozinha com a vibração.

Requisitado para o conserto, o marceneiro ali chegou de tardezinha e constatou que, por fora do tal armário, estava tudo certinho. Enquanto a madame cuidava dos cabelos no banheiro dos meninos para uma festa à noite, ele não teve dúvida, entrou dentro do móvel, aguardando o movimento vibratório que lhe mostrasse onde fazer o ajuste.
Neste exato instante, entra o maridão bigodudo, abre a porta do armário de sopetão e leva um baita susto ao deparar o homem de joelhos lá dentro. Arma o maior auê e parte prá cima dele, aos berros:

– Seu salafra duma figa! Que explicação o senhor me dá a isso?