Destaques Dia a Dia

Comunicação

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

14 de setembro de 2020

Dias atrás li uma historinha, ou melhor, uma anedota que transcrevo aqui com um pouco de “perfumaria”. Um jovem colegial viajou com sua turma de classe para alguns dias de divertimento. Haviam combinado de ir para um acampamento. Seria a melhor forma de comemorar a formatura no curso colegial. Aproveitariam melhor o tempo, seria divertido, fortaleceriam os laços de amizade entre os colegas e mais econômico que festa.

Talvez, no futuro alguns viriam a se reencontrar por circunstâncias profissionais ou até por alguma coincidência. Todos sabiam que cada um pega o seu caminho depois. Há colegas que nunca mais se encontram na vida, tão distante ficam uns dos outros e em profissões e trabalhos totalmente diferentes. Um médico fica preso em seu consultório e no hospital onde atua, um engenheiro de obras não tem parada, vai para onde se constrói a obra. É a vida, cada um segue em frente!

Vejamos o que ocorreu com um colegial ao retornar para casa. Vários dias fora, longe do convívio familiar, mas, renovado e disposto a começar vida nova. Agora, partindo para um curso superior. Travou-se, então, o seguinte diálogo entre os pais e o filho:

Pai: – Pois bem, meu filho, espero que tenha gostado do passeio e da convivência com os colegas. Gostou mesmo? Filho: – Gostei! – Mãe: – O tempo lá estava bom? – Filho: – Bom! – Pai: – Não choveu nem um dia? – Filho: – Não. – Mãe: – Trataram bem de vocês no acampamento? – Filho: – Bem! – Pai: – A comida que serviram era boa e nutritiva? – Filho: – Boa! – Mãe: – Não fez muito frio, pois estavam no campo e no alto de uma serra? – Filho: – Não. – Pai: – As acomodações para dormir eram confortáveis? – Filho: – Sim! – Mãe: Você comeu frutas, doces? – Filho: – Comi! – Pai: – Andaram a cavalo? Filho: – Andamos! – Mãe: Não aconteceu nada de ruim, ninguém se machucou lá no mato? – Filho: – Não! – Pai: Você se divertiu bastante mesmo? – Filho: – Bastante! – Mãe: Filho, parece que você emagreceu um pouco? – Filho: – Será? – Bem, assim foi a conversa entre eles com mais algumas perguntas e as respostas bem claras, sucintas, breves e secas. Numa última pergunta feita pela mãe, sempre pensando no bem do filho e no seu brilhante futuro, tanto quanto o pai, é claro, ela fala: – Filho, neste tempo de divertimento e reflexão, você teve a oportunidade de pensar e decidir qual o curso e a profissão que irá seguir? – O filho, rápido como uma bala de revólver ou uma flecha de um arco indígena, sem pestanejar, claro, objetivo, curto e grosso: – Comunicação.

O pai olhou para a mãe, os dois sem nada entender, fizeram um aceno de cabeça em direção ao filho, dando aprovação a ele pela escolha e encerraram ali, naquele momento, a “entrevista” que faziam com um recém chegado de uma viagem de confraternização e comemoração de formatura. A mãe ainda diz: – Bem, filho, quero que vá para o seu quarto para descansar, se arrumar e depois iremos jantar. No quarto, longe do filho, eles se perguntavam como o filho seria um bom comunicador se não era de falar quase nada.

O diálogo com ele era encerrado em cada frase com apenas uma palavra e ainda sem demonstrar quase nenhuma emoção! Sabiam eles que o filho sempre foi de uma personalidade fechada, introspectivo, circunspecto, de poucas palavras, mas, um bom filho! Imaginavam que o ambiente colegial e a idade o transformariam, o fariam mais comunicativo. Caso não fosse assim, pensavam os pais que ele seguiria uma carreira profissional na qual ficasse preso em pesquisas, laboratórios, enfim, algo que não exigisse dele comunicação direta constante com outras pessoas, apenas o necessário.

Mas, não! O filho queria seguir a carreira de comunicador, mas, comunicador de meias palavras apenas? Será que dentro dele surgiu o despertar de uma promissora vocação? Será mesmo que um bom comunicador precisa ser uma pessoa de muita prosa, de conversa fácil, de palavreado abundante? É claro que um bom comunicador não pode simplesmente usar um vocabulário oral ou mesmo escrito como se estivesse passando um telegrama! Um bom comunicador deve dizer o necessário apenas, sempre em nome da verdade, nem que seja apenas a verdade em que acredita. Quem sabe surgiu aí uma grande transformação!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG. Ex-professor do ensino técnico comercial – formado no curso Normal Superior pela Unipac.