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“De menor” e “de maior”: pode isso?

27 de junho de 2020

Uns dias atrás, uma amiga me mandou um áudio inconformada pelo fato de algumas pessoas usarem as expressões “de menor” ou “de maior”. “Anderson, disse ela, pelo amor de Deus! Por favor, escreva um texto para falar que “de menor” e “de maior” não existem”.

Eu dei muita risada pelo jeito efusivo dela ao me fazer tal pedido e respondi que era uma excelente ideia para uma crônica. Aqui estamos! Bem, realmente, em português padrão ou culto ou formalizado, como queiram, embora esses termos não sejam, cientificamente, sinônimos, mas, enfim,… o que quero reafirmar é que essas expressões não existem para a gramática oficial portuguesa. Todavia, novamente, do ponto de vista científico, não podemos afirmar que elas não existam por um motivo bem simples: elas são utilizadas por parte da população.

É muito improvável que essas expressões sejam incorporadas pela língua portuguesa normativa, pois por causa do aumento gradativo de pessoas escolarizadas, o uso delas tem sido menos frequente na fala e, na escrita, os registros são poucos. Consultei dicionários de uso do português que registram palavras e expressões que não estão na língua oficializada, mas não encontrei nada. É uma pena porque não poderei dizer o porquê de algumas pessoas utilizarem tais termos. Quem sabe, um dia?

Pois bem, isso serviu para fazer algumas reflexões acerca da preposição “de”. Como sabemos, a preposição é uma palavra invariável que existe para estabelecer a relação entre dois termos de uma frase/oração, ou seja, podemos dizer que ela serve para ligar dois elementos de uma frase ou oração, criando uma relação entre eles. Por exemplo, escola de líderes, casa de Pedro, bolo de chocolate (da minha sobrinha Paloma, preferencialmente), filhos de João etc. Para reafirmar, a preposição “de” está ligando duas palavras. Tendo isso explicado, posso afirmar que a frase “ele é de menor” não faz sentido para a língua oficial porque o verbo é de ligação, isto é, ele já liga o sujeito (ele) e o adjetivo (menor). Portanto, “ele é menor” ou “ela é maior” são mais lógicos diante da normatividade da língua. Certo?

Ademais, o que podemos refletir sobre esse tema é a possibilidade de significação que os usos das preposições podem nos trazer. Explico. Certa vez, uma professora, ex-aluna minha, perguntou-me qual seria o correto: “sala de professores” ou “sala dos professores”. Respondi que “sala de professores” poderia servir para qualquer pessoa que exercesse a profissão. “Sala dos professores” seria para a utilização dos professores de uma determinada escola. Por que? Porque “dos” é a junção da preposição “de” mais o artigo definido “o” que especifica, define quais professores poderão utilizar aquela sala, no dia a dia, ou seja, os professores daquela escola. Entendeu?

Há mais assuntos sobre essa questão de significação no uso de preposições, mas é temática para outra crônica. Um abraço de urso e não, do urso!

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa (PUC/SP). Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob