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Clélia Monteiro é a homenageada do 5º FNTPassos

Por Adriana Dias / Da Redação

19 de julho de 2021

Foto: Divulgação

Clélia Cândida Monteiro nasceu em Boa Esperança, mas, desde os 2 anos de idade mora em Passos, o que a torna uma cidadã passense – ainda sem título e fica aqui a dica aos parlamentares passenses. É na ‘Ardeia’ que cresceu, estudou, se envolveu com o universo das artes, se casou, teve seus filhos. E, nesta sua jornada no município teve várias conquistas, sendo a mais recente a escolha para ser a quinta homenageada do 5º Festival Nacional de Teatro de Passos (FNTPassos). Clélia é professora, foi Diretora Municipal de Cultura do governo de Nelson Jorge Maia, entre 1997 e 2000 – que ela considera terem sido anos incríveis de aprendizado e partilha. Profissionalmente, ela começou como professora na Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de Passos (Apae) e seguiu por várias escolas até chegar à Secretaria Regional de Ensino, atual Superintendência Regional de Ensino. A passense de coração fez graduação em Pedagogia pala Fundação de Ensino Superior de Passos (Fesp) e Psicopedagogia. Clélia foi casada e tem dois filhos: a médica ginecologista Mariana Monteiro de Carvalho e o publicitário e designer gráfico Felipe Monteiro de Carvalho. Também atua como coordenadora administrativa do Grupo de Apoio a Pacientes Oncológicos de Passos e Região (Gapop-R) há 6 anos. Para falar sobre sua trajetória a artista recebeu a reportagem em sua casa, com todos os protocolos de segurança contra a covid-19.


Folha da Manhã – Clélia, quando e como começou a sua história com o teatro? Quando que nasce a Clélia Monteiro artista?

Clélia – Ah, esta história, acho que começa desde que eu nasci! Porque quando criança, as minhas brincadeiras eram divididas em duas atividades: brincar de escolinha ou de teatro, de fazer teatro. Me lembro que a gente amarrava colcha, lençol, para fazer de palco. E, nesta brincadeira eu tinha sempre que ser a professora, não aceitava ser aluna. A profissão com isso já estava escrita. E o teatro também foi assim, desde criança gostava de falar poesia, de decorar, e na escola toda atividade artística que era proposta sempre participava.


FM – Você estudou em quais escolas?

Clélia – Estudei no Colégio de Passos, no extinto Colégio de Passos, desde o primário, o primeiro ano. Já no segundo grau, eu estudei no Colégio Imaculada Conceição (CIC), onde me formei no Magistério para ser professora. No CIC, por ser um colégio de freiras o uniforme era impecável, com saia plissada e meias três quartos (3/4) brancas. E, lá também pude ter a oportunidade de participar de peças teatrais e também dos desfiles cívicos. Fui baliza no Colégio de Passos e no CIC, em que sempre era a porta bandeira.


FM – Já no teatro especificamente, você fez parte do grupo Alfa e é membro integrante do Vastafala?

Clélia – Sim, o Vastafala é voltado à música e poesia. E, sim, sobre teatro fui integrante do Grupo Alfa. Foi justamente o primeiro grupo que participei. Sob direção de Antônio Theodoro Grilo, um dos criadores do grupo. Na escola, no ensino fundamental, a gente fazia muito teatrinho também. Tanto é que, eu e o Gustavo José Lemos éramos amigos de teatro e de escola. Éramos contemporâneos, porém, no palco mesmo, meu início se deu com o Grilo.


FM – E você atuava como atriz, diretora, quais foram as suas funções?

Clélia – Atuei mais nas funções de atriz mesmo. Fiz várias peças, mas também escrevi e dirigi uma peça para o Colégio Objetivo num festival de teatro, que foi um sucesso. Era a história dramática de um lobo. Foi a partir de um texto que eu li, e então eu escrevi o texto, assim, invertendo as coisas, então ao invés do lobo ser vilão dos porquinhos, os porquinhos que eram malvados, não era o lobo, então eu fiz uma inversão, e ficou muito bom. O cenário e o figurino foram produzidos pela Cao Fajardo. Ficou lindo. Também escrevi e dirigi algumas peças para os festivais das escolas municipais.


FM – Das peças que você participou com o grupo Alfa, quais aquelas que mais te marcaram?

Clélia – Foram várias peças. Acho que é até difícil falar, mas vamos tentar. As que foram mais marcantes são: Pato e Peru, Eh, Ardeia, Crônica da Cidade Amada e Gota D’água, que fiz a personagem Joana. Na peça Pato e Peru, meu personagem era uma das mulheres da zona boêmia que se chamava Piriá. Já na montagem de Eh, Ardeia, não tinha exatamente um personagem, fazia de tudo. A gente participava de vários quadros, mas não tinha personagem específico. Em Crônica da Cidade Amada foi também nesse estilo, sendo que cada pessoa representava uma escola. Representei o Colégio de Passos, vesti o uniforme da época. Também fiz a peça Alfarrábios, com homenagem ao Gustavo José Lemos; A Partilha, que foi uma peça fantástica de fazer. Nesta em questão, eu tinha assistido à peça em São Paulo e fiquei louca pra fazer. Conseguimos o texto, a autorização e montamos, com a direção de Job Gonçalves de Souza. Fizemos também outra, que foi maravilhosa: Aurora da Minha Vida, que marcou muito minha vida. Nesta peça dei vida à personagem Adiantada, que era aquela aluna chata que implicava com todo mundo. Fazia também a freira e a professora de língua portuguesa.


FM – E a peça A Paixão?

Clélia – Ah, A Paixão, fiz esta peça incrível por muitos anos, desde quando começou no Teatro Rotary, depois fomos com o espetáculo para as ruas em peças, depois fomos para as praças. Quando fui Diretora Municipal de Cultura, nós fizemos A Paixão Itinerante. Eu continuei participando, e eu fazia sempre a mesma personagem, em todos os anos, que era a Cláudia Prócula, ela é esposa de Pôncio Pilatos, tanto que o colunista da Folha e arquiteto Cesar Tadeu Elias me chama até hoje de Clélia Prócula. E, confesso fazer A Paixão foi, uma paixão! Depois vieram novos atores e nós da ‘velha guarda’ fomos ficando no saudosismo e buscando reinventarmos, deixando e abrindo espaço para outros. A Partilha foi a última que fiz.


FM – Como foi a sua experiência na gestão como Diretora Municipal de Cultura?

Clélia – Tive o privilégio de ter sido Diretora Municipal de Cultura entre 1997 e 2000, que foi sem dúvidas um período espetacular, foi uma experiência maravilhosa. Devo muito ao Nelson Jorge Maia, foi uma surpresa pra mim quando eu recebi o convite dele e da Maria Aparecida Bueno, a Cida Bueno, que foi a Secretária Municipal de Educação. Conheci pessoas que eu não teria conhecido se eu não tivesse passado por lá. Então, assim, eu me envolvi com grupos de Congada, de Cavalhada, todas estas manifestações culturais que são muito ricas. Outro grupo que teve uma grande importância era o Movimentus, fundado com Ilídio Gongijo e Andréa Cury, que foi um grande sucesso, participando de vários festivais e trazendo para Passos vários prêmios, graças ao talento destes dois bailarinos.


FM – Profissionalmente quais os locais você atuou como professora?

Clélia – Sou da área da educação, trabalhei em várias escolas de Passos. A primeira foi na Apae trabalhando com crianças deficientes auditivas. Fiquei em Campinas por dois anos, onde me especializei nessa área e fiquei na associação por seis anos, o que foi uma experiência muito rica. Atuei também no CIC, no Status, no Instituto Maris Célis, no Starling Soares, e na Superintendência Regional de Ensino. Tive atuações como coordenadora pedagógica e como professora. Junto com a Pedagoga e Psicopedagoga Lurdes Sanches e a Psicóloga Eliana Formágio montamos a Clínica Interage, onde atuei como Psicopedagoga por muitos anos.


FM – E voltando então para o mundo das artes, além do teatro, o que mais você faz?

Clélia: Temos o grupo Vastafala. Um grupo que podemos classificá-lo como de sarau. Com ele apresentamos nossa arte em exposições, em lançamento de livro, em residências. Aas pessoas convidam e vamos. Nasceu a partir de um grupo de amigos do teatro. Atualmente somos eu, a Gilda Parenti – que já foi homenageada no FNTPassos, a Arlete Porto Soares, a Sandra Parenti, Maria da Graça Santana Garcia e Bábe Grilo. Com relação ao nome, acho que foi devido a um livro e o grupo já atua há mais de 20 anos.


FM – E como é para você receber a homenagem do festival?

Clélia – Eu fiquei sem fala! Uma pessoa do Vastafala (risos). Na hora que o Maurílio Romão me ligou, eu olhei, vi o nome dele, e falei: “Oi Maurílio, tudo bem?”, “Tudo bem”, mas, na hora que ele começou a falar, meu coração disparou, então eu disse: “Como eu? Como assim?”, Nossa, foi uma emoção muito grande. Eu comentei com a minha filha depois, sobre o fato de ter tanta gente, tantas outras pessoas que merecem esse título, mas o Maurílio salientou muito que esta era a minha vez. Então, eu fiquei muito feliz, sou extremamente grata a todos os envolvidos com o Festival, pois é uma honra, principalmente em se falando de arte, a gente nunca é valorizado, infelizmente.


FM – A honraria traz também uma responsabilidade?

Clélia – Exatamente, é uma responsabilidade muito grande representar, ter essa homenagem, diante de tantos colegas que a gente tem e sabe que merece também, mas é como o Maurílio me disse agora é minha vez. E responsabilidade por estar ladeada por outros quatro incríveis representantes da arte.


FM – O que tem a dizer sobre o Festival Nacional de Teatro de Passos?

Clélia – Quando Maurílio Romão tomou essa iniciativa de fazer o festival que se tornou esta grandiosidade que é, me lembrei de quando eu era do setor de Cultura da prefeitura e que eu falava que A Paixão Ao Vivo era só ali no centro, só na Matriz, e que eu entendia que o pessoal do bairro não conhecia. Que não viriam para o centro, então instituímos o itinerante, fomos até onde o povo estava. O Festival de Teatro, da forma que Maurílio elaborou, senti a mesma coisa, está levando onde o povo está, dando a oportunidade de, além de os atores e atrizes a oportunidade de representarem, a oportunidade de pessoas que nunca foram ao teatro, a verem os espetáculos. Achei formidável. Aliás, eu faço questão de falar isso, eu tenho o Maurílio no mais alto conceito. Se o teatro hoje, se aquele prédio ainda está em pé e acontecendo eventos, é graças a ele. O espaço estava abandonado, jogados às traças e Maurílio vem fazendo um trabalho intenso pela cultura, até acho que ele deveria ser secretário de Cultura. O FNTPassos abriu a cidade para o Brasil e para o mundo. Quantas pessoas nunca tinham pisado num teatro? E, mesmo com a pandemia o grupo não deixou de realizar, oportunizando para ainda mais pessoas, uma vez que é virtual.


FM – Além do teatro em quais outras atividades você atua?

Clélia – Sou amante da arte, no geral. Adoro a música, a dança, a pintura, isso tudo me fascina. Quando vejo jovens ligados à arte, isso me maravilha. Gosto de poesia que posso vivenciar no Vastafala. Dentro das artes que eu gostaria e não foi possível está o canto. Meu sonho era cantar. Chego a sonhar que estou com o microfone na mão e cantando, mas sou desafinada! Eu canto junto com as outras pessoas, se a pessoa que estiver ao meu lado for uma pessoa afinada, eu acompanho. Dançar, já dancei na adolescência e sabe que um dos grandes momentos da minha vida foi ter a oportunidade de assistir o Lago dos Cisnes, em Moscow, olhava aquilo e mal acreditava que estava assistindo àquela apresentação de ballet clássico, lindo, maravilhoso, eu chorava de felicidade. E, outra coisa que não fiz até hoje é tocar um instrumento.


FM – Além de artista você administra atualmente o Grupo de Apoio aos Pacientes com Câncer (Gapop)?

FM – Como que a arte influenciou a sua vida e tem algum familiar nas artes?

Clélia – Ah, eu respiro arte, eu me alimento de arte. E, desde pequena, eu acho que eu trouxe isso comigo. Tenho um irmão que toca violão, que mora lá em Palmas, mas, falar que eu vim de uma família de artistas, não.


FM – Qual mensagem deixa para os jovens artistas que normalmente saem de suas cidades e vêm para Passos se apresentar no festival?

Clélia – Antes de responder, gostaria de dizer o quanto foi prazeroso trabalhar na cozinha, ajudar, estar junto com aquele pessoal todo no primeiro festival. Bom, a arte, de modo geral, não só o teatro, é algo que, além do seu dom natural, você tem que buscar conhecimento também. Precisa estudar, precisa ler muito, estar sempre em contato com a arte de modo geral, estar com pessoas, conversar, trocar ideia. Só o dom não vai te tornar um grande artista. O jovem precisa conhecer a cultura da sua cidade, do seu estado, de seu país, e sempre esse valorizar este conhecimento. Viva o Teatro, viva a Arte!


Gota D’agua

Eh, Ardeia

Pato e Peru

Paixão de Cristo