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Composição é alimento espiritual para Lô Borges

5 de março de 2021

Lô Borges retoma antigas parcerias, com o irmão Márcio e Paulo Moska, esse na canção que dá nome ao título. / Foto: Divulgação

Quando Salomão Borges Filho, o Lô, nasceu em casa, em Belo Horizonte, Márcio, o Marcinho, tinha 6 anos de idade. Ao entrar no quarto e ver o sexto filho nos braços de dona Maricota, matriarca da família Borges, pediu à mãe: ‘Dá esse menino para mim?’. Os dois ainda teriam outros cinco irmãos. Esse gesto de amor rendeu uma ligação estreita entre eles, além de, ao longo dos anos, sonhos, girassóis, ventanias, estradas e heróis na música brasileira.

Os parceiros em composições de sucesso como Clube da Esquina n.º 2, com Milton Nascimento, Para Lennon & McCartney, com Fernando Brant, e Um Girassol da Cor de Seu Cabelo e Tudo O Que Você Podia Ser, voltaram a compor juntos depois de nove anos. O resultado está no álbum Muito Além do Fim, que será lançado nesta sexta-feira, 5, só com músicas inéditas.

A última vez que as linhas melódicas de Lô e a poesia de Márcio haviam se juntado foi em 2011, no álbum Horizonte Vertical. Lô acha natural que em um momento de afetos separados como o mundo passa atualmente a escolha para dividir o álbum tenha sido o irmão – na última década, ele fez músicas com Tom Zé, Arnaldo Antunes, Chico Amaral, Nando Reis, Samuel Rosa, entre outros.

Já estava na hora de voltar a compor com o Marcinho. Foi ele que me incentivou a aprender música, quando, ainda menino, eu ficava tentando tocar no violão as músicas do disco Chega de Saudade, do João Gilberto. É meu parceiro mais importante. Ele consegue ser duro sem perder a ternura”, diz.

Lô ainda aponta, além de Márcio, Milton Nascimento e o pianista Marílton Borges, também seu irmão, como seus grandes mestres e incentivadores. Muito Além do Fim sucede a Dínamo, lançado no ano passado, que trouxe parcerias com o compositor piauiense Makely Ka. Lô, aos 69 anos, comemora a fase criativa e afirma que escrever melodias faz parte dele.

A composição é meu alimento espiritual. É o momento em que a vida faz mais sentido para mim. Compor é amar. Se eu não componho, sinto que falta algo. Meu pai me falava que o dom a gente ganha, nasce com ele. Mas trabalhar esse dom é uma virtude. Uma vez fiquei um ano sem compor, me achei o bom, que voltaria quando quisesse. Quando quis voltar, foi uma dificuldade. A gente tem que manter a fé cega e a faca amolada. É um ato cotidiano”, diz.

A faixa que dá nome ao disco tem como convidado o carioca Paulinho Moska. A letra prevê o “cessamento desse abalo sísmico” e enxerga um final feliz. Em Canções de Primavera, os versos sugerem que é preciso usar do amor para espantar a ignorância. Das dez canções do álbum, duas estavam havia tempos guardadas nos cadernos de música de Lô. Terra de Gado é de 1999, mas continua atual. “Que mágica tudo é gado/ Terra boa de ser ninguém/ Que mágica tudo é gado/ Terra boa de ser/ Ou vai morrer nessa praia/ E achar que tá tudo bem”, diz uma das estrofes.