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Contos da quarentena

18 de junho de 2020

As sócias Maribel, Camila e Carolina, da Palavra Bordada. / Foto: Divulgação

Em momentos difíceis, a criatividade pode ser aliada das boas ações. No Rio Grande do Sul, é possível encontrar um exemplo disso: uma pequena editora decidiu apostar em uma iniciativa na qual a escrita é transformada também em ferramenta de apoio social. Composta por três sócias – a jornalista Carolina Rocha, a relações-públicas Maribel Lindenau e a designer Camila Provenzi –, a editora Palavra Bordada, com sede em Porto Alegre, acaba de lançar o livro “Quarentenas: Textos de uma Quarentena Criativa”, que, além de estimular a produção literária, contribui com uma instituição social da cidade.

Logo no início do isolamento, começamos a ver instituições fazendo campanhas de arrecadação porque empresas cortaram verbas e as pessoas não estavam indo levar doações. Queríamos fazer algo para ajudar, mas não sabíamos como”, conta Carolina.

Foi assim que, aproveitando a sua própria expertise (elas se conheceram em um MBA em Book Publishing), as três tiveram a ideia de lançar um livro que reunisse textos com reflexões ancoradas no momento.

Optamos por um e-book porque o formato permitia uma fatia maior de destinação, pela facilidade de as pessoas comprarem o livro sem riscos de contaminação e pela agilidade de produção”, relata Carolina.

Finalizada em menos de três meses e lançada esta semana, a publicação reúne crônicas e contos assinados por 41 autores.

O processo envolveu intensa divulgação e um chamamento público, a partir do qual mais de 100 produções foram submetidas à avaliação das sócias e ao olhar de um curador convidado, o escritor e professor de criação literária Robertson Frizero. Com currículo que inclui participação no júri do Prêmio Jabuti, ele contribuiu com pareceres e discussões sobre cada texto.

Quanto aos critérios de seleção, Carolina explica que, além de cumprir requisitos básicos de qualidade, os textos tinham de ser crônicas ou contos inéditos e não ultrapassar o limite de cinco páginas em uma formatação preestabelecida. Além disso, o conjunto final deveria formar um leque amplo de temas.

Ao longo das páginas, há textos que mostram, por exemplo, como a quarentena é vivenciada pelos idosos, assim como por jovens que tiveram de deixar de lado encontros marcados em aplicativos.

Tem muita gente falando sobre como é um momento de parar, olhar para si, para sua vida. Outros textos questionam se já não vínhamos nos isolando antes, pela preguiça de conviver”, detalha Carolina.

Quase 70% dos autores estão tendo um texto publicado pela primeira vez. São perfis variados, formados por pessoas que vivem por todo Brasil e também no exterior. A lista inclui engenheiro, bancária, comediante e até o militar Janderson Amaro, de 39 anos, que escreveu “Dados Suspeitos”, com a filha Mariana Trindade, de 15 anos.

Eu sempre a incentivei a escrever”, conta ele, que vive em Canoas (RS) e também é formado em Letras. “Fizemos realmente a quatro mãos, com ideias minhas e dela. Escrevemos em três madrugadas.

Para Valdeci Alves de Almeida, de 47 anos, ser selecionado para compor a coletânea foi um sonho realizado. Fã de autores como Fernando Sabino, Rubem Braga e Rachel de Queiroz, o cearense autodidata, que trabalha fazendo lanches em uma padaria em São Paulo, sempre sonhou com o dia que estaria em uma antologia.