Destaques Dia a Dia

Conhecendo Cora

Por Décio Martins Cançado

27 de outubro de 2020

Algumas pessoas são tão especiais que, mesmo tardiamente, sem nenhum marketing empresarial, sem o empurrão da mídia, tão utilizado atualmente, somente pela simplicidade, profundidade, beleza e qualidade de seus feitos acabam sendo conhecidas e reconhecidas por suas atitudes e pela obra que produziram, pelo legado que nos deixaram, pela profundidade de suas ideias. Cora Coralina foi uma dessas pessoas. Quanto mais a conheço, e conheço sua obra, mais a admiro, razão pela qual coloco um pouco dela nesta coluna.

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu em agosto de 1889 e faleceu em abril de 1985. Poetisa e contista goiana, considerada uma das principais escritoras brasileiras, teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965 (Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais), quando já tinha quase 76 anos. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.

Certa vez, um reporter, durante uma entrevista, ela já idosa, perguntou-lhe: – “O que é viver bem?” e ela respondeu: – “Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. Nunca diga ‘estou envelhecendo, estou ficando velho’… Eu não digo! Não digo ‘estou velha’, e nem que estou ouvindo pouco. É claro que, quando preciso de ajuda, eu digo que preciso. Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos, e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que se lê. O bom é produzir sempre, e não dormir de dia. Também não diga pra você que está ficando ‘esquecido’, porque assim você fica mais ainda. Nunca digo que estou doente, digo sempre: ‘estou ótima’.

Eu não digo nunca que estou cansada. Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansado e esquecido, mais esquecido fica. Você vai se convencendo daquilo, e convence os outros. Então… Silêncio! Sei que tenho muitos anos, sei que venho do século dezenove e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha, ou não… Você acha que sou? Posso dizer que eu sou a terra e nada mais quero ser. Filha dessa abençoada terra de Goiás.

Convoco os ‘velhos’ como eu, e os mais velhos que eu, para exercerem seus direitos. Sei que alguém vai ter que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo. Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar, todos os dias, minha própria personalidade, despedaçando, dentro de mim, tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.

O importante é semear, produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade. Procuro semear o otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende. Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.”

Entre muita coisa bonita que Cora escreveu, existem algumas que quero ressaltar: a primeira chama-se ‘Saber Viver’ e diz o seguinte: “Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes, basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.”

E mais algumas pérolas, para nossa reflexão: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” – “O Saber se aprende com os mestres, a Sabedoria, só com o corriqueiro da vida.” – “Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores”. – “A Verdadeira coragem é ir atrás de seus Sonhos, mesmo quando todos dizem que ele é Impossível” e, finalmente: – ““Desistir… eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”.