Destaques Dia a Dia

Condição indispensável

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

20 de outubro de 2020

A respeito do relacionamento homem e mulher no mundo moderno, conta-se a seguinte fábula. Um certo dia, enquanto caminhava, um homem encontrou uma lâmpada mágica; esfregou-a e, sem muito espanto, viu sair um gênio que lhe concedeu ‘um único’ pedido. Como o homem morava em São Paulo e trabalhava no Rio de Janeiro, e tinha muito medo de andar de avião, pediu que ele construísse uma estrada em linha reta entre as duas cidades.

O gênio então explicou que tal construção seria muito demorada e muito cara (coisas de gênio brasileiro) e sugeriu que pedisse algo mais fácil. Após alguns instantes de reflexão, o homem desejou que ele lhe explicasse o que se passava na cabeça das mulheres, ao que o gênio prontamente respondeu, indagando: você quer a estrada com mão dupla, sinalizada, onde possa passar caminhão? Essa estória pitoresca serve de introdução para refletirmos a respeito da harmonia (ou desarmonia) entre homens e mulheres, assunto tão discutido há muitos anos.

Içami Tiba, psiquiatra e autor de vários livros, certa vez, fez uma colocação esclarecedora sobre esse tema, que vem nos ajudar nesta reflexão. Disse ele que a questão das diferenças psicológicas, sociais e intelectuais entre os sexos, que existem desde antigamente, têm sofrido profundas transformações nos últimos tempos, mas têm sido pouco percebidas ou, melhor ainda, pouco aceitas, principalmente, pelo sexo masculino. O homem, enquanto animal, quase sempre exerceu o papel de liderança, de ‘proteção’ da família. Enquanto ser social, sempre era o mantenedor (chamado de ‘cabeça’ do casal), o mais experiente e com maiores conhecimentos.

A mulher, a partir do momento que passou a estudar, a trabalhar, a assumir o seu espaço, a ter o comando de muitas situações, reverteu esse quadro, passando da situação de ‘sexo frágil’ para outra, muito mais abrangente e digna, que vem a ser de ‘sexo participativo’, atuando em todos os processos sócio-psico-culturais da sociedade moderna. Ocorre que muitos homens de hoje ainda são educados com os valores de antigamente; ainda têm em si a preponderância do lado animal, de ser o ‘macho’- o mais forte – portanto o que manda, e essa mudança, a emancipação da mulher, é uma situação que o incomoda pois ele se sente “fragilizado” frente às situações de ‘domínio’ da mulher.

Por se sentir assim, fica inseguro, sem os referenciais com que foi educado, com receio de se mostrar fraco e incapaz, o que, muitas vezes, reflete-se em um posicionamento de ‘fuga’ com relação a assumir um compromisso com as mulheres. Isso pode ser observado, principalmente, na juventude, quando os jovens preferem ‘ficar’ com um número maior de garotas, mostrando, indiretamente, sua ‘superioridade animal’ mas, ao mesmo tempo, demonstrando a falta de compromisso pelo medo de ser colocado em ‘check’ ao ter que discutir a relação e os seus conflitos, tão normais e necessários em qualquer convivência a dois.

Para que ambos, homem e mulher, consigam uma convivência harmoniosa, é necessário que ambos tenham boa vontade e iniciativa para uma mudança comportamental no relacionamento. Que ele utilize mais a sensibilidade, num esforço de aceitação e compreensão das potencialidades óbvias da companheira; e que ela consiga ser competente e atuante, sem perder a sensibilidade e a candura, próprias da feminilidade.

Precisamos buscar o surgimento de uma geração que queira uma vida pessoal interessante e que esteja aberta a mudanças baseadas nas ideias propostas pela ‘antroposofia’, filosofia criada no século passado pelo austríaco Rudolf Steiner, e que defende, em linhas gerais, o melhor relacionamento do ser humano, com ele mesmo, com a natureza e com os demais, respeitando o espírito e a criatividade do outro. Essas diferenças não nos humilham. Pelo contrário, são oportunidades de crescimento, de felicidade, que só é construída no relacionamento diário e na aceitação do outro. Essa talvez seja a condição ‘sine qua non’ (condição sem a qual não se fará certa coisa), para que homem e mulher se completem e vivam em harmonia, criando um ambiente salutar e feliz para si, para o local onde vivem e, especialmente, para os filhos.