Destaques Dia a Dia

Corruptor versus corrompido

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

10 de novembro de 2020

Muito se tem falado a respeito da corrupção que vem acontecendo como “nunca neste país”. Indignado, comecei a refletir sobre o assunto, tentando aprofundar a compreensão de suas causas e efeitos em cada um de nós, no meio em que vivemos e na sociedade como um todo, e a conclusão a que cheguei é que essa ‘praga’, que nos assola, tem origens que devem ser analisadas e muito bem entendidas.

Consultando o dicionário, encontramos uma série de sinônimos que vão se completando, e que nos ajudam a entender a profundidade da questão. Vejamos: “Corrupção significa, além do ‘ato ou efeito de corromper’, ‘putrefação’, ‘decomposição’, ou ainda, ‘devassidão’, ‘depravação’, ‘perversão’, que, por sua vez, significa “degeneração mórbida, desmoralização, desvio de uma função normal, sobretudo, no terreno psíquico, falta ou perda de moralidade ou de força moral”. Com tantos sinônimos pejorativos não nos restam mais dúvidas a respeito da gravidade do problema.

Em alguns lares, não é raro que os pais, precisando de algum serviço do filho, ofereçam recompensa em dinheiro para que sejam obedecidos, ao invés de utilizarem apenas sua autoridade ou o respeito que lhes é devido – algo assim: “Meu filho, eu preciso que você vá à padaria para mim”, ao que ele responde: “Não vou, agora não posso, pois estou assistindo a televisão”, e a mãe diz: “Se você for à padaria, eu lhe dou cinco reais”. Já existe aqui um início de corrupção, pois algo que seria natural (um filho atender ao apelo da mãe, por respeito ou por amor), passa a ser uma situação em que o filho se ache no direito de sempre receber algo em troca do que for fazer. Diferente de oferecer uma recompensa por um mérito conseguido pelo filho em outras ocasiões.

Na vida pública, também nos deparamos com inúmeras situações em que, ao invés de agirmos de acordo com a lei, ou com as regras estabelecidas, alguém procure resolver seus problemas por outras vias, como no caso do motorista que estaciona o carro em local proibido, que atravessa o sinal vermelho, que seja pego dirigindo após o consumo de bebida alcoólica, ou que exceda o limite de velocidade estabelecido e, em seguida, procura subornar o policial que o aborda, para se livrar de uma multa ou do guincho. Também são muito comentados os casos em que, numa repartição qualquer, quando alguém, precisando conseguir um documento com certa urgência, oferece ao funcionário um ‘agrado’, para que seja agilizada sua liberação.

Na política, é notório o fato de que, quando alguém, por ter votado em determinado candidato, ou ter conseguido muitos votos para o mesmo, julgue-se no ‘direito’ de fazer gestões junto a ele para conseguir algum emprego, isenção de impostos ou favorecimento em questões particulares pendentes. Como podemos perceber, a corrupção acontece de forma disfarçada e, até mesmo, inocente, aparentemente, mas é nessas ocasiões que ela vai se instalando, tornando-se comum e corriqueira, até chegar às grandes transações comerciais e nas mais altas esferas políticas.

Por que um funcionário do departamento de compras de uma empresa não poderia promover uma licitação justa, sem querer ‘levar vantagem’ na aquisição dos produtos? Por que um governante não poderia empreender suas obras, contratando empreiteiras sem receber nenhuma comissão por isso? Ou por que um representante comercial não poderia efetuar a venda de suas mercadorias, sem ter que oferecer alguma vantagem para o responsável pelas compras? Até mesmo porque todos eles já recebem salários por seu trabalho, mas, mesmo se não recebessem, estariam em jogo questões éticas e morais que são inalienáveis para qualquer pessoa de bem e em qualquer relação comercial.

Acredito que aqui chegamos ao cerne da questão: Se existe corrupção é porque alguém sabe como corromper e alguém aceita ser corrompido. Não há apenas um culpado nesse processo infame, pois ninguém é corrupto sozinho. Para que aconteça um crime dessa natureza, é necessário que haja mais de uma pessoa envolvida. Não podemos aceitar passivamente que ‘pequenas’ corrupções aconteçam em nosso meio, pois é através delas que as grandes vão se instalando, gradativamente, passando a serem ‘naturais’ e ‘aceitáveis’. Crenças do tipo “todo mundo faz, por que eu também não posso?” vão se tornando, aos poucos, verdadeiras, o que é inadmissível. É como nos ensina o ditado popular: “O mal se corta é pela raiz”.