Destaques Opinião

Dialética e possessão – Revisitação

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

25 de novembro de 2020

Com uma mentira geralmente se vai muito longe, mas sem esperanças de voltar”. – Provérbio judeu. A universal história de Pinóquio bem que poderia ser reeditada no Brasil atual. O personagem da ficção, que desejava sair da condição de boneco de pau para tornar-se humano, fora orientado a ter bom comportamento e falar sempre a verdade, para ter o seu sonho realizado.

A fim de auxiliá-lo nesta trajetória, era acompanhado por um grilo falante, uma espécie de ‘alter ego’, uma consciência externa. Porém, ao longo de sua jornada, o boneco falante sempre se metia em confusões – tinha uma tendência inata aos descaminhos – ainda que advertido pelo grilo/consciência das consequências ruins das suas más escolhas… que acabaram levando-o ao extremo de ser preso em um circo, onde era a principal atração – o boneco de pau que falava (a vida imitando a arte, sua própria criação, num diálogo magistral entre ambos – dialética pura!).

Ao se colocar em apuros, decorrentes de seu procedimento, e indagado porque tal coisa ocorrera, tinha a mentira como padrão de resposta. Mentia sempre. Nunca assumia a responsabilidade pelos seus atos. A culpa era sempre de terceiros. E, como consequência, seu nariz crescia a cada mentira contada. Ficava estampada na cara (de pau) e evidente a todos a inverdade por ele propalada. Ao final, porém, após uma caminhada cheia de percalços, alcança a redenção ao render-se à verdade e adotá-la como prática em sua vida.

Saíra, finalmente, da condição de infra-humano. Tornara-se humano, consciente de si mesmo, dos outros e das circunstâncias que o cercavam. Final feliz! Mas, nem sempre é assim, pois “uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade” – frase atribuída a Joseph Goebels, ministro da propaganda de Hitler. A máquina de propaganda nazista usou e abusou deste dogma, levando a população alemã e boa parte da Europa a adotar a ideologia hitlerista cegamente.

O resultado, como sabemos ou deveríamos estar informados, foi a tragédia da segunda guerra mundial, com todos os seus horrores. Se, àquela época, os limitados meios de comunicação já alcançavam tão grande impacto na formação da opinião pública, muito mais hoje, de forma exponencial, em que temos TV, rádios, jornais, revistas, internet, mídias sociais e, ainda, outras formas de comunicação e doutrinação, como, por exemplo, escolas e igrejas.

A reiteração da mentira – e aí podemos considerar o atual império e inferno das ‘fake news’ – leva, segundo Goebels, a torná-la ‘verdade’, construindo-se, a partir daí, uma nova realidade calcada no engodo daquilo que se deseja. E, concomitantemente, as estruturas da sociedade podem e devem ser alteradas para sustentar e otimizar esta nova ordem conquistada. Quando se chega a isso, anulam-se as consciências individuais, as quais se perdem no todo coletivo de um ‘deus’, possessas ou por um monstro chamado ‘Estado’, ou pelas ‘verdades’ ditadas à exaustão pelas mídias sociais, com os seus interesses escusos, que passam a pensar e decidir por todos.

Em nível pessoal, individual, também se verifica esta espécie de ‘possessão’ coletiva, mais para uma autopossessão, em que a pessoa, ou pela prática constante de inverdades, ou pela aceitação, sem qualquer filtro, de tudo o que pensa, lê, vê e ouve, perde o referencial da realidade, passando a crer, de forma irrefletida, automática, naquilo que, por imitação e repetição, propagandeia como se ideia própria fora. Todavia, para este, enquanto perdido em si, de si mesmo e do outro, não há retorno… e o final não pode ser agradável como no conto de Pinóquio.

Dentre tantas, uma forma de se testar o acerto e a validade de determinada ideia é a ‘argumentação pelo absurdo’. Segundo Golding, filósofo do direito, “se uma dada regra, juízo, ou decisão levar a consequências inaceitáveis, então a regra, juízo ou decisão deve ser rejeitada”. Necessitamos, diuturnamente, como indivíduos e como sociedade, fazer um exercício de autoavaliação e de autocrítica, para conferirmos para onde nossas ideias, ideais e ideologias estão nos levando. Faça o teste você mesmo e veja os resultados. Precisamos, urgentemente, resgatar nossa humanidade, autonomia pensante e decisória – e sairmos da mera condição de ‘bonecos de pau’. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna