Destaques Lingua Portuguesa

“Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.”

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

16 de janeiro de 2021

Ontem, eu assisti a uma palestra do canal do Tedx , com a filósofa Professora Lúcia Helena Galvão. Lá, ela diz que estudar filosofia é observar o problema, dar solução paliativa e encontrar a causa do problema a fim de solucioná-lo.
Em meio a toda esta tristeza e falta de ação em relação à pandemia, tenho visto egos inflamados defenderem os seus pontos de vista, sem a visualização dos temas centrais das afirmações. Sempre há uma desculpa anterior, nunca se assume o problema para o enfrentamento que atenda a maioria da população. Pelo contrário, o que vemos é a necessidade de mostrar força quando seria essencial a união.

Ao dizer isso, retomo um aspecto importante no estudo da língua portuguesa centrado no desenvolvimento da competência linguística das pessoas. O imortal de nossa Academia Brasileira de Letras, Professor Dr. Evanildo Bechara, defende a ideia de que “no fundo, a grande missão do professor de língua materna (…) é transformar seu aluno num poliglota dentro de sua própria língua…”.

Bem, é o que tem a ver a filosofia com o estudo da língua portuguesa? Aqui, evoco Fernando Pessoa que fala “eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”, ou seja, se conhecer filosofia é estar em estado de atenção para solucionar as questões, estudar o português precisa ir além daquilo que chamamos de estruturas gramaticais. Elas são importantes para que possamos organizar o nosso raciocínio lógico e para que padronizem a comunicação de uma nação. No entanto, a demanda precisa de algo que atenda a todas as capacidades cognitivas do ser humano.

O que quero apontar é que da preocupação com apenas a padronização gramatical, surgem os exacerbados, que adoram um puritanismo em todos os lugares e que, infelizmente, desprezam as variantes linguísticas sociais. É muito claro que o papel da escola é dar clareza aos alunos quando for tratar de aspectos estruturais da língua. Mas, não se pode esquecer de juntar aos mais variados gêneros textuais, as possibilidades quase infinitas da comunicação.
Já pensou se todas as famílias brasileiras tivessem acesso a bens culturais? O papel da escola seria muito mais tranquilo na base e, dessa forma, poderia haver um aprofundamento. Isso seria uma maravilha.

Há outra afirmação de Fernando Pessoa que diz o seguinte: “adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”. O aprendizado dessa está no fato de que se soubéssemos desde antes, que a língua portuguesa é mutável, variável, social e que somos o que falamos e escrevemos, com certeza, teríamos mais líderes de verdade, pois o que temos visto é coisa de chorar.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa (PUC/SP). Instagram: @prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade