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Famílias sofrem pelas múltiplas perdas pelo covid-19

Adriana Dias / Redação

14 de junho de 2021

A família de Deile Tobias Vaz sempre se reunia antes da pandemia, e, nos próximos possíveis encontros três não estarão: Jaime Tobias, Vera Lúcia Tobias Vaz e José Tobias Sobrinho :/ Reprodução

PASSOS – O grande sonho de Vera Lúcia Tobias Vaz era que seus únicos dois filhos tivessem curso superior. Parecia um mantra, ela dizia isso com freqüência, e ela conseguiu. Mas ainda restavam muitos outros sonhos que a alpinopolense não viu realizados, tais como ter netos. Sua vida foi ceifada por complicações da covid-19 no último dia 7, assim como outras duas pessoas da mesma família, com intervalo de 18 dias entre o primeiro e a última. E assim, outras várias famílias têm enfrentado a dor das múltiplas perdas, como é o caso de Sirlane Aparecida Cruz Dizaro, que em dois meses perdeu cinco parentes.

Conforme contou o diretor Municipal de Obras Públicas de Alpinópolis, Deile Tobias Vaz, em pouco mais de 15 dias ele se viu obrigado a realizar o enterro de três membros muito importantes de sua família, dentre eles sua mãe.

“Morreram meu avô, José Tobias Sobrinho, de 88 anos, no dia 21 de maio. Depois foi meu tio Jaime Tobias, de 47, apenas dois dias depois, em 23 de maio. E, para nossa maior tristeza ainda, minha mãe Vera Lucia Tobias Vaz, de 61 anos, foi levada por esta doença no dia 7 de junho. Minha família praticamente toda tem casos de diabetes. É um vírus mortal, as pessoas estão brincando muito com isso, a dor que passamos é algo inexplicável, tomara que a consciência venha antes de ter algum ente querido morto”, desabafou Vaz.

Sobre o sentimento que fica frente a estas várias perdas, o alpinopolense disse ser um sentimento de que foram embora muito cedo.

“É um vazio que fica, nunca será fácil, mas ao longo do tempo vai se tornar menos difícil, eu procuro continuar em oração para que Deus nos dê conforto. Lembrando que todos eles eram muito obedientes aos protocolos de segurança sanitária. Minha mãe nem saía de casa, mas essa doença é sorrateira. E, por um ano, eu e minha irmã não entrávamos em casa sem fazer todos os procedimentos de tirar a roupa antes de passar pelos nossos familiares, higienização total, limpando todas as compras e ainda assim foram contaminados. Meu avô e minha mãe inclusive já tinham tomado uma dose da vacina, meu tio ainda não por conta da idade”, disse Vaz.

Questionado sobre a dificuldade com velório e enterro, o diretor informou que tanto seu avô quanto seu tio tinha túmulos. Já para sua mãe foi preciso comprar.

“Nunca havíamos passado por uma tragédia familiar, então é bem difícil lidar com as perdas”, salientou o jovem que agora luta para que seu pai José Geraldo e sua irmã Daiane fiquem bem.


‘Campo minado’

A família da coordenadora geral da Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso, Sirlane Aparecida Cruz Dizaró vem sofrendo desde novembro de 2020 com as perdas para a covid-19. Sua mãe faleceu no dia 13 de novembro e outros quatro familiares foram nos dias 10, 17, 19 e 21 de janeiro 2020.

“Meu avô, que é pai da minha mãe e de meus três tios e sogro de um deles, todos vítimas de covid-19. Com exceção do meu avô, os demais foram entubados. Minha mãe ficou quatro dias no quarto e 14 dias na Unidade de Terapia Intensiva. Não sei precisar quantos na família foram contaminados. Mas, na mesma época foram muitos. E nem estavam juntos para que justificasse o contágio”, explicou Sirlane.

Questionada sobre como é velar esta quantidade de gente, a paraisense disse nem ter palavras para descrever esse sentimento.

“A princípio, é o sentimento de incredulidade, e após este período, estamos todos devastados. A falta de velório, apenas o sepultamento com hora comunicada pouco antes, te deixa estraçalhada por falta de um velório digno, de despedidas, de tempo com seu ente para assimilar essa passagem. Muito triste. Sensação de abandono de quem partiu. Ele ficou só no hospital, depois no necrotério, depois para ser sepultado, sem direito a ser acompanhado por quem te acompanhou a vida inteira. Depois de 30 minutos que a família entra no cemitério. A luta pela vida do paciente com covid é solitária”, desabafou Sirlane.

Para a paraisense, ainda resta o sentimento de incredulidade quanto ao que aconteceu com sua família e com o que está acontecendo no resto do mundo.

“Me sinto andando num campo minado no meio de uma grande guerra em que muitas pessoas subestimam seu adversário saindo de peito aberto. Um sentimento de que pode acontecer tudo de novo”, afirmou.

Sirlane disse considerar que com a perda por covid, traz, perda emocional sem precedentes.

“As mortes abalaram nossa estrutura. A família é muito unida, daquelas que aos domingos se reunia, sempre na casa do meu avô, numa varanda, com filhos, netos, bisnetos e tetranetos. Isso tudo ficou no passado”, lamentou.

Para os que ficam, resta sempre a dúvida, depois de uma tragédia como esta, de que ainda pode acontecer.

“Com o falecimento da minha mãe pensei que nunca mais passaria por Isso. Mas não foi o que aconteceu. Não tínhamos recuperado nem da morte da minha mãe e eles adoeceram juntos. Eu sofri a cada boletim médico da minha mãe. Ainda fico sem acreditar nisso tudo, mas nos unimos ainda mais, agora por WhatsApp, num grupo que já tínhamos. Nos fortalecemos uns nos outros. Rimos e choramos juntos virtualmente. A vontade de um contato físico é muito grande, de um abraço. Ficamos mais desinibidos para expressar nossos sentimentos. Nos amamos e dizemos isso com mais frequência. Sabíamos o quanto éramos felizes todos juntos e sabemos a falta que eles nos fazem. O luto parece que não tem fim. Quando parece que está tudo bem, alguém do grupo da família desmorona em saudades, lembranças. Nós sempre praticamos o protocolo para enfrentamento da covid. Meu avô era viúvo e meu casal de tios e o outro tio que faleceu acompanhava, meu avô mais de perto. E num determinado momento que não dá para saber qual, um deles se contaminou e os demais da mesma forma, faleceram”, finalizou Sirlane.

Passense perde mãe e três irmãs em 7 dias

PASSOS – Na família de Regina de Fátima Batista Peloso, funcionária pública aposentada, dez pessoas se contaminaram com a covid-19, sendo que quatro faleceram. Sua mãe Nelza Rosa da Silva Marques, de 90 anos e as irmãs Selma Rosa da Silva Marques, 69 anos, Maria Francisca de Fátima, 66 anos e Taisa Aparecida Marques Martins, 58 anos. Outras 10 pessoas da mesma família foram contaminadas e passam bem.

“Minha mãe teve fratura de fêmur, e achamos que ela voltou com todos os sintomas. Cuidamos dela em casa, com todo amor e carinho. Ela já veio da Santa Casa com os sintomas de covid, mas não sabíamos. Ela retornou para o hospital e não voltou mais e penso que se ela tivesse sido examinada antes de receber a alta, não teríamos tido tantas perdas. Tomávamos todo cuidado, mas infelizmente tudo aconteceu”, disse Regina.

As mortes tiveram início em 26 de maio e seguidas por duas outras mortes em 6 de junho e a última foi no último dia 9. A diferença de apenas uma semana, sendo que todas morreram em quartas-feiras.

Jovem faz desabafo em redes sociais após perder cinco membros de sua família

PASSOS – A passense Priscila Barbosa usou suas redes sociais para fazer um desabafo sobre as perdas que teve para a covid-19. No título ela disse um ‘até logo’, ao invés de ‘adeus’. Conforme a jovem, a dor de perder um ente querido é a pior que existe na vida, e perder cinco pessoas em 19 dias é uma dor insuportável, incontrolável e aterrorizante.

“A perda de alguém que amamos é como amputar um pedaço do nosso corpo, mesmo depois que cicatriza nunca mais somos os mesmos novamente. Cada um que se foi deixou um legado individual, cada um com seu jeitinho único, especial e insubstituível. Porém, se tem algo que todos deixaram em comum, com certeza foi a saudade eterna. Vivenciei dias terríveis, angustiantes, dias que muita das vezes não queria levantar da cama, dias que tive que sorrir quando na verdade a vontade era de somente chorar, chorar o dia todo porque palavras faltavam até para orar pois as forças tinham se esgotado”, contou.

Por muita das vezes, ela teve o sentimento de fraqueza, de incapacidade, a falta de esperança, a angústia e sem compreender os desígnios de Deus.

“Assim como outros dias me senti forte, esperançosa, com uma fé inabalável, acreditando que tudo iria ficar bem. Eu ainda não compreendi os planos de Deus, o propósito de tudo isso, o porquê ele levou todos ao mesmo tempo. Eu implorei tanto, me humilhei, me rendi para que ele deixasse vocês aqui mais um pouco comigo, mas infelizmente não foi como eu esperava, porém a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável”, escreveu.

Priscila deixou um conselho a todos os leitores, que todos amem e amem muito seus familiares.

“Façam tudo que puder da melhor forma possível, briguem por eles, abracem, diga que os ama e acima de tudo demonstre o amor em ação. Quem conhece bem minha família sabe exatamente do que estou falando, nós sempre fomos e somos puro amor, respeito e a dor do outro é a nossa dor. Minha família nunca mais será a mesma. O vazio que ficou jamais será preenchido, a dor de perder todos eles jamais irá passar e esse ano de 2021 jamais será esquecido. Porém, contudo, acreditamos em um Deus do impossível, Deus de Amor, Deus de Misericórdia”, demonstrou.