Destaques Opinião

Contribuição ao novo Plano Diretor de Passos

Por Ivan Vasconcellos

7 de julho de 2020

O processo de construção de um Plano Diretor é essencialmente colaborativo. Sem o envolvimento efetivo de cada um de nós, ele acaba se tornando um instrumento ineficaz, que não produzirá os resultados que prometeu; como tem sido por anos a fio. Entretanto, o espírito deve ser sempre construtivo, com visão comunitária e de futuro, buscando agregar contribuições que aumentem o seu potencial transformador.

Um Plano Diretor tem o condão de mudar os destinos de um município, olhando para o futuro e estabelecendo objetivos de alto nível, que perpassarão várias administrações, coordenando um movimento de avanço, de exploração de novos potenciais, redirecionando progressivamente o desenvolvimento urbano, econômico e social rumo a um novo cenário.

Um bom Plano Diretor precisa nos fazer enxergar o futuro, estruturando os passos para a incorporação progressiva e gradual de novos pensamentos, novos conceitos, novas formas de solução dos problemas. Deve nos apresentar objetivos mais ousados e que levarão a mudanças efetivas nos destinos da Cidade, incorporando os avanços disponíveis em todas as áreas do conhecimento, com o objetivo de melhorar a cidade e a vida dos seus habitantes.

Respeitosamente e sem questionar os méritos técnicos da elaboração do Plano, conduzido por uma equipe competente da respeitável Fundação João Pinheiro, depois de ler o conjunto das proposições disponibilizadas para discussão em consulta pública, sinto que estamos perdendo uma grande oportunidade de avanços. Embora a palavra “inovação” apareça aqui e acolá nos textos e justificativas disponibilizados – “É até inovador…”, afirmam em certo momento – o espírito inovador não se manifestou verdadeiramente na proposta. E é este o momento propício para rever isso e agregar ao Plano a ousadia que nos conduzirá ao futuro.

A meu ver, a proposta colocada para discussão assemelha-se mais a um Plano de Governo, reunindo diretrizes que vão nortear as ações de um mandato da Administração Municipal; timidamente, apenas demonstra como pretende responder aos problemas imediatos e que afligem os munícipes neste momento.

Com a limitação de campo de visão característica dos Planos de Governo, em praticamente todos os tópicos tratados, o espírito das propostas é reativo, e não proativo; sua visão de futuro limita-se a propor soluções e melhores condições para os problemas identificados no presente. É assim quando identifica as atividades econômicas preponderantes atualmente e centra nelas todas as ações para o futuro, focadas em apenas melhorar as condições sob as quais os setores trabalham hoje.

É assim quando insiste em soluções tradicionais de condução para a drenagem urbana, com barragens, canais apenas maquiados de qualidade urbana, quando poderia se aprofundar em soluções mais atuais incorporando elementos de urbanização de baixo impacto como padrão obrigatório para novos loteamentos.

Precisamos de mais ousadia, de enxergar mais longe; precisamos nos questionar se planejar o futuro é apenas fazer melhor o que fazemos agora, mais do mesmo. O mundo que vem por aí é muito dinâmico e repleto de novas possibilidades e oportunidades para as quais precisamos nos preparar agora. Por exemplo, Saúde e Educação, dois de nossos pilares mais consistentes não podem ser tratados apenas como um aspecto funcional em Serviços. Tem que ser vistos a partir do seu potencial de transformar a natureza de nossa vocação econômica, trazendo a inovação e a tecnologia para o nosso cotidiano.

Temos uma Universidade Estadual, duas faculdades de Medicina, um Instituto Tecnológico Federal, uma Santa Casa que foi reconhecida como o 12° Melhor Hospital do país; são instituições que precisam ser considerados como motores para nos conduzir para um futuro mais ligado à tecnologia, à pesquisa, à criatividade, à inovação.

Neste aspecto, a consolidação do conceito da cidade como Área de Inovação, a partir do Plano Diretor parece ser um imperativo para assegurar que estejamos efetivamente nos preparando para o futuro. Um texto que não trate mais profundamente de 5G, cidade inteligente e conectada, startups, inovação, criatividade, bem-estar urbano, infraestrutura urbana sustentável, urbanização de baixo impacto bioinfiltração, biorretenção, caminhabilidade, recuperação do ciclo hidrológico natural, novas formas de moradia, teletrabalho e economia circular estará ultrapassado mesmo antes de ser aprovado; o que dizer em 5 ou 10 anos à frente…

Lembrando o visionário Buckminster Fuller, genial inventor, designer, arquiteto e escritor do século XX: “Você nunca muda as coisas combatendo a realidade existente. Para mudar algo, construa um modelo novo que torne o modelo existente obsoleto.” Não podemos perder mais esta oportunidade de dar os tão decantados e quase nunca executados “passos de gigante” que marcam nosso Hino a Passos. E só conseguiremos isso com ousadia e inovação.

IVAN VASCONCELLOS, Arquiteto e Urbanista