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Comunidade lamenta a morte de Antônio Adauto Leite

Por Adriana Dias / Redação

1 de outubro de 2020

O carmelitano Antônio Adauto Leite faleceu com 93 anos. / Foto: Divulgação

C.R. CLARO – Luto oficial de três dias, decretado pela Prefeitura de Carmo do Rio Claro, e uma região inteira consternada em razão do falecimento de Antônio Adauto Leite, ocorrido na madrugada desta quarta-feira, 30 e seu sepultamento foi na tarde de ontem, no Cemitério de Carmo do Rio Claro. O carmelitano ilustre estava com 93 anos e estava internado no Hospital São Vicente de Paulo desde dezembro, se tratando de uma infecção nos rins e pneumonia. Mesmo com a idade avançada, outros carmelitanos lamentaram, na tarde desta quarta-feira, a morte do fundador do Museu de Arqueologia Indígena de Carmo do Rio Claro, que levava o seu nome.

Leite nasceu na zona rural na fazenda Córrego Bonito, foi casado com Maria Aparecida Moreira de Araújo Leite, a tia Cida, professora de Artes como é mais conhecida. Pai de Suzana de Araújo Leite Hervas e avô de duas netas, Maria Júlia leite Hervas e Ana Flávia Leite Hervas. A história de Antônio Adauto Leite se confunde com a história da cultura carmelitana, pois, desde 1.969 ele coleciona um acervo riquíssimo de peças indígenas que deram origem ao Museu e conta com mais de 3 mil peças catalogadas sendo considerado o maior do gênero na América Latina.

O diretor de teatro, Gabriel Vilella recorreu a Carlos Drummond de Andrade para falar de Antônio Adauto Leite, com o poema ‘Eterno’, no qual o autor diz: “… como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno. Eterno! Eterno!”. Adauto era para Vilella um grande homem, um grande intelectual e um artista pleno, sendo que seu amor pelas artes refletem em toda a cidade e na região.

Adauto entrou para a eternidade, e, por ser quem é, certamente ficará mais vivo que nunca. Ele sempre foi e será um farol para o futuro da cultura. Para além da dor, do luto e da perda, pois não sabemos lidar com a morte, hoje é um dia de alegria, pois, este carmelitano vai ser carregado pelos santos (todos aqueles que ele restaurou) e foi devoto, e ainda, pelos deuses dos índios, como o deus Tupã. Era um homem iluminado, posso dizer, sem medo de errar que para nós, mineiros, é o equivalente ao Pelé, só que nas artes”, afirmou Gabriel Vilella, se lembrando das memórias de sua infância ao ver Leite trabalhar, principalmente quando fazia restauro em santos, com suas mãos trêmulas.

Para a jornalista carmelitana Denise Bueno, a primeira imagem que ela tem do Antônio Adauto Leite ficou registrada na Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo em conversa com o pai dela. “Ele já era um ícone para mim. Foi também na Nossa Senhora do Carmo que vi os mais lindos presépios montados por esse artista. A leitura do nascimento de Jesus traduzida sempre para os dias atuais, para a realidade do município. Inesquecíveis”, escreveu em sua página do Instagram.

Ainda de acordo com Denise, como produtor de leite e a sua luta pela cultura indígena, ela o acompanhou pelo Informativo da Coopercarmo.

Mais tarde, como jornalista, tive o prazer de entrevistá-lo várias vezes. Uma dessas entrevistas, para o Informativo do Sicoob Crediminas, ficou gravada na minha memória para sempre. Cada peça mostrada da fazenda, (tudo funcionava) o rádio à válvula reproduzindo uma música da Ivete, era uma mistura de passado e presente, que se tornou inesquecível. E durante toda essa caminhada a doação do seu Museu particular para o município de Carmo do Rio Claro, a nossa terra! Poxa, que riqueza. Esse é um presente eterno. Nossa história, nossas raízes, estão registradas em cada peça do museu. Que nós carmelitanos e as gerações vindouras possamos sempre reverência- lo”, suplicou.

O também carmelitano e fotógrafo, Renato Soares, foi um dos que lamentou a morte de Adauto. Com vários livros publicados, principalmente com imagens de tribos indígenas de várias regiões do Brasil, ele se orgulha de ter fotografado praticamente todas as peças do Museu do Índio do Carmo.

Antônio Adauto era aquela pessoa que quando a gente o conhecia tinha uma impressão de que ele era louco, intenso, e ao mesmo tempo uma figura carismática. Que figura, eu era criança, ele era bravo. Era um homem com história, ele fazia parte da história, aliás, ele fez da sua própria história a história do Carmo. Todo fazendeiro que por ventura encontrou artefatos indígenas, passou trator por cima e plantou. Ele, não. Ao encontrar a urna mortuária mandou parar tudo. Fez o quê? Começou a escavar e guardar coisas de mais de 1 mil anos de história. Ele vislumbrou outra história de sua vida. Se tornou arqueólogo amador. E constituiu, para o Carmo, uma das coleções mais importantes do Brasil. Eu dizia, o Antonio enquanto fazendeiro é um fracasso (o que não é verdade), mas é um arqueólogo genial. Figura amada e odiada. Por sua história e importância para a comunidade indígena, eu trouxe vários índios até Carmo. Dentre eles, os índios krahô, detentores das machadinhas. Todos que trouxe amaram o Adauto”, salientou.