Destaques Dia a Dia

É possível recomeçar

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

15 de setembro de 2020

Sempre fui um aficionado da ‘etimologia’ das palavras. Ela nos mostra os seus verdadeiros significados, suas origens, suas raízes históricas, filosóficas e científicas. Cada palavra, ou expressão, tem uma razão de existir e, para nós, ocidentais, a principal influência na sua formação, sua origem é, sem dúvida, grega ou latina. Da mesma maneira, também me apaixonam as expressões criadas pela sabedoria dos filósofos, que tanto refletiram e meditaram a respeito das ações dos seres humanos, assim como nos legados da ‘sabedoria popular’ que também nos brindam com verdadeiras ‘pérolas’ do pensamento.

Para exemplificar, tomemos a França do fim da guerra. Um país marcado pela múltipla divisão de seu povo, dentro de seu próprio território: havia os que sofreram com a invasão alemã, os que colaboraram com ela, os que lutaram contra ela e os que herdaram o país como ele se encontrava, depois de tanto flagelo e sofrimento. Naquela época, Jean Paul Sartre, expoente da corrente filosófica conhecida como ‘existencialismo’, já afirmava: “Não importa o que fizeram de nós, mas o que faremos do que fizeram de nós”, que em sua versão popular brasileira ficou assim: “O problema não é o problema, é a nossa atitude frente ao problema”.

Em educação, sempre poderemos contar com a ajuda desses pensamentos, pois não existirá um dia igual ao outro. Cada dia sempre trará suas peculiaridades, suas ações e reações. Quando se trata de pessoas, sempre diferentes no seu sentir e no seu agir, os problemas sempre acontecerão, e de forma diversa das anteriores. É com base na experiência e na sabedoria que pais e professores saberão como decidir, quando as situações se apresentarem.
Albert Camus, Nobel de Literatura, prêmio que, curiosamente, não aceitou, ilustra bem essa ideia quando afirma, em uma de suas mais importantes obras, ‘O Estrangeiro’: “O que neste momento me interessa é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída”.

Ao nos depararmos com as retumbantes notícias de corrupção no Brasil, quando há uma troca generalizada de acusações, quando todos parecem estar envolvidos, de uma forma ou de outra, em maior ou menor intensidade, volto a me lembrar da célebre reflexão de Rui Barbosa, pronunciada há mais de cem anos: “De tanto ver crescerem as injustiças, de tanto ver aumentarem as nulidades, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, rir-se da honra, ter vergonha de ser honesto”.

Quando assistimos, também no noticiário, que as escolas, antes da pandemia do Covid, instalaram câmeras de vídeo – de vigilância mesmo – tanto nas salas de aula, quanto nos corredores e no pátio, fico a pensar no futuro de nossa educação. Ao invés de se aumentar e aperfeiçoar a educação em si, ensinando os valores necessários a uma perfeita convivência social, como honestidade, respeito, ética e cidadania, aumenta-se a vigilância, como a que já existe nos supermercados, nos elevadores, nas portarias dos prédios e até nas ruas de muitas cidades.

Ao invés de mudarmos as ‘atitudes’ do ser humano, aumenta-se o policiamento sobre ele e a tentativa de coerção, como se isso fosse resolver os problemas comportamentais de um povo. A culpa parece ser da ideia vigente de impunidade, gerada pelo acúmulo de casos de corrupção, de denúncias não apuradas, por leis ultrapassadas, que deveriam ser votadas pelos próprios parlamentares, que desperdiçam tanto tempo discutindo amenidades (ou improbidades); Muito melhor seria se concentrassem seus esforços para resolver problemas tão sérios e urgentes que afligem a todos nós.

Seria o caso de descrermos no futuro de nossas crianças e de nosso País? Como um convicto educador otimista, afirmo que não! Afirmo que “tão importante como ‘vender’ uma prestação de serviços educacionais, também é inquestionável oferecer às famílias os diferenciais que estruturam uma boa escola”; é importante disseminar qual é a filosofia praticada em determinado estabelecimento de ensino, quais atitudes são exercidas na arte de ensinar as crianças e adolescentes, para que sejam pessoas íntegras, em qualquer atividade que venham a exercer. Como a educação é algo ‘intangível’, ou seja, o produto que a escola ‘vende’ não é um bem palpável, não é um artigo de bem de consumo, é necessário que os pais, de maneira cuidadosa, verifiquem os pilares que sustentam a maneira de pensar e agir que existe por trás da oferta de cada escola.

É importantíssimo lembrar que os pais, quando nos procuram para confiar a educação de seus filhos, esperam que nos responsabilizemos pelo “futuro deles” e, para os pais, isso é a coisa mais importante e preciosa do mundo.” Como nos diz Padre Antonio Vieira: “A boa educação é moeda de ouro, em toda parte tem valor”. E, para finalizar, de autor desconhecido: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.