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Confúcio, modelos, eleições municipais e vida pós-covid

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

14 de outubro de 2020

Aproximando-se as eleições municipais deste conturbado ano de 2020 (que ano neste nosso Brasil não foi conturbado, desde o seu descobrimento, não é mesmo?!), vale a pena relembrar algumas expressões do filósofo chinês Confúcio, nascido por volta de 550 a.C. Confúcio dizia, em uma de suas muitas máximas, que se deve agir antes de falar para, só então, falar de acordo com os atos praticados.

É o popular ‘dar o exemplo’, antes de mais nada, que os pais procuram ensinar a seus filhos desde a infância, em uma boa educação. Mas, para ser exemplo, necessitamos nos espelhar em alguém ou em algo que nos sirva de modelo, pois os modelos fazem parte, também, do processo de aprendizado e de crescimento pessoal: seguimos, ou seja, repetimos, copiamos, admiramos nossos avós, pais, um irmão mais velho, um professor, um artista famoso… um santo de devoção, um líder político ou religioso, e mais recentemente, as mídias sociais estão abarrotadas de ‘blogueiros’ e de ícones dos mais diversos espectros da sociedade e de uma infinidade de assuntos e temas, com os seus milhares e, até, milhões de seguidores.

É neste contexto que se destaca outra expressão do filósofo chinês, conhecida de todos: “Uma imagem vale mais que mil palavras”. E a imagem que nossos políticos e governantes nos passam tem sido a pior possível. Falam muito antes de agir, prometem mundos e fundos, e, quando eleitos, roubam os mundos, os fundos e a esperança neles depositada. Para não focar só a política, exemplo sempre presente dessa máxima de Confúcio é o do jogador de futebol Neymar, que tem a sua imagem associada, negativamente, às constantes quedas em campo e às encenações dramáticas e exageradas em torno delas. Virou marca registrada (“cai, cai!”) patenteada mundialmente, conhecida por todos, das criancinhas até os mais idosos. Lamentável. Tem tentando reverter isso, até mesmo com propaganda milionária de seus patrocinadores nos meios de comunicação, buscando justificar este comportamento. Mas só vai funcionar quando houver a demonstração, clara e firme, de mudança de atitude desse atleta.

Disse, ainda, o citado pensador chinês, que “Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo”. A insatisfação generalizada que se observa na sociedade, seja com a política e seus representantes, seja com o relativo caos que se instalou em nosso país nos seus mais diversos segmentos (segurança, saúde, educação, trabalho…) é momento propício para refletirmos sobre os modelos que temos seguido ao longo de nossas vidas, até mesmo (e com relevância) no âmbito familiar, e onde eles nos trouxeram. E, mais ainda, como partícipes e também construtores da sociedade em que vivemos, que exemplo pessoal temos sido. Temos melhorado ou tornado pior o mundo? Somos dignos de ser seguidos, também, ou um modelo a ser evitado?

Por fim, considerando que somos um povo muito religioso, habituados a buscar e cultuar salvadores da pátria, a aguardar uma solução que nos venha quase sempre de fora – um “milagre” -, como que nos eximindo da nossa responsabilidade pessoal e coletiva, é bom trazer à consciência que – já agora e após superada a pandemia do Covid-19 -, o verdadeiro milagre da construção de uma vida e de um mundo melhor para todos é o daqueles que norteiam suas vidas e atitudes por princípios éticos e trabalham para que o bem prevaleça, em que a superação das crises que nos acompanham desde a fundação desta nação, há de ser alcançada, passo a passo, gradativamente, com a participação consciente de cada um, em espírito coletivo e solidário. Este é o verdadeiro milagre! Fora disso, continuaremos a experimentar mais do mesmo que já temos tido. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna