Destaques Dia a Dia

Dia de festa na cidade

POR FLÁVIA DE OLIVEIRA LEITE

30 de outubro de 2020

Era dia de festa na cidade. Todas as fazendas dormiriam sem os donos naquela noite, afinal, todos queriam marcar presença na festa do Padroeiro. As mulheres casadas não poderiam perder a chance de pagarem suas promessas. Os maridos, de fazerem bons negócios nos leilões e os moços solteiros de paquerarem as mocinhas. E é de um desses moços que essa história fala.

João era meio desajeitado, não tinha dons de cortejador. Gostava de ir a bailes e dançar um forró, mas nada que passasse disto. Já na primeira volta pela praça da Matriz avistou uma moça que lhe agradou muito. Ficou até meio suspenso, sem saber o que estava sentindo. Na segunda volta, mal podia esperar para encontrá-la de novo, mas não o fez, porque ela não estava mais lá.

Resolveu mudar o percurso, passando pelo meio da praça. Lá estava ela, sentada em frente à velha fonte, de braço dado com uma amiga. Para seu espanto, ela deu um sorriso quando o viu. Ele correspondeu, mas continuou a andar até a rua onde uma dupla sertaneja cantava modas de viola. Quando ele menos esperava, ela estava atrás dele, tímida, de cochicho com a amiga.

— Oi, moça bonita, qual o seu nome?
— Oi, moço, é Euzébia, e o seu?
— É João. O rapaz não sabia o que fazer, pensou que o assunto tinha chegado ao fim. Mas não poderia deixar passar e insistiu:
— Será que… assim, ocê não queria dançá uma dança mais eu?
— Ah, pode ser, uai! E na contradança, surgiu um assunto. Ela sorria pra ele, ele apertava a mão dela.
— Onde é que ocê mora, Euzébia?
— Numa fazenda aqui bem pertinho, se ocê quiser eu te ensino como chegá lá…
— E eu posso ir lá te ver amanhã? Euzébia não respondeu de imediato. Ficou com as bochechas rosadas e João pensou ter ido rápido demais.
— Uai, acho que meu pai ia gostar de te conhecer. “Menos mal”, João pensou. Pelo menos ela não o deixou ali falando sozinho. Mas ainda estava preocupado. Ele, tímido como era, nunca tinha ido falar com pai de moça nenhuma. Mas de Euzébia ele estava gostando, gostando muito e faria qualquer coisa por ela.

A história se resume agora em João ter tomado uma dose no bar do Sô Aníbal, para criar coragem e ir conversar com o velho. Foi, e foi bem. Por sorte ou por destino, os familiares da moça gostaram muito do rapaz e já marcaram a data do casamento.

Agora o foco da história é Euzébia, que como toda menina daquele lugar sonhava com um lindo vestido e uma festa de casamento. Sem grandes delongas chegou o aguardado dia. O céu amanheceu cheio de neblina.

— É, hoje vai chovê o dia inteiro — alertou o pai da noiva. Mas, Euzébia tinha certeza que nada a atrapalharia de entrar na capela naquele dia. Muito ainda havia a se fazer até a noite, e a mãe estava ocupada demais para se preocupar com o tempo.
— Deixe de bobage home, e não fala nada pra Euzébia que é pra não assustá a menina. Vou rezá um terço pra São Pedro, não fica preocupado “quisso” não.

Mas chuva não acata preces de mãe. Quando o sol se punha, no alto da serra ouviu-se o uivo dos lobos e o cantar dos grilos anunciando a tempestade que viria naquela noite.

Demorou, mas veio. Às 7 horas da noite já trovejava no céu, mas ainda garoava fino na entrada da Capela de Santa Rita. O noivo e todos os convidados já estavam posicionados, mas a noiva ainda não chegara.

— Seu Pedro, será que a Euzébia ainda vai demorá demais? — perguntou o noivo ao sogro.
— Fica tranquilo, João, deixei ela com o primo dela, o Gabriel. Eles num hão de demorá.

Naquele momento, ouviu-se um estrondo. A chuva caía forte. João esperou de pé, depois sentou-se e, por fim, ajoelhou-se. A ansiedade vingou em preocupação e depois em tristeza. Naquele altar não tinha noiva nenhuma, e já era madrugada.

O padre cochilava abraçado à Bíblia. As trovoadas que iluminavam o céu, escureciam o coração de João. Os convidados se mostravam inquietos e famintos. Mas não existe festa de casamento sem noiva… A moça já devia ter aparecido…

Após horas de espera, seu Pedro saiu à procura da filha, mas aconselhou João a ficar, caso Euzébia aparecesse. Mas nem todos fizeram o mesmo. Assim que a chuva afinou, foram arreando os cavalos e partindo estrada afora.
Em tristeza, o vestido branco rendado bordado pela avó, nunca atravessou o velho tapete vermelho da capelinha de Santa Rita… Após secar as lágrimas e avistar a barra alaranjada da alvorada, o noivo voltou sozinho pra casa.

Os pensamentos transbordavam em sua mente. Não tinha notícias de ninguém, e ninguém mais teria as suas.
Na estrada, a luz do sol apontava no horizonte e o cheiro de terra molhada perdurava. Naquela madrugada, João sonhou descer a serra com a noiva, mas pela manhã decidiu subir aos céus sozinho…

Esta e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: [email protected]