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E se tudo fosse bem repartido?

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

5 de setembro de 2020

Sábado passado (29/08/020) nesta coluna foi publicado um artigo do empresário e escritor Percival Puggina com o título “E se tudo fosse de todos”, deixando claro nas entrelinhas que tal procedimento é coisa de socialismo e assemelhados e que nunca dá certo. Lembro que quem mandou repartir “tudo” com os pobres foi um tal de Jesus Cristo que tem bilhões de seguidores, porém acho que a maioria dos cristãos não aprova este mandamento.

Não vou entrar nos detalhes para contestar as ideias e opiniões exposta pelo senhor Puggina, tenho por norma respeitar o direito da livre expressão de opiniões alheias. Todo cidadão tem o direito de pensar e livremente expor o que pensa. E pela mesma razão é que estou aqui usando do mesmo direito, aliás, é o que o momento democrático tem nos permitido, portanto, também vou escrever sobre este tema com ideias, opiniões e título bem diferentes.

A partir de então, nada a ver com o texto do senhor Percival. Se você perguntar a qualquer economista qual é o modelo econômico do capitalismo brasileiro, terá como resposta única a de que este segue as linhas teóricas do liberalismo. Outros poderão dizer que é neoliberalismo. Isto, no entanto, não diz tudo, ou não quer dizer nada, porque tanto o liberalismo quanto o neoliberalismo apresentam facetas diferentes de país para país. Ou seja, o liberalismo que se tenta praticar no Brasil não é o mesmo praticado pela Alemanha, ou Japão, ou França e por aí afora.

Daí decorre a falácia de que pelo simples fato de se tentar uma política neoliberal significa que estamos gozando das maravilhas do capitalismo liberal. Não, não estamos, aliás, estamos longe disso. Sem fazer piada podemos dizer que o sistema brasileiro apresenta duas faces bem distintas, ou seja, capitalismo para os ricos e socialismo para os pobres, algo que resultou em um arranjo bizarro, uma política econômica híbrida e intervencionista. É o paradigma da socialização da miséria e a concentração da riqueza em poucas mãos como regra.

O Brasil exemplifica este esdrúxulo modelo de modo emblemático. Atentemos para a nossa realidade. Pense no varejo. Rico faz compras em Miami. Pobre fica entre comprar produtos chineses altamente tarifados ou o substituto nacional altamente tributado. Veja no trabalho. Rico trabalha como Pessoa Jurídica. Os encargos trabalhistas não abocanham seu salário. Pobre trabalha amarrado pela CLT agora reformada e dificilmente se aposentará. Todo empregado pobre é um trabalhador mais suas circunstâncias fiscais. Agora, no caso das finanças. Rico consegue empréstimos subsidiados pelo BNDES. Pobre tem que pagar juros exorbitantes incluindo os subsídios governamentais. Pense na construção civil. Rico consegue licitação de obras com garantia de lucros.

Os pobres pagam a conta caso o projeto do rico dê errado. Pense nos impostos. A tributação brasileira é regressiva. Ricos pagam proporcionalmente menos tributos que os pobres. E mais, o Estado brasileiro é máximo para os ricos e mínimo para os pobres. Todo este cenário aqui exposto só mostra uma realidade, a distribuição da riqueza no Brasil é mal repartida. Só porque o “tudo é para poucos”, quando o ideal seria se o “tudo fosse bem repartido para todos”.

E este último caso é o que acontece naturalmente nos países de economia liberal, porém com política social onde a distribuição de rendas garante conforto e um ótimo padrão de vida aos trabalhadores e praticamente zerada a pobreza. Mas quando se usa essa retórica aqui neste Brasil, a elite chia e os seus representantes logo correm para a mídia para chamar isto de comunismo, socialismo e outras fake news tão ao gosto dos desavisados e alienados.

Mudando de assunto. Na próxima segunda dia 7/9 como manda a tradição que todos conhecem, comemora-se como se dizia antigamente o Dia da Pátria. Vou apenas deixar para o leitor a última estrofe do samba “Pátria mãe gentil” da autoria dos compositores Boneco/Vaguinho, imortalizado na voz de Beth Carvalho: “Esses homens vão ter que entender/ Que isto aqui é o nosso Brasil/ Nosso chão, nossa vida, nossa pátria mãe gentil/Isso um dia vai ter que mudar/A justiça vai ter que acordar/E a igualdade um dia vai raiar”. É isso aí meu povo, Viva o Brasil que sonhamos e que um dia haverá de acontecer!

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História e escreve quinzenalmente nesta coluna.