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Carmelo São José: fé e clausura

Por Adriana Dias / Redação

24 de outubro de 2020

Foto: Douglas Arouca

PASSOS – No próximo três de abril de 2021 o Carmelo São José, em Passos, completa 70 anos de fundação. Originada na Espanha, a Ordem das Carmelitas em Passos surgiu, a princípio, pelo desejo da Irmã Maria Angélica, que tem nome civil Lucila de Melo e Souza, natural de Cássia. Ela queria que a Ordem fosse fundada em seu município, todavia, o bispo da época, Dom Hugo Bressane, achou que Cássia era uma cidade muito pequena, e sugeriu que o convento fosse criado em Passos, por ser mais promissora e com melhores recursos. É impossível falar da Capela sem contar a história do Carmelo São José neste nosso 16º vídeo. Para enriquecer o vídeo desta semana o violonista Celso Faria solou o Estudo em Lá menor, de Napoleon Coste.

Conforme contou Irmã Maria Elizabeth da Trindade, que tem como nome civil Elizabeth Fátima Daniel, natural de Passos, assim como outras sete irmãs passenses – o que é raro em um mesmo mosteiro ter tantas religiosas da mesma cidade -, a Irmã Maria Angélica, imediatamente, concordou com a idéia, dando início a uma pesquisa, em parceria com Monsenhor Messias Bragança, que na ocasião era o pároco da igreja Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos, que divulgou e apresentou o projeto às tradicionais famílias passenses, o que foi amplamente aceito pela sociedade, e, após pouco tempo, o pedido de fundação foi encaminhado à sede, localizada em Mogi das Cruzes, em São Paulo.

No dia três de abril de 1951, foi fundada a ordem em Passos, recebendo o nome de Carmelo São José, num grande terreno que mede meio alqueire (24 mil metros quadrados) no bairro Carmelo. O dia dedicado a São José é 19 de março, porém, naquele ano, as comemorações da Semana Santa coincidiram com a data, prorrogando a fundação para o dia três do mês seguinte.
Ainda conforme explicou Elizabeth, a primeira casa era provisória, localizada na Rua Cristiano Stockler, em frente ao Colégio Imaculada Conceição (CIC). As irmãs foram transferidas no dia 1º de janeiro de 1957 para o novo endereço, local onde foi terminado aos poucos, graças à ajuda da população. Para o início vieram as irmãs Maria Nazareth, de Mococa – fundadora dos Laticínios Mococa batendo manteiga à mão com sua mãe -, e as irmãs Bernadete, Maria Ângela, Terezinha, Maria Nazareth – outra irmã com o mesmo nome -, e Isabel.

“Dizem as irmãs mais antigas de casa que o bispo teria pedido a vinda dos irmãos rogacionistas, do Educandário para Passos para que fossem os confessores das carmelitas. E, até hoje os padres do Educandário nos atendem em confissão. E, quanto ao Monsenhor Messias Bragança ele foi fundamental para a construção, tanto do Educandário quanto com o nosso mosteiro. A irmã Angélica trabalhou muito em parceria com o monsenhor. Ela é sobrinha do Barão de Passos, que é irmão do Barão de Cássia e veio morar em Passos para trabalhar pelo Carmelo. O bispo permitiu a realização de leilões e festas para arrecadar fundos. E, inclusive o terreno que foi doado ou comprado não era este onde o Carmelo foi construído, era em frente e plano e toda a planta era para ser feita em plano. Colocaram a pedra fundamental aqui e uma pessoa teria questionado ao monsenhor se poderia trocar e ele trocou. Quando as irmãs vieram visitar, já com as paredes levantadas, descobriram que não era assim. Para fazer igual a planta teria que fazer um terceiro piso e não teríamos condições de construir. Mas foram adaptar a planta, e levaram dois meses para desmanchar. As bases daqui são tão fortes que é impossível quebrar. Ficou uma construção muito grande e temos por estilo que cada uma ter sua cela (feminino de céu) um lugar de solidão e cada uma tem que ter sua oficina de trabalho, por não podermos trabalhar juntas. Com isso ficou grande naturalmente”, contou Elizabeth.

A carmelita mais antiga em Passos é Maria do Nascimento Carvalho, a Irmã Maria Auxiliadora de São José, de 85 anos, nascida em uma fazenda em Passos, no dia de Natal. Atualmente é a primeira irmã professa no Carmelo São José de Passos. E, confessa nunca ter tido crise ou questionamento sobre sua vocação.

“Foi bonito o dia em que nasci, porque foi próximo a um curral, num dia chuvoso. Eu entrei com 17 anos e fiz os votos aqui aos 19 anos. Estou aqui desde sempre. Fui uma das primeiras. A história da Capela é muito linda. A casa já estava pronta e a madre quis tudo de segunda linha, mas a capela ela fazia questão de que fosse o melhor. Ela dizia que ‘a casa do Senhor quero o mais lindo e belo possível. Nós mesmas vamos trabalhar para o revestimento, com mármore de Carrara. Os vitrais também de São Paulo, os melhores.’ Nós bordamos jogos de enxovais para noivas e bebês e vendemos. Foi toda revestida a capela com este tipo de mármore e já o piso era retalhos de mármores, mas estes nós reformamos e trocamos para um mais adequado a nossa época. Ia parar a reforma em 2007 por falta de dinheiro. Precisávamos de R$12 mil. Fui rezando a São José e à comunidade que rezasse também. Uma boa alma ligou aqui e me disse: – irmã, está sentada? Conseguimos o recurso com três irmãs. Vamos viajar e não quero ir com esta preocupação, vamos nós três doar o piso. Saí correndo feliz por termos conseguido com as orações de São José”, confessou Irmã Auxiliadora.

“Só saímos em momentos realmente muito necessários. Santa Tereza quis que os carmelos tivessem jardins. A gente nem se lembra que esta na clausura, por ser um ambiente agradável de viver”, contou Elizabeth.

“O Carmelo já chegou a abrigar vinte e sete irmãs que residiram provisoriamente em Passos até que se concluísse a construção do Carmelo de Trindade/GO. Entretanto, este acontecimento foi isolado, visto que a capacidade máxima de acomodação na casa é de 21 irmãs, que é uma orientação de Santa Teresa de Ávila, para ter mais fraternidade e não ter superficialidade. Atualmente são 17 irmãs, sendo 16 da comunidade e uma visitante que é de Trindade, em Goiás e que veio fazer visita, mas, por conta da pandemia ainda permanece na casa. Nosso Carmelo de Passos gerou uma casa nova que é a de Trindade, depois de mais de 50 anos de fundação, em 2006”, explicou Elizabeth.

Santa Tereza é a fundadora do Carmelo. “O Carmelo nasceu na Terra Santa, no Monte Carmelo, onde os primeiros irmãos eremitas se reuniam para oração e entrega espiritual. Viviam em grutas e depois se uniram em comunidade no século 12. Conta a história que eles iam para as cruzadas e percebiam que com armas não conseguiriam nada, se decepcionavam e queriam trabalhar para Deus pela oração”, contou Elizabeth.

Com a perseguição aos cristãos na Terra Santa muitos voltaram para seus países de origem e fundaram os mosteiros dos Carmelitas Descalços.

“No século 15 as beatas que viviam nos beatérios acabaram por se dedicarem também às comunidades e iniciaram a Ordem Feminina. E, com isso iniciaram. Santa Tereza entrou em um destes conventos. Ela criou uma nova ordem e fundou com quatro jovens o primeiro Carmelo São José. Ela queria com menos irmãs, mais humanos os costumes e menos interferências do exterior, uma clausura que dura até hoje. Tem as Carmelitas da Ordem do Carmo e a de Santa Tereza do século 16. Descalço que significava reformado, ou algo novo, não significa sem calçados”, informou Elizabeth.

O carisma da Ordem das Carmelitas é a oração, a intercessão, a imolação pela igreja, a vida fraterna como testemunho de que é possível viver o céu na Terra. A vida comum e a clausura (separação) como meio para viver o recolhimento da oração.

“Aqui ainda conservamos a grade como sinal de separação, que no passado era para proteção das monjas que viviam em áreas fora das cidades. Já Santa Tereza quis que os conventos fossem dentro das cidades, por vários motivos, para sobrevivência ela quis que nós desempenhássemos trabalhos (aqui fazemos hóstias, velas, bordados e artesanatos) para serem vendidos e manterem nossas comunidades”, contou.

O Carmelo tem funcionários que cuidam da chácara que fica nos fundos do terreno, outra que ajuda nas hóstias e uma atendente. “Não queremos ser peso para as pessoas”, disse.

O projeto da Capela Carmelo São José foi feito pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, natural de Bebedouro o mesmo que projetou várias obras religiosas, tais como a Basílica de Aparecida (Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida) e o Teatro da PUC de São Paulo. Calixto foi escolhido por sua grande experiência em arte sacra e liturgia, tendo projetado mais de 200 igrejas em todo o território brasileiro.

“Tem alguns detalhes na Capela que lembram a Basílica de Aparecida, como os vitrais. A Capela começou a ser construída pouco antes de 1957 que já tinha licença desde o início da obra do Carmelo. A nossa capela tem um diferencial, ela é semi-pública, que existe em função das irmãs, mas que pode ser aberta ao público em algumas celebrações. Abrimos para as missas, não agora por conta da pandemia. Habitualmente é muito freqüentada. Fazemos alguns jubileus ou visita igual à de Nossa Senhora de Fátima. Tem grupos de orações e pessoas que vêm para visitar ou rezar um terço. As mil Ave-Marias, isso até iniciar este período de pandemia”, contou Elizabeth.

A Capela tem capacidade para aproximadamente 200 pessoas e em 2007 passou por uma reforma.

“Trocamos o forro de madeira por gesso. Esta reforma foi feita por André Nery Figueiredo com a orientação espiritual do padre Francisco Clóvis Nery. Tiramos a mesa de comunhão, chamada balaústre, que separava o povo do presbitério; o altar foi demolido e as pedras aproveitadas e o deixamos com o formato de um cubo (que simboliza a perfeição de Deus); o sacrário que ficava atrás do padre foi colocado de lado. A primeira coisa que as pessoas viam quando chegavam era o crucifixo, então não viam o sacrário, agora ganhou destaque. Reformamos o coro que estava ruim, trocando janelas, piso. Foram nove meses de obras e no presbitério foi trocado o piso por granito, o antigo eram retalhos de mármores coloridos. Tiramos duas portas de cortinas vermelhas. Ficou mais harmonioso e colocamos um vitrô para entrar e circular mais ar.  Todos os dias o padre capelão que atualmente é o padre Luiz Gonzaga Lemos celebra a missa. “E, atualmente estamos transmitindo as missas pelo canal do Facebook e Youtube. Temos tido muito mais pessoas assistindo às missas. Tem gente até de fora do país assistindo”.

Irmã Elizabeth conta que a Capela ficou pronta em 1965 sem ter uma data exata. As imagens na Capela são de Nossa Senhora do Carmo e São José – protetor do Carmelo -, que ficam entre o presbitério e o povo. Como se levassem as pessoas a Deus.
O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis, criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o 16º vídeo e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-capela-carmelo-sao-jose/


Origem do nome Carmelo vem da Terra Santa

PASSOS – Monte Carmelo ou Monte do Carmo é uma montanha na costa de Israel com vista para o Mar Mediterrâneo, na Terra Santa. A grande cidade israelita de Haifa localiza-se parcialmente sobre o Monte Carmelo, além de algumas outras cidades menores, como Nesher e Tirat Hakarmel. Carmelo também pode ser traduzido como jardim. Segundo a Bíblia, neste local teria se dado o duelo espiritual entre o profeta Elias e os profetas de Baal. Na ocasião, Elias teria provado, aos homens, que o Deus de Israel era o verdadeiro Deus, e não Baal. Na história apresentada pela Bíblia, o Monte Carmelo é citado como o sendo o local onde Elias desconcertou os profetas Baal, levando, de novo, o povo de Israel à obediência ao Senhor.

Teria sido também no Monte Carmelo que, segundo a Bíblia, Elias teria feito descer fogo do céu, que teria consumido por duas vezes os 50 soldados com o seu capitão, que o rei Acazias tinha mandado ali para prender o profeta, em virtude de ter este feito parar os seus mensageiros que iam consultar Baal Zebube, deus de Ecrom (II Reis, capítulo 1, versículos 9 a 15).

A Bíblia ainda cita esta montanha como o local em que a mulher sunamita que perdera seu filho, foi encontrar-se com o profeta Eliseu (II Reis, capítulo 4, versículos 8 a 31) para entender a sua perda. A montanha também é tida como o local de origem da Ordem Carmelita: ali, viviam eremitas entregues à oração e à penitência, inspirados no exemplo de vida austera de Elias. Esses eremitas, que, ali, construíram uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo, teriam dado origem à ordem e à devoção a Nossa Senhora do Carmo. Com a perseguição muçulmana no século XII, a ordem e a devoção teriam se espalhado pelo Ocidente.