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É necessário comunicar o óbvio?

Por Anderson Jacob Rocha

22 de agosto de 2020

Há um processo de comunicação que levou o filósofo da linguagem Paul Grice, um filósofo britânico, a estudar sobre questões da linguagem referentes à lógica e a conversação. Ele perguntou:  como é possível que algo que eu diga ou escreva possa significar mais do que aquilo que expressei?

Grice pesquisou sobre as máximas conversacionais que dizem: a nossa contribuição na comunicação deve ter o tanto de informação exigida; ela não pode conter mais informação do que é exigido; deve ser verídica; não pode afirmar aquilo que pensamos ser falso e nem afirmar algo sem possuir provas; a comunicação deve falar apenas sobre aquilo que pertence ao assunto e que seja clara para evitar coisas obscuras, ambiguidade e assuntos longos.

A Profa. Dra. Jeni Turazza, minha professora na PUC-SP, que, infelizmente, nos deixou em agosto de 2016, baseada na teoria de Grice, dizia para nós: “não diga o óbvio”. Esse enunciado sempre ecoou em minha mente. O que é não dizer o óbvio? Ou, o que é dizer o óbvio? Seria, realmente, desnecessário dizê-lo? Segundo o dicionário Priberam, “óbvio” vem do latim “obvius” que significa “vai ao encontro, acessível, trivial, afável”.

É aquilo que “que salta à vista”. Posto isso, há outra questão: tudo aquilo que está em evidência, não precisa ser dito? Tudo depende de muitos fatores. Vamos analisar!?! Todos esses conceitos coadunam-se com essas considerações de Grice: os nossos diálogos são atitudes cooperativas. Quem participa dele reconhece essa atitude por causa dos contextos e os objetivos do diálogo podem ser explicitados logo no começo ou durante a sua realização.

Essas afirmações podem nos levar a pensar sobre a comunicação nos relacionamentos. As relações de amizade, de trabalho, de amor conjugal ou filial, podem ser considerados estados óbvios que não precisam ser verbalizados? Segue uma provável resposta: nem tudo é óbvio!!! Isso se dá porque o que está claro para mim, pode não ser tão claro para o outro, ainda que eu demonstre por atitudes.

Ao proibir um filho de assistir a um filme às 22h, deve ser dito o porquê daquela decisão. Dizer à pessoa com quem você é casado (a)ou namora, que não quer ir a algum lugar que lhe foi proposto, é um ato de respeito. Deixar claro um processo que precisa ser feito ao seu liderado na empresa, é sinal de companheirismo. Há uma linha quase imperceptível provocada pelo cotidiano devorador de atenções. No entanto, a comunicação precisa ser expressada com atitudes e palavras, de forma intencional, leal e no ponto certo. É desafiador isso? Claro que é!

Quantas chances de felicidade desperdiçamos porque não expressamos o que sentimos? Quantas oportunidades já perdemos por medo de ter que comunicar algo que causa algum tipo de desconforto? É óbvio que as atitudes falam, que os contextos revelam e que as emoções nos mostram. Mas, é preciso dizer que é por meio de histórias, da entonação da voz, da escolha das palavras é um fato cuidadoso com o outro.

Fazer essas escolhas não significa que há algo para esconder ou fingir, mas é forma de respeito pelo momento do outro. Pelo bem geral das relações, comunique-se de forma reveladora e com amor. Assim, “tudo será criado” e ressignificado. Enfim, “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não salvo a mim” (Ortega y Gasset, 1914/1966). Nesse contexto, salvar a minha circunstância, é manifestar o que é óbvio para mim ao outro.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa (PUC/SP). Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob