Destaques Dia a Dia

Dito Fogareiro

POR ADELMO SOARES LEONEL

16 de janeiro de 2021

A nossa história de hoje pode (e deve) ser conferida com o carteiro e vereador de Guaxupé, de nome Baú, que jura solenemente a sua veracidade. Pois bem… Existe uma cidadezinha próxima, sossegadinha, pequenininha, conhecida por Pratinha, encravada num vale ao sopé da Serra de São Pedro da União. Há algumas décadas atrás, enraizou por lá um paulista em busca da modorra interiorana e adquiriu uma venda bem sortida, mistura de armarinho e cachaça, fumo e botina.

Tudo corria satisfatória e rotineiramente, transformando- se logo em ponto de encontro dos colonos e vaqueiros que, aos fins de semana, ali se embebedavam e promoviam suas cantorias caipiras, anotando as despesas em cadernetas, pagas, sem falta, todo fim de mês. Até que, numa tarde de sexta-feira, entrou esbaforido um matuto, olhos esbugalhados, coração saltando pela boca, anunciando a terrível notícia:

– O Dito Fogareiro chega na Pratinha amanhã!

Silêncio absoluto de perplexidade, seguido de correria desenfreada para todos os cantos, recolhendo as crianças, trancando as portas das casas, saindo às pressas para visitar um parente distante, sumindo do mapa, se enfiando em esconderijos seguros, rabo entre as pernas num assanhamento geral.

O paulista, coitado, viu esvaziar seu comércio num estalo e apenas uns parcos bebuns renitentes o auxiliavam a contar as moscas teimosas nas lingüiças dependuradas no esteio.

– Mas quem é esse tal de Dito Fogareiro?

Os pinguços pareciam acordar do sonambulismo etílico por uns instantes ao ouvir o nome maldito, mas logo se entregavam novamente à morrinha da ausência, preferindo ali se refugiar. Saiu em busca de informações com o padre e topou com ele, mala em punho, arrumada às pressas, para a sede do bispado.

– Péra aí, sô vigário. Só me conta rapidinho quem é esse homem capaz de apavorar todo mundo!
– Nem queira tomar ciência, moço! Pior bandido e arruaceiro, responsável por muita gente que descansa no cemitério. Vive entocado não se sabe onde e, como uma tempestade, surge de quando em vez para aterrorizar o povo.

Nem a polícia é capaz de por as mãos nele, tal a sua audácia, valentia e sangue frio! O melhor que você faz é dar o fora também. Deus te abençoe! E escafedeu-se na mula marchadeira. – Eta gente frouxa! – ruminou. O diabo não pode ser tão feio quanto o pintam. Ainda existe lei nesta terra e eu não vou entregar minhas coisas duramente ganhas prá este pilantra!

Revolveu ficar e ver no que dava. Sábado, dez horas da manhã, uma nuvem de poeira antecede um cavaleiro vindo das bandas da Guaranésia. Ruas fantasmas o viram chegar, nem cachorro, porco ou galinha, nada, nenhuma testemunha viva, e rumar no cavalão preto, trotador, de beiço aleijado em eterno sorriso de escárnio mordendo o freio, carregando uma figura corpulenta e feia.

Feia era apelido. Vestido em roupas de couro, dois revólveres cruzados na cintura, botas desgastadas e sujas, empunhando uma cobra cascavel à guisa de chicote, chapelaço com par de escorpiões vivos amarrados na aba, baba barrenta escorrendo da boca enfeitada com três dentes de ouro, barba grossa de semanas na pele escura, um metro e noventa de altura, ele apeou na porta da venda e entrou. Dos fundos, o paulista observava, atento, enquanto, derrubando mesas e cadeiras a assombração ia se achegando, riscando as esporas.

Três cascudos desacordantes nos bêbados e outro tanto de cusparadas fumegantes no chão lavado. Dá um murraço no balcão e ordena, em voz cavernosa:

– Um copo duplo de pinga.

Trêmulo, o dono indaga qual, no que o brutamontes arranca um dos revólveres e atira certeiro numa garrafa da prateleira, identificando:

– Daquela garrafa parelha da que quebrou!

Nos segundos gastos ao apanhar a pinga, o paulista viu o estranho freguês abrir uma lata de sardinha numa só mordida e despejar o conteúdo na mão esperando a cachaça.

Entornou o copo goela abaixo, seguida da sardinha, deu um arroto ensurdecedor, um peido idem, espatifou as ventas do cachorrinho sarnento dum bebum com um chute, somente porque o pobrezinho se estranhava com a cobra enrolada na sua bota. Limpou o suor da testa e sacou uma carteira ensebada do bolso de trás:

– Quanto devo?

O paulista aliviado pela pouca demora se desmanchou em salamaleques:

– Que é isso. Nada não. E pode tomar outra por conta da casa.
– Cê é besta! Vou rachar quente na estrada porque fiquei sabendo que o Dito Fogareiro vem por aí!!!

O paulista rachou também…