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Carmelitanos elegem a primeira vereadora negra da história

Por Adriana Dias / Redação

20 de novembro de 2020

A vereadora eleita Najara Ávila confirmou que está em seus planos concorrer à prefeitura do Carmo. / Foto: Divulgação

C.R. CLARO – Maioria da população brasileira e com recorde de candidaturas em 2020, os negros aumentaram sua participação no comando das prefeituras e também nas câmaras de vereadores, segundo dados preliminares do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dos mais de 5,4 mil prefeitos eleitos, aproximadamente 1,7 mil candidatos se declararam pretos ou pardos, o que corresponde a 32% do total. Ainda sem dados exatos fornecidos pelo TSE, o site Gênero e Número fez um levantamento com base em informações disponíveis no site do TSE e revelou que vereadores negros ocuparão 44% das cadeiras nas câmaras municipais das capitais brasileiras a partir do próximo ano. Dos vereadores eleitos para todos os municípios em 2016, 42% eram pretos ou pardos. Em Carmo do Rio Claro esta é a primeira eleição em que uma mulher preta e homossexual assume uma cadeira no Legislativo.

Motivo para celebrar neste Dia da Consciência Negra não faltará à Najara Regina Gonçalves de Ávila, 39 anos, natural de Carmo do Rio Claro, especificamente no bairro São Benedito, que teve sua votação carregada de significados. Vereadora eleita pelo Cidadania, Najara contou que esta é a primeira vez que se candidata a um cargo eletivo, mas, que já participou e venceu duas eleições ao Conselho Tutelar, onde atuou até janeiro, quando saiu para se dedicar à pré-campanha e foi a primeira mulher negra a ser eleita conselheira na história do órgão carmelitano.
Najara teve apenas 332 votos a menos que o primeiro colocado, Cristian Reis Leandro, que obteve 727 votos. E, os outros dois eleitos também eram homens, Lucas Cardoso Carielo, com 633 e José Joaquim Silva, com 397.

Fico extremamente feliz em poder representar os negros, que, mesmo que tenhamos conseguido um avanço na representatividade nas eleições deste ano, a proporção é ainda distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira e que evidencia que eles seguem sub-representados na política”, afirmou.

Ainda sem dados fechados pelo TSE a respeito do número de mulheres eleitas no pleito de 2020, a Justiça Eleitoral aponta que as mulheres representam 33,6% do total de 557.389 candidaturas, superando o maior índice das três últimas eleições, que não passou de 32%. Conforme Najara Ávila, nome usado na campanha, na urna e será seu nome na Câmara, com relação à representação feminina, este é outro motivo que ela tem para comemorar.

Seremos duas mulheres na Câmara do Carmo. Eu e Sueli das Graças de Melo, a Lili das Margaridas. Há 16 anos que o Legislativo contou com duas representantes mulheres. Na última legislatura teve uma, o que para todos nós é sempre motivo de orgulho. Mas, confesso que desta vez a população do Carmo quebrou vários paradigmas. Seremos duas mulheres, sendo eu preta, nós duas pobres, a Lili era gari, nós duas homossexuais. Isso mostra que a população carmelitana está vencendo vários preconceitos, o que é sempre muito bom”, assegurou a vereadora.


Vitória

Questionada a que ela atribui a vitória, Najara é rápida em responder que foi a maneira profissional e respeitosa com a qual atuou no Conselho Tutelar junto às famílias que fez com que vencesse.

Acredito que os movimentos devam nascer em nós. Se queremos mudança, temos que começar. Eu sempre fui muito transparente com relação a tudo na minha vida e, ao passar estas mensagens de superação para as famílias as quais nós assistimos, penso que acabei por ter a aceitação da população. Sempre lutei contra todos os tipos de preconceitos e vou continuar lutando. Vivi muito intensamente as dores e aflições de famílias com filhos dependentes químicos. Famílias desestruturadas por ter filhos homossexuais e estes tentarem suicídio. Enfim, muitas questões de desigualdades que podemos ajudar a diminuir. Fui vítima de ataques racistas durante a campanha, deixavam bananas no meu muro quase todos os dias, mas isso, na atualidade não me atinge. Não que eu ache normal, pois não é. O ser humano tem que melhorar muito e agora teremos esta voz na Câmara”, contou a carmelitana que é graduada em Educação Física, Marketing e é técnica em música, além de professora de dança de salão e tem em seu vasto currículo o atletismo, tendo sido jogadora de futebol feminino de vários times, e passou no teste para jogar pelo Fluminense.

Casada com Jenifer Bianca de Oliveira Silva, não pensam em ter filhos, mas quer fazer uma fundação com o viés para apoio de crianças afrodescendentes. É a irmã do meio de dois homens. Filha de Iria Lourenço Gonçalves e de Antônio Eugênio de Ávila, já falecido, o suporte familiar sempre foi muito importante para o seu crescimento, e ela confessa que sua trajetória política começou com uma premunição.

Em 2013, uma pessoa que eu não conhecia estava em um evento e me disse: ‘você vai ser vereadora e prefeita.’ Eu ri muito à época, afinal, nunca me imaginei na política, até porque eu tinha uma visão turva e equivocada. Só fui entender a força da política na vida das pessoas no Conselho Tutelar e, em 2019 me decidi a sair candidata e agora, se me questionarem se quero seguir esta carreira, digo com toda convicção que sim, vou cumprir o papel que fui designada pelo povo, mas serei candidata em tempo oportuno a outros cargos eletivos. Chegarei no máximo que me for permitido pela população e pela espiritualidade”, contou Najara.

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