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Educação é presença

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

5 de janeiro de 2021

No propalado ‘mundo moderno’, neoliberal, capitalista, temos presenciado algumas inversões de valores, quando se privilegia o ‘ter’ em detrimento do ‘ser’. Quando isso se dá em determinados níveis de convivência ou em determinados ramos de atividade, até poderia ser aceitável, já que as consequências não envolvem a formação de um ser humano, mas, em Educação, esse tipo de coisa é inadmissível.

Determinadas falhas ou omissões, uma ação mal encaminhada, uma decisão sem o embasamento psicológico ou pedagógico correto, uma orientação mal dada, atitudes educativas do dia a dia mal orientadas serão irreversíveis na formação da personalidade da criança e do adolescente ou, até mesmo, de dificílima condução, quando o educando já tiver alcançado determinada idade.

Algumas famílias incorrem num erro bastante conhecido, quando, pela necessidade de prover o conforto para os seus, acumulam afazeres e obrigações profissionais, deixando todo o trabalho educativo para babás, avós, creches ou escolinhas quaisquer.

Necessário se faz que algum tempo seja dedicado ao diálogo, à presença, ao acompanhamento das atividades escolares e vivenciais dos filhos. Outras famílias colocam nos presentes caros, roupas de marca ou em brinquedos eletrônicos sofisticados, o centro de suas ações, em substituição ao relacionamento educador e afetivo, imaginando que, com isso, conseguirão ‘comprar’ a boa formação para os seus.

Educação é presença, e esta não se substitui, não se faz por procuração, nem se delega a outrem, mesmo que competente ou bem intencionado. É como se o professor pudesse ser substituído pelo computador, tal qual se chegou a suspeitar recentemente; ou se um bom professor/educador assumisse o cargo para uma determinada turma, mas, impossibilitado de assumir o compromisso, enviasse um substituto para desempenhar a função que dele era esperada.

É preciso ficar claro que alguns procedimentos, principalmente na Escola, necessitam ser padronizados, tais como os processos desenvolvidos durante o ano letivo, os métodos de trabalhos, a sequência de passos comuns a vários profissionais e a diversas turmas, entre outros. A padronização só vai até aqui. As diferenças de experiência, competência, empatia e carisma dos Professores, assim como o envolvimento e discernimento de Pedagogos e Direção, evidentemente farão variar os padrões educacionais do Estabelecimento de Ensino. Isso é assim mesmo.

Os padrões estabelecidos pelo grupo vão ser executados com mais ou menos magnetismo, com maior ou menor interesse dos alunos e envolvimento das famílias, dependendo de quem está à frente do processo, de maneira presente, porque educação é algo muito importante na formação de pessoas e, nem mesmo a família tem o direito de abrir mão dessa prerrogativa, que lhe é primeira, inquestionável e intransferível em determinados níveis.
Transmitir valores é prerrogativa de quem os têm.

A verdade é que a estrutura da família tem passado por profundas transformações e, por isso mesmo, os responsáveis pela criança e as instituições de ensino terão de estabelecer um diálogo contínuo, mais vivo e intenso; é urgente que seja modificado o entendimento indevido de algumas ideias oriundas da Psicanálise, que geraram um enorme pavor nos pais, de traumatizar os filhos; os pais passaram a ficar titubeantes e omissos em relação à transmissão de “valores” definidos para seus filhos, sentiram-se culpados pela sua ausência e de alguma forma passaram à tentativa de ‘compensar’ essa ausência, com coisas materiais.

Os pais precisarão voltar a participar mais ativamente da formação dos seus filhos e a agir de forma coerente e compatível com as normas propostas pela Escola, a quem confiaram a educação de seus filhos, para que os dois, de uma forma conjunta e articulada, possam promover a formação integral de pessoas que saibam interagir coerentemente, baseadas em princípios éticos e em valores que são inalienáveis, em todos os níveis relacionais.