Destaques Dia a Dia

Crises existenciais

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

29 de setembro de 2020

Embora estejamos evoluindo, principalmente quanto ao conhecimento científico e tecnológico, a psique dos humanos não tem se modificado de maneira significativa, desde a antiguidade, segundo os relatos bíblicos e os documentos históricos e antropológicos. No início, preparados para enfrentar os desafios de uma sobrevivência animal, de defesa e ataque, alimentação e procriação, os seres humanos, hoje em dia, com quase tudo em pronta entrega, de consumo imediato, talvez tivesse que apresentar diferenças significativas na forma de agir e reagir frente aos percalços da vida.

O determinante profundo de nossas crises é sempre a situação de desequilíbrio entre os meios e as forças de que dispomos mentalmente para enfrentá-las, resolvê-las, além da natureza e gravidade do problema com que nos deparamos. Devemos considerar, inicialmente, o estado físico do organismo, que é o plano básico na decorrência da crise existencial. O funcionamento dos órgãos e sistemas pode auxiliar nas defesas contra a crise ou acarretar o surgimento de fenômenos psicossomáticos de considerável importância e difícil tratamento. Vem, a seguir, a personalidade da pessoa, com suas características próprias, predisposições, imaturidade, conflitos, dificuldades, áreas intelectuais bem desenvolvidas, ou não, responsabilidade e irresponsabilidade, todo um conjunto, enfim, de respostas aos desafios.

Outro fator de destaque no estudo da adaptação humana é o que se refere aos padrões realmente incontroláveis das crises existenciais, tais como: enfermidades, acidentes, morte, perda de emprego, aposentadoria, aumento de responsabilidades, entre outros, que estão fora de possibilidades de serem por nós manuseados, modificados ou evitados. Podemos destacar, ainda, o fator constituído por uma disponibilidade maior ou menor de recursos da comunidade em que estamos inseridos, que poderá facilitar ou dificultar o encaminhamento da crise e seu processo. Isso acontece quando ela depende das condições comunitárias, como é o caso da velhice, aposentadoria, enfermidades crônicas, previdência social, tratamento hospitalar, asilo ou casa de repouso, etc.

Finalmente, a questão referente ao sistema de comunicação do ambiente social, que deve servir ao indivíduo, ligando-o e relacionando-o com colegas e amigos, evitando seu isolamento psicossocial. Essa rede de comunicação tem extraordinária importância quando sobrevém qualquer crise emocional, uma vez que, a assistência prestada por amigos, parentes e colegas deve ser assídua, cordial e prolongada. Visitas e telefonemas constantes, estabelecendo uma verdadeira “corrente de comunicação social” são de vital importância como recurso comunitário de assistência a quem está atravessando uma crise existencial.

O contato com pessoas, a distração com notícias e informações são pontos referentes de indiscutível significado na superação da crise e como fatores de resolução da mesma. Todos nós estamos sujeitos a esse tipo de problema que, de uma forma ou de outra, proporciona-nos as condições necessárias para o desenvolvimento da nossa personalidade e o indispensável ajustamento social. No caso específico de adolescentes, um ser em transformação, essas crises afloram com maior intensidade, porque sua personalidade ainda está indefinida e eles não se identificam nem com a família, que é sua origem, nem com a escola e a sociedade, porque ainda não criaram uma identidade própria. PUPA, do latim, significa estágio intermediário entre fases de desenvolvimento, daí a palavra ‘pupilo’, aquele que ainda está evoluindo e aprendendo.

Nos adultos, as crises também são presentes e frequentes, em maior ou menor grau, dependendo de uma série de fatores, como o ambiente familiar, econômico, social e, até mesmo, genético. Na realidade, nenhum ser humano está isento desses momentos, uns mais graves, outros atenuados, que ocorrem ao longo da nossa existência, causando-nos problemas e dificuldades, que devemos enfrentar, sentir, analisar e procurar superar.