Destaques Opinião

Entrelaçadas cores

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

11 de janeiro de 2021

1) Atingimos essa semana a marca nada honrosa de 200 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. Recorde nada interessante, por nenhum motivo. Pelo contrário. Cifra macabra. Queira ou não, tem a ver com crime comissivo e omissivo.

Comissivo é quando o agente faz alguma coisa que estava proibido de fazer. E omissivo quando deixa de fazer aquilo que estava obrigado a fazer. Pergunta-se: será preciso pensar muito e ir além das cercanias para avaliar os agentes incursos nessa infâmia a que estamos atrelados?

2) A mando, incentivo ou sei lá quê, do presidente Donald Trump, aconteceu o pavoroso episódio da invasão à sede do Congresso americano na tarde da última quarta-feira (06-01). Foi durante o processo de certificação da vitória do presidente eleito Joe Biden. Pelo menos 4 pessoas morreram, entre simpatizantes e apoiadores do atual governo dos EUA.

Nem há o que dizer. Ato vil e antidemocrático. Líderes mundiais em geral repudiaram as cenas de vandalismo ocorridas nessa semana. Até os não alinhados dos Estados Unidos. Exceção à regra, um “casca grossa” não o fez. Exatamente o ocupante do Palácio da Alvorada, que atende pelo nome de Jair Messias Bolsonaro. O próprio. Numa triste e imperdoável infelicidade, o presidente do Brasil disse ainda acreditar que a eleição de Joe Biden é fruto de falcatrua eleitoral. E mais: continua acreditando que três, quatro ou mais pessoas votaram ao mesmo tempo… E que até mortos votaram. Loucura de pedra, tudo foi prontamente desmentido.

3) Por via das dúvidas, há quem aposte num honroso enlace entre Trump e Bolsonaro, vivendo felizes para sempre na Ilha de Alcatraz. Para quem não sabe, fechada em 21 de março de 1963 – forças ocultas o garantem – a prisão de segurança máxima pode vir a ser reativada para nobilíssimo fim. Ambos tiraram o fôlego de milhares de vidas humanas. Apoiadores dos quatro pontos do planeta dão força e sustentação.

4) Não há jeito e meio de segurar a língua do capitão. Bolsonaro continua atacando a imprensa. De forma insensata, irresponsável, arbitrária e burra. Segundo ele, a imprensa é responsável por “potencializar” a gravidade do novo Coronavírus, afetando a economia. Foi o que disse na terça última (05/01). Tirante apaniguados que todos conhecem, e a peso de soldo, como gosta de frisar Reinaldo Azevedo, a imprensa desempenha um papel de extrema importância no Estado Democrático de Direito, porquanto aumenta o acesso à informação e propicia o debate e a troca de conhecimento. Por isso a imprensa tem que ser livre para melhor cumprir o seu papel.

5) Para abrandar a sorte da semana e afrouxar as correias das tensões gerais, é o que vem a seguir.
Uma estrofe de um poema de Olavo Bilac – “última flor do Lácio, inculta e bela”, confirma que a Língua Portuguesa é rica e melodiosa, o que sabemos e concordamos. Isto é, quase todos. Alguns poucos, não.

Um membro da Câmara Legislativa de uma cidade do Brasil não deve pensar o mesmo. Nem de longe. Ao abrir a sessão daquela noite, naquele rincão de poucos requebros linguísticos, em ato público e solene, fez sua diligente manifestação:

–Solicito, agora, à senhora secretária, que se faça chamada nominal de cada um dos eleitos por ordem “analfabética…” Eita! Errou por muitos.

6) A garotinha de 5 anos, Alice Pamplona da Silva de Souza, no primeiro dia do ano de 2021, num todo de felicidade, assistia aos fogos de artificio de um terraço no Morro do Turano, no Rio de Janeiro.

Do colo de sua mãe, comemorava a passagem do ano, o tão decantado réveillon. Só não contava, em meio a fogos de artifício, também havia a presença má de artefatos bélicos. Atrozes armas de fogo. Até então Alice se sentia no País das Maravilhas, vivia seu momento mágico. Mesmo porque estava na tão decantada Cidade Maravilhosa – o Rio de Janeiro.

Num dado momento, fora surpreendida com uma bala perdida, o que a fez acordar para uma realidade bem diversa na qual vivia, transportada magneticamente para outra dimensão. Com a certeza da fé, Alice está agora no céu. Com autênticas e deliciosas explosões de alegria. Sem guerra e nem conflitos. Nenhum tipo de violência.

Agora, sim, podemos assegurar: a garotinha de rosto delicado e sorriso fácil e cintilante está noutro plano. Mais bonito, mais alegre, mais festivo. Com toda a certeza, com a licença de Lewis Carroll, Alice está no País das Maravilhas!

E uma linda criança, olhos acesos e coloridos direcionados para o céu, mais do que as cores estampadas na crença de um limiar de bom ano, se viu impedida de continuar seguir adiante. Tiraram-lhe não só a paz. Mas, sobretudo, a magia de um dia sonhar e ser feliz.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.