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Confinamento deu origem a hits

1 de abril de 2020

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Por muitos momentos, a porção sensível e criativa da humanidade soube reverter o isolamento em grandes obras musicais Por motivos diferentes, artistas, refugiados por vontade própria ou não, precisaram de confinamento para entrar em processos criativos com começo, meio e fim.
O rock and roll costuma glamourizar essa situação. No final dos anos 60, as bandas viveram a moda de alugar casas longe dos centros urbanos para compor álbuns inteiros. Os canadenses do The Band fizeram isso logo no início para lançar seu disco de estreia, em 1968. Alugaram uma bela casa de madeira pintada de rosa em West Saugerties e lá gravaram músicas de Bob Dylan e criaram obras monumentais como The Weight, que fazem parte do álbum Music From Big Pink.
Os Stones viveram um isolamento mais, digamos, gaiato. Para fugir do imposto de renda do Reino Unido, que já rugia à porta de suas casas, eles se autoexilaram na França para fazer as músicas de Exile on Main Street, com imortalidades como Tumbling Dice e Sweet Virginia.
Enquanto Mick Jagger ficou em Paris com a namorada, Bianca Jagger, Keith Richards alugou uma mansão usada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial chamada Nellcôte, em um vilarejo perto de Nice. Os outros integrantes foram para o Sul. O álbum foi gravado em Nellcôte, com um caminhão de gravação móvel da banda.
Em outros tempos, e por outras razões, lá estavam mais artistas a sorver a inspiração de seus confinamentos. Os rappers Afro X e Dexter, que dividiam a mesma sela 509E do extinto Presídio do Carandiru, em São Paulo, por assalto à mão armada, compuseram as músicas do disco Provérbios 13, lançado em 2001, quando ainda estavam presos.
Depois de serem presos em 1969 pela ditadura, Gil e Caetano se exilaram em Londres. Lá, enquanto Gil saía pelas noites, Caetano isolava-se em casa. Como um confinado dentro do exílio, entristeceu-se a ponto de fazer nascer com o violão nas mãos a canção London, London. Gil, antes da partida, já havia feito três no cárcere militar:
Futurível, Cérebro Eletrônico e Vitrines, além de uma quarta da qual se esqueceu.