Destaques Opinião

Depois da tempestade

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

24 de junho de 2020

Depois da tempestade vem a bonança”, diz o dito popular. Mas, nos últimos tempos, esse provérbio vem sendo contrariado. Vivemos tempos estranhos em que, finda a tormenta, segue-se outra, e outra, e outra… até sabe-se lá quando.

Aturdidos, líderes, doutores, analistas e especialistas de todos os ramos e matizes, políticos, religiosos e, mesmo nós, comuns mortais, nenhum de nós pode olhar a cena global atual, com as suas mais variadas crises – pandemia do Covid-19 liderando e ceifando vidas aos milhares -, e arriscar a prever o dia seguinte, quiçá traçar um cenário futuro de alguns meses, com previsível segurança, dos acontecimentos globais e nacionais que nos aguardam. Até os ‘profetas do apocalipse’ se calam. A incerteza é a certeza. A ‘velha ordem’ sendo superada.

Tudo isso são sinais das mudanças que estão por vir, a exemplo de um vulcão, que emite sinais de sua iminente erupção, tais como liberação de gases e vapor de água, pequenos terremotos e até um aumento do tamanho da montanha. As convulsões sócio-político-econômicas pelas quais estamos passando no país e no mundo são alertas de que um nova ordem está sendo gestada.

E os assistentes do parto somos todos nós. É muito provável que tal concepção seja demorada. Ainda conviveremos com Sarneys, Renans, Lulas, Temeres, Bolsonaros, Toffolis, Gilmares… e, até, conosco mesmos (olhamos muito para o outro, mas quem de nós não precisa melhorar?). Alguns destes, cadáveres insepultos da velha ordem, que não nos representam mais e, talvez, nunca nos tenham representado, mas simbolizam uma era que perdurou por muito tempo. Outros, elementos de transição para o novo que se anuncia e para a renovação que se faz necessária. Faça a sua escolha (rsrsrs!).

Enquanto isso, ou em meio a tudo isso, o que podemos fazer? Navegando por mares revoltos, quando a nau se encontra atingida por tempestade e correndo o risco de naufragar, o comandante dá ordem aos marinheiros para que livrem o barco de tudo aquilo que é desnecessário e acessório. Toda carga e peso morto devem ser descartados, mantendo-se, apenas, o essencial para a sua navegabilidade e sobrevivência de todos a bordo naquela circunstância, na esperança de superá-la, alcançando-se mar tranquilo.

No recesso a todos imposto pela pandemia do Covid-19, temos tido a oportunidade e tempo para rever conceitos, relacionamentos, comportamentos, atitudes, enfim, reavaliar como temos visto o mundo e vivido nossas vidas. E a hora é a de decidirmos o que é necessário, fundamental, para a nossa sobrevivência e convívio saudável como humanos, em todos os âmbitos (pessoal, familiar, social, das nações…) e nos desvencilharmos das coisas que nos limitam ou impedem de crescer. Se não podemos tudo, se a tarefa que se apresenta é hercúlea, talvez até utópica, diriam alguns, podemos e devemos começar por nós e pelo nosso entorno familiar e social.

É o mínimo que está ao nosso alcance. O que for feito agora só será percebido e usufruído mais à frente. Mas precisamos prosseguir no processo de mudanças e legar algo melhor para a nossa e, principalmente, para as futuras gerações.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna.