Destaques Entrevista de Domingo

“É preciso governar os municípios por metas”

Por Adriana Dias / Da Redação

19 de outubro de 2020

Foto: Divulgação

Ângelo Leite Pereira, 71 anos, casado com Heloísa Martins Marques Pereira, com quem tem as filhas Andrea e Helena. É pós graduado em Administração Pública, pela Fundação João Pinheiro, foi vereador por 6 anos e prefeito em 3 mandatos. Após fazer um curso na Alemanha sobre administração pública, voltado para o associativismo municipal e foi estimulado a criar a associação, nos moldes da Associação dos Municípios da Microrregião do Médio Rio Grande (Ameg) e Associação dos Municípios Micro Região Baixa Mogiana (Amog), decidiu fundar a Associação dos Municípios do Lago de Furnas (Alago) em 1992. Em 2004 contribuiu na associação para a realização de um completo diagnóstico de saneamento básico de 52 municípios do entorno do lago. Ajudou também na elaboração dos Planos Diretores Participativos dos municípios, projetos para obras de tratamento de esgoto, destinação adequada de resíduos e drenagem pluvial. O ex prefeito de Carmo do Rio Claro foi convidado para falar sobre as eleições de 15 de novembro.


Folha da Manhã – Após sair dos quadros políticos quais foram e são as suas atuações?

Ângelo – Aposentado desde 2017, fui conselheiro coordenador da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e também fui coordenador da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) para o Programa Energia do Bem. Era colocar as entidades sociais (eletrodomésticos para redução de gastos e também energia solar) nas 134 cidades do Sul de Minas e abaixo do Rio Grande. Saí em 2018, quando decidi cuidar de mim, da minha saúde. Já na Copasa fiquei até 2016, em Belo Horizonte. Com a aposentadoria optei por me dedicar a mim mesmo. Eu sou diabético há 23 anos e, abusava na alimentação desregrada. Hoje, faço caminhadas. Estou fazendo hemodiálise três vezes por semana na Santa Casa de Passos. Fui fazer um exame em Poços de Caldas, com contraste para a retirada de uma veia e, acabou comprometendo os meus rins. Não tinha outra solução e corri o risco. Mas agradeço estar vivo e podendo fazer a hemodiálise. Estava fazendo o treinamento para fazer a diálise em casa e, depois o transplante. Mas, sobre minhas atuações, acabo por ser um conselheiro de muitos políticos e profissionais. Eu tenho a felicidade de ter minhas duas filhas em Carmo do Rio Claro, cuidando de suas empresas, uma papelaria e uma banca de jornal. Uma é psicóloga e outra é administradora de empresas.

FM – Como o senhor analisa o atual quadro político regional para as eleições que se avizinham?

Ângelo – Observo ausência de verdadeiros líderes. Líderes regionais e prefeitos com grande empenho, podemos citar alguns, como: Mauro Zanin, de São Sebastião do Paraíso; José Rogério Lara e José Dalton Barbosa, ex-prefeitos de Guapé. E, também uma mulher que foi uma grande prefeita, a de Fortaleza de Minas, Neli Leão do Prado. Acredito que ainda terá que acontecer outras três eleições para que se tenha uma safra de chefes do Executivo de peso como tínhamos antes. Estes candidatos todos que estão se postulando aos cargos nas cidades da região são fracos. É incrível que cidades pólo como Passos o atual prefeito Carlos Renato Lima Reis, o Renatinho Ourives, não tenha se colocado novamente ao cargo. Acredito que as questões familiares sejam situações que definem estas decisões. Muitas famílias não querem seus filhos, maridos se envolvam com política. Das 8 maiores cidades da região, 6 estão desiludidos. Passos tinha que ter um candidato ‘prefeitão’, mas não. Não consigo ver nestes postulantes em Passos este prefeitão. Em Poços de Caldas o atual candidato é deste estilo e vai pra reeleição. Em Carmo do Rio Claro, tem um vice que seria o ideal, o engenheiro Luciano Venceslau Marques, que é vice de João Paulo Menna Barreto de Castro Ferreira. João Paulo é a pessoa que tem mais conhecimento em Belo Horizonte e Brasília. Meu candidato.

FM – Quais os grandes desafios dos postulantes aos cargos de prefeito e vereadores?

Ângelo – As dificuldades estão no setor financeiro. No planejamento e em se enquadrarem na nova ferramenta eletrônica. Prefeito detesta planejar, e sem planejamento não se faz um bom governo. E, vejo que os prefeitos que estão aí se colocando aos cargos devem pensar que é preciso governar por metas. O moderno, segundo os melhores especialistas que conheço, é governar por metas. É uma tranqüilidade para a administração e o cidadão sabe que aquilo vai acontecer, não hoje, mas quando foi colocada a meta. É super eficiente esse método e implica no planejamento. Já é realidade no mundo europeu. Em São Paulo tem a ONG Cidades Justas e Sustentáveis, da Natura, e lá dá cursos anuais para prefeitos e secretários sobre o assunto, há 4 anos. Funciona. Eu fui prefeito por três mandatos alternados. Até isso foi planejado. Fazer essa alternância. A renovação é necessária. Quem está no poder tem que dar chances para outros e faz bem para a saúde de uma prefeitura. Não me lançarei mais ao cargo do Executivo, mas posso ainda contribuir com alguma secretaria. Sinto falta da vida política, principalmente a parte social. Não dá para fazer sem estar com o poder nas mãos. Vejo que os prefeitos não dão muito atenção à parte social. Pode dar uma volta nas periferias das cidades da região e observamos essa dificuldade. Com relação às tecnologias, os prefeitos terão que entender a necessidade de reuniões virtuais. Acabou a farra de irem a Belo Horizonte ou a Brasília. Isso a pandemia mostrou que não precisa fazer longas viagens para resolver questões. Hoje você conversa com o governador, com o presidente da República com agendas virtuais. Diminui gastos e os prefeitos terão que ser exemplo para o uso da ferramenta internet. Não existe mais ir a outras cidades levar papel. Acabou. As justiças já estão usando processos virtuais. As aulas são assim, não tem retorno. A saúde também.

FM – O senhor acha importante que os eleitores saibam que são os candidatos a vice-prefeito, uma vez que vários assumem os cargos de prefeito? E isso pode definir sobre corrupção?

Ângelo – É fundamental que todos os eleitores saibam quem são os candidatos a receberem os votos, independente se prefeito, vice e vereadores. Precisa ser visto o passado, o presente e a que se propõem. Tem que ser feito este dever de casa. E, todos devem votar. A escolha pode definir sobre corrupção, inclusive. O eleitor é responsável por quem está escolhendo. Pode até ser um administrador ruim, mas não se pode roubar. O modelo rouba, mas faz não é mais aceitável.

FM – Pelo fato de o senhor ser de uma região onde está boa parte do Lago de Furnas, quais ações o senhor entende importantes na implementação do desenvolvimento do turismo regional?

Ângelo – Entendo como fundamental a divulgação honesta dos atrativos turísticos e a nomeação de profissional do ramo nas cidades em que existem os atrativos. Também vejo necessária a criação de um calendário de eventos viável aos turistas. A abertura de roteiros, tais como das fazendas antigas, que o Carmo do Rio Claro tem saído na frente neste sentido.

FM – O governador Romeu Zema esteve em Passos nesta semana e disse que deve privatizar a Cemig. O senhor considera esta a única solução?

Ângelo – Não é a única solução. Tem outra, que é a energia solar. É uma energia concorrente e dá para manter a estatal. A solar vai competir com preços, eficiências e, de forma particular. Dá para fazer um programa de demissão voluntária e enxugar a Cemig, mas não necessariamente privatizar. A saída de profissionais iria correr naturalmente. E vejo que a concorrência é benéfica.