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Capela Nossa Senhora do Rosário: dois momentos na história de Passos

Por ADRIANA DIAS / Da Redação

10 de outubro de 2020

Foto: Douglas Arouca

PASSOS – No último dia 7 de outubro, foi comemorado o Dia de Nossa Senhora do Rosário, e, para o Roteiros da Fé desta semana, trazemos como o 14º vídeo da série, a Capela Nossa Senhora do Rosário, que fica no bairro Casarão, em Passos. A música escolhida especialmente é o Estudo em Mi menor (Allegretto), de Dionísio Aguado, gravada ao som do violão de Celso Faria.

Segundo a fé católica, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Santo Rosário ou Nossa Senhora do Santíssimo Rosário é o título mariano apresentado a quando da aparição da Santíssima Virgem Maria a São Domingos de Gusmão em 1214, na igreja do mosteiro de Prouille, na França, na qual a mãe de Jesus entregou o Santo Rosário ao fiel frade dominicano.

Em Passos, a igreja com título da santa foi erguida em taipa e alvenaria pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, por mãos de uma maioria de negros escravos entre os anos de 1823 e 1931, possivelmente. Sua construção deve-se a litígios políticos levando a cercear a prática religiosa de algumas famílias na Igreja de Senhor Bom Jesus dos Passos, a Matriz. Pela pressão dos vizinhos da igreja, sob a alegação da insegurança de suas torres, por volta de 1953 a Igreja foi demolida.

Após 35 anos, conforme relatos que constam de um livro de atas na Paróquia São Benedito, a criação da nova Capela Nossa Senhora do Rosário teve seu início. Foi em 17 de agosto de 1988 e surgiu pela vontade dos moradores do bairro Casarão, em Passos. O início de tudo se deu pela coordenação de Messias dos Reis Melo e sua esposa Maria Aparecida Serafim Melo, a Dona Cida. Também contribuíram dezenas de famílias do bairro, diretamente e centenas de pessoas de forma indireta.

Em informações dadas à paróquia e também em entrevista para o Roteiros da Fé, Dona Dica confirmou que, com a preparação para a recepção da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, se inflamou o fervor e a vontade de continuar os encontros religiosos que eram realizados pela Comunidade Nossa Senhora do Rosário.

Uma das filhas de Juventino de Assis Carvalho, vizinho da capela que ficava na Praça do Rosário, Marilena de Carvalho, que mora na mesma casa ao lado de onde hoje é a Prefeitura, contou à reportagem que ela se lembra do dia da demolição.

Meu pai foi quem tomou a frente da demolição, da qual o próprio Monsenhor Messias Bragança pediu para ele pai cuidar de desmanchar. E, por não ter onde colocar a imagem, meu pai guardou. Ficamos com ela aqui e quando o padre de São Benedito pediu, a gente entregou. Soubemos que a paróquia São Benedito, tempos depois, mandou passar remédio, pois estava cheia de bicho (cupim)”, disse Marilena.

Marilena não confirmou um dado informado por Dona Cida, de que uma das filhas de Juventino teria pedido para que a imagem ficasse com a família até que ela morresse. Fato é que em 22 de maio de 1994 a imagem, original, em madeira, foi entregue à Paróquia São Benedito, e levada em procissão com o acompanhamento de ternos de Congo da igreja até na capela.


Comunidade

Dona Cida contou que sua família e outras famílias do novo bairro Casarão freqüentavam a paróquia de São Benedito, em um certo domingo após a missa, o padre Luiz Tavares se reuniu com os homens que eram Marianos e residentes naquela comunidade e pediu que eles focassem em fazer um gesto concreto pela comunidade.

Meu marido Messias era um destes homens e sugeriu então ao padre que visitasse o local, e, que fosse conhecer o grupo que fazia orações em suas casas. Ele e nossos vizinhos Donizete Mário de Lima e o falecido Sebastião Brito. Eles eram Marianos bem ativos e responderam para o padre que sim, eles conheciam e inclusive moravam no bairro. Aí, o padre falou: Então, dou como tarefa para vocês irem lá nesse lugar, ver quem mora lá, reúne as pessoas para vocês fazerem a novena em preparação para receber a chegada da imagem de Nossa Senhora Aparecida que virá nos visitar neste ano. Meu marido chegou e me disse, contou a história toda e aí eu entro e falo: Então eu vou chamar algumas conhecidas para vir aqui em casa e a gente está conversando para fazer essa novena e assim aconteceu. Chamei umas seis ou oito mulheres – algumas já faleceram, outras mudaram daqui e outras ainda moram aqui. As que moram, participam. Chamei para vir aqui em casa e, de contrapartida, meu marido chamou em torno de 6 para virem aqui e colocar para as senhoras a proposta do padre para ver se iriam topar. E nós topamos. E aí a gente foi fornecer os livrinhos, os livretos que a gente fazer novena e começamos. Fizemos a novena até chegar o dia da então visita, todos fomos participar e aconteceu. Depois, a imagem ficou na Nossa Senhora Aparecida uns dias lá e foi para outra cidade. Então parou, os homens continuavam nas reuniões com o padre, porque era só homem e acabou para nós, mulheres. Aí então que tivemos a ideia de repetir. Aí passou setembro. E pensamos em fazer no dia 12, dia de Nossa Senhora Aparecida. Então fizemos a novena, ela passou e fizemos uma festinha comunitária de encerramento desta novena, fizemos um bolo comunitário para as crianças e cada um doou um ingrediente e foi feito esse bolo bonito com doces e picolés. Aí, eu conheço e sou muito amiga do Val Félix e ele cedeu o carro para vim colocar o som e a gente fez uma festa celebrando a Nossa Senhora e as Crianças”, disse Dona Cida.

O padre Luiz Tavares veio no encerramento, já finalizando a quaresma. “Se surpreendeu, porque era tudo muito humilde, a rua esburacada, mal iluminada, mas muito fervorosos na fé. Ele deu uma ideia de fazermos um abaixo-assinado pedindo o prefeito para doar um terreno para fazer um barracão e aí, de vez em quando, ele iria celebrar missa. Fizemos o abaixo-assinado, que deu mais de 200 assinaturas e levamos ao prefeito Cóssimo Baltazar de Freitas, em 1989. A princípio ele disse que não poderia doar terreno para igreja, mas, que se o bairro tivesse uma associação, ele poderia fazer cessão para uso e fizemos. Criamos assim a Associação de Moradores do Bairro Casarão, legalmente registrada, teve eleição e meu marido foi eleito o primeiro presidente, depois fui eu a eleita”, lembrou Dona Cida.

Para a construção da sede da igreja, no terreno cedido, a associação com ajuda da comunidade fazia leilões, eventos como galinhaços (com vendas de ingressos) para arrecadar fundos. Levou em torno de dois anos para a construção.

Com relação ao fato do título da igreja ser Nossa Senhora do Rosário, a moradora e zeladora da igreja conta que em conversa com o pároco, eles definiram que seria uma excelente homenagem à Maria. “E o padre achou ótimo, afinal, Nossa Senhora do Rosário já faz parte da história de Passos. Soubemos que a igreja era freqüentada por negros e que, este teria sido um dos motivos pelos quais foi demolida, pois ficava no centro da cidade. Então, seria uma justa homenagem e foi, mas ficamos um tempo rezando com uma pequena imagem da santa até que a família guardiã entregasse a original. Atualmente a pequena imagem fica na minha casa”, contou Dona Cida.

A Capela foi inaugurada em 1994 e nela, cabem sentados 156 fieis. “O padre Francisco Carlos Pereira, Carlinhos, nos ajudou muito com orientações no sentido de buscar a doação por parte da prefeitura para a igreja. Foi feito então um pedido na Justiça. Embora não tenha registro da data exata, em 2012, época em que quem estava na paróquia era padre Robson Inácio, ele nos deu a notícia de que a Mitra Diocesana de Guaxupé havia ganhado a ação e o registro da área já era da igreja, e que, portanto a Capela Nossa Senhora do Rosário era definitivamente da igreja, e, portanto, da comunidade do bairro Casarão. Foi muita felicidade pra todos nós”, disse Cida.

Para o pároco da Matriz São José, padre Gledson Antônio Domingos, há 3 anos à frente da comunidade, da qual faz parte atualmente a Capela Nossa Senhora do Rosário. “Mas eu já estava junto com a comunidade do Rosário anterior a esta data, há pelo menos dois anos, pois fui pároco da Matriz São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário era daquele território, e, com o desmembramento e criação da São José, a do Rosário passou a pertencer a São José. É uma alegria e um desafio, pois são características de qualquer comunidade. Trazer o povo de volta à igreja, não estou falando deste período de pandemia, mas dos últimos tempos. Porém, temos muitos fieis que abraçam os projetos de Deus. É uma comunidade com várias pessoas ansiosas para que a igreja cresça cada vez mais. Mas, ainda temos algumas pessoas desanimadas e críticas. Mas, ser padre e ter como padroeira Nossa Senhora é ímpar. Sou apaixonado por Nossa Senhora. Eu nasci numa paróquia com o título de Nossa Senhora Aparecida e então ter ela aqui, me traz grande lembrança, só tenho a agradecer ter a do Rosário e São José”, informou.

Ainda conforme Gledson, embora ele seja novo morador, a história antiga da igreja Nossa Senhora do Rosário está aí para todos que quiserem saber. Uma das praças principais da cidade leva o nome de Praça do Rosário e tem este nome por conta da existência naquela localidade da Capela do Rosário, com imagem da santa. Atualmente, a imagem se encontra na capela, embora, nestes últimos dias ela esteja na igreja São José por conta das transmissões do Tríduo do Rosário via internet”, disse o pároco.

O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis, criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o 14º vídeo e pode ser visto em:

https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-capela-nossa-sra-do-rosario/.