Destaques Lingua Portuguesa

Em Língua Portuguesa e comunicação, precisamos aprender juntos

POR PROF. ANDERSON JACOB ROCHA

5 de setembro de 2020

Pense em alguém que você conheceu e que não pertence ao seu ciclo social por ser de outra região. Pronto? Eu me lembrei de duas. Certa vez, já faz uns 20 anos ou mais, em uma conversa com uma moça que nasceu no sul de minas, ouvi a palavra “badulaque”. Confesso que, naquela época, eu achei esquisita a palavra e por saber que a moça era escolarizada, julguei aquela palavra inapropriada. Pois é! Pouco tempo depois, lendo uns dos meus autores preferidos na época, Rubem Alves, vi que ele tinha um livro com o título “Quarto de Badulaques” (como eu queria uma figurinha (emoticon) da vergonha, no meu texto, neste momento).

Pelo menos, eu achei estranho, mas não comentei nada. Ufa! Bem, fui buscar no dicionário e entendi que o termo badulaque é sinônimo de, entre outras coisas, enfeite barato, bijuteria, berloque, penduricalho. Enfim, o meu julgamento foi inadequado. Ainda mais sabendo que o Rubem Alves também é do sul de minas, da de Boa Esperança. Enfim, aprendi. Não conhecia semântica e sociolinguística ainda.

Tempos depois, para falar a verdade, nesse 2020, conversando com outra moça, de uma região diferente da nossa, tomando um café, eis que ela me ofereceu mais um pedaço de bolo. Respondi assim: -“Não, muito obrigado, estou cheio” (colocando a mão na altura do estômago). Ela olhou para mim com cara de espanto e me disse: “-Lá, em casa, é proibido dizer essa palavra porque achamos que é deselegante e até falta com a educação. Nós usamos a palavra satisfeito”. Eu quis argumentar sobre isso, falando das questões regionais, que para nós é comum, que do ponto de vista da sociolinguística é perfeitamente aceitável em uma conversa mais informal etc, mas, em princípio, não houve aceite. Seguimos na prosa.

Como já disse aqui, semântica é significação. Portanto, quando se aborda o tema campo semântico, estamos prestando atenção nas possibilidades de interpretação que uma palavra pode transmitir. Voltando à questão do “cheio vs satisfeito”, como pesquisador, fui trás, claro, não é? Vi que a palavra “encher” tem sua origem do Latim “implere” que significa “completar, encher muito”. Ela é formada por “in” que é “em”, mais “plenus”, “cheio”, do Grego pléos, “cheio”. Para nós, do sudoeste mineiro, dizer “estou cheio” em nossas conversas cotidianas, significa: “comi muito, por isso, estou com o estômago preenchido, pleno, enfim, cheio. Vamos ao outro termo:

Satisfeito vem do Latim “contentus” que também significa “contente”. É um particípio passado de “continere” que significa “segurar junto, rodear, conter”. É formada por “com”, “junto”, mais “tenere”, “segurar, agarrar”. Pela minha análise, o sentido de satisfeito evoluiu para: “comi muito, por isso, estou contente e contido para não comer mais, senão irei passar mal”. Tudo tranquilo, tudo certo!!! Viva!!!

Como a vida é bela, aprendi que em determinadas regiões, dependendo do lugar e com quais pessoas eu esteja, não devo falar “estou cheio” nos primeiros encontros. Isso até elas me conhecerem com mais intimidade, claro, pois, não irei negar os dizeres da cultura a que pertenço. “Aprender a conhecer para aprender a conviver a fim de construirmos relações juntos”. Eis a lição.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa (PUC/SP). Autor do livro: A Linguagem da Felicidade