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Capela Centenária da Penha é história, tradição e fé

Por Adriana Dias / Redação

26 de setembro de 2020

A Capelinha Centenária de sacristia transversal e nave de base octogonal situada na Praça Arnaldo Belucci, no bairro da Penha, apresenta feições coloniais, detalhes barrocos. / Foto: Douglas Arouca

PASSOS – A devoção a Nossa Senhora da Penha nasceu na França, no século XV, quando um peregrino encontrou uma imagem de Maria na província de Salamanca, na serra chamada Penha de França. Inúmeros milagres foram atribuídos à “Senhora da Penha de França” e esta devoção espalhou-se pela Europa. De Portugal, chegou ao Brasil onde existem santuários tradicionais nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória. Em Passos, a Capelinha da Penha, como é carinhosamente chamada, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico em 1998. Este ícone da cidade é a décima segunda igreja do Roteiros da Fé e recebe a música ‘Estudo em Mi menor, de Fernando Sor, ao violão de Celso Faria.

De acordo com a presidente do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Adriana Beatriz de Oliveira Polez Rocha, a Capela Nossa Senhora da Penha foi erguida entre 1863 e 1864 a pedido do casal Faria Loulou, em agradecimento a Nossa Senhora da Penha pela graça atendida.

Essa capela secular de sacristia transversal e nave de base octogonal situada na Praça Arnaldo Belucci, no bairro da Penha, apresenta feições coloniais, detalhes barrocos com ricas talhas douradas e piso hidráulico desde sua fundação. Foi realizado um restauro entre 2007 e 2009, assegurou para a comunidade seu papel no incentivo de tradições culturais como Pastorinhas, Congados, Moçambique, Cavalhada e Reisado. E, foi tombada em 1998, conforme o Decreto nº 316”, informou Adriana.

Para a historiadora Leila Maria Suhadolnik Oliveira de Pádua Andrade, em sua pesquisa para o livro ‘Capela da Penha: o restauro’, o amor a Nossa Senhora da Penha chegou até a região de Passos quando o arraial estava se formando às margens do Rio Grande e crescendo com a atividade agrícola.

Em 1848, foi elevado à vila e, nesta época, só havia o poder Legislativo formado pelos vereadores da Câmara. Em 1850, quando aconteceu a sessão da instalação provisória da Câmara Municipal, na casa do Coronel Manoel José Lemos, na esquina da Praça da Matriz houve uma festança na vila. Do lado de fora, nosso primeiro fabricante de fogos de artifício, que será o incentivador da criação da capela da Penha, Antônio Caetano de Faria Loulou preparou e soltou o foguetório. A queima de fogos virou tradição passense e o bairro da Penha sempre tem um fogueteiro famoso”, contou no livro que tem registros históricos de vários autores passenses e também do Livro do Tombo da Paróquia Penha e do Livro do Tombo da Paróquia da Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos.

Fazendeiro pagou promessa construindo a capela

PASSOS – De acordo com a tradição oral Antonio Caetano de Faria Loulou era dono de uma olaria, fazendeiro, garimpeiro de diamantes nos rios da região, comerciante e fogueteiro. Estava passando por algumas dificuldades financeiras e ou de saúde e prometeu a Senhora da Penha, que faria construir um templo em sua homenagem se aquelas dificuldades desaparecessem. As pendengas foram resolvidas e Loulou pagou a sua promessa com ajuda da população passense.  O terreno teria sido doado por Antonio Caetano Machado e José Caetano Machado: dois irmãos fazendeiros provenientes de Lavras do Funil que, junto com João Pimenta de Abreu, foram os primeiros agricultores a se estabelecerem na região encantados com a fertilidade da terra e suas abundantes pastagens.

Numa cidade de fervor católico como Passos esta empreitada certamente envolveu toda a cidade e todas as classes sociais através de rifas, leilões de gado, listas de doações, ação de companhias de reis e festas religiosas. Era o ano de 1863 e a capela foi construída, sob os cuidados de Loulou, no alto do Caminho do Desemboque que era por onde se saía de Passos para seguir viagem para Goiás e Mato Grosso.

Alguns registros derivados de fontes orais mostram que muitas pessoas envolveram-se com a construção da capela citando como exemplo: Dimas Pires de Moraes, Juca Cintra, Alfredo Serra, Ezequias Vasconcelos tendo como mestre de obras Silvio Antonio Torres. Registram também que o sino da capela foi fundido por um comerciante ambulante que morava na Rua Direita. Ou que Loulou doou o sino e o trouxe no lombo de burros do Rio de Janeiro para cá. Antonio Loulou, além de construir a capela octogonal da Penha, envolveu-se também com a remodelação da Banda Nossa Senhora das Dores, participou da fundação de um teatro e doou o terreno onde se situa o cemitério municipal. Seu túmulo é o número 1, pois foi o estreante do campo santo em 11 de março de 1895.

Não se sabe ao certo de onde veio Antonio Loulou. Alguns registros dizem que nasceu em 1822 “no Jardim da Europa, a beira mar plantado”, o que indicaria sua procedência portuguesa. O certo é que Loulou se tornou passense e deixou seu nome bem registrado em nossa história. Em 5 de agosto de 1864, de acordo com o Livro do Tombo nº 1 da Paróquia da Matriz Senhor dos Passos (página 68v), houve a provisão de visita e benção da capela Nossa Senhora da Penha como escrito:“… coincidimos que na mesma capela se possa celebrar o Santo Sacrifício da missa, e os mais ofícios divinos, havendo para este fim os necessários paramentos e alfaias com a devida decência”.

Em sete de setembro de 1867, a capela foi benta pelo vigário João da Fonseca e Mello. Organizou-se então, uma procissão e uma grande cavalhada, que atravessou a cidade desde o Largo de Santa Bárbara, ao lado da grande árvore, carregando as imagens de Nossa Senhora da Penha, Santa Bárbara e São Jerônimo, dirigindo-se para a capela majestosa que se erguia no alto da Penha. A capela sempre foi muito apreciada devido a forma e arquitetura originais.

A capela da Penha, “coroa luminosa de Passos”, fixou-se no imaginário passense e representa a fé e as raízes da população. Desde a formação da vila, os escravos foram usados como mão de obra, o que resultou numa intensa aculturação e numa grande influência de costumes e folclores africanos que perduram até hoje. No livro de Atas da Irmandade do Rosário, fundada em 1871, pode-se comprovar a participação de padres, fazendeiros e de todas as classes sociais nas festas que se realizavam na época do Natal e que deram origem às Congadas atuais. A capela foi benzida uma segunda vez pelo Padre Cincinato do Carmo Chaves, em 10 de setembro de 1894, conforme o Livro do Tombo nº 1 da Paróquia da Matriz do Senhor dos Passos( página 93v).

Bispo desmembra a paróquia e cria a Penha

PASSOS – A cidade foi crescendo e havia necessidade de mais padres para atender à população. Em 1947, dia 31 de agosto, o bispo da Diocese de Guaxupé, Dom Hugo Bressane de Araújo, desmembrou a Paróquia Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos. A nova paróquia ganhou o nome da capela histórica: estava criada a Paróquia Nossa Senhora da Penha e o Padre José Pires de Oliveira Costa foi designado para ser o primeiro pároco.

A apresentação das Pastorinhas é, também, uma tradição mantida pelos moradores da Penha. O grupo religioso foi criado em 1903, por Hilarino de Moraes na igreja Senhor Bom Jesus dos Passos e desde esta época, prepara uma encenação onde várias jovens, vestidas de pastoras, visitam o menino Jesus e fazem saudações através do canto e da dança. Um pastor e a pastora Briosa lideram o grupo fazendo os contracantos, gestuais e movimentos. Nos anos 1950, a Sra. Elza Barros de Melo foi a coordenadora do movimento das Pastorinhas e das Coroações, na igreja Santo Antonio. Foi uma época de grande brilho e entusiasmo e que contou com a participação maciça de jovens do bairro da Penha. Assim, os paroquianos da Penha foram os responsáveis pela preservação de tão antiga e sugestiva celebração natalina. Atualmente, todas as paróquias são visitadas, na época do Natal, pelas pastorinhas da Penha que levam tradição, louvor e fé.

A igreja de Santo Antonio, no centro da cidade ,funcionava como a sede da paróquia da Penha. Em 1955, tomou posse, como Pároco, o Monsenhor José Maria Matias da Silva que marcou uma época na paróquia da Penha e na cidade, pois tinha uma fé muito viva e uma grande rigidez na condução de seus paroquianos. Sempre iniciava seus sermões com uma frase em latim, seguida de um grande silencio para depois fazer uma explicação eloqüente do evangelho. Neste momento, aproveitava para dar conselhos às mulheres sobre como se vestir na igreja: com roupas modestas e sempre com mangas. Monsenhor, vestido com sua batina preta de botões roxos e o chapéu preto, foi um grande incentivador da devoção à Nossa Senhora da Penha e da festa em seu louvor. A grandiosa festa em louvor à padroeira foi instituída por ele e toda a cidade de Passos esperava com ansiedade pelos festejos.

Em 1964, a capela foi reformada pelo Monsenhor Matias. Rebocos e vidros foram trocados, mas conservaram-se as cores originais. O mestre de obras que executou o serviço foi Luiz Rosa. Na inauguração, em 30 de agosto de 1964, com a presença do bispo, ele foi elogiado pelo monsenhor pelo seu trabalho feito “com carinho e dedicação”. Nos anos 1980 a Capela sofreu uma reforma substancial que a descaracterizou por completo, inclusive não respeitando suas cores originais. O azul celeste desapareceu, ela se tornou marrom, desagradando os passenses.

Em 1998, na gestão do prefeito Nelson Jorge Maia, numa demonstração de apreço e conservação do nosso patrimônio histórico a Capela Centenária de Nossa Senhora da Penha foi tombada pelo Decreto nº 316/98, de 26 de agosto, com inscrição número 003, no Livro do Tombo Municipal. Foram os primeiros tombamentos do nosso patrimônio histórico-cultural e tiveram aprovação total da sociedade. Em 1999, com objetivo de resgatar a história da capela tombada, foi erguido o campanário do lado de fora do corpo da igreja. A construção foi dirigida pelo arquiteto Paulo Ésper Pimenta e, a partir daí, houve uma preocupação pela conservação da igreja em seus aspectos originais.

Padre Clóvis, pároco, que já não está mais em Passos se empenhou em estudar e preservar os aspectos originais da obra prima valorizando sua singularidade, a devoção dos fiéis e tomando providencias para sua conservação com a criação da Irmandade Nossa Senhora da Penha, responsáveis pelo funcionamento da capela e atendimento a visitantes. O atual pároco, o areadense Aloísio Miguel Alves, assumiu há pouco tempo e disse estar entrando em uma história e ainda está reencontrando destro desta nova realidade.

Pude perceber em relação à Capelinha Centenária Nossa Senhora da Penha que é um marco, um referencial da fé para toda a cidade de Passos e até mesmo da região. Todos têm um carinho especial para a Capela. Muitos conseguem se enxergar dentro da história da Penha. Muitas famílias nasceram e cresceram ao redor fisicamente ou pela história que ela representa. Claro, que tem o seu lado cultural, é linda, bonita, apaixonante e todos se deslumbram por sua beleza arquitetônica. Turistas viajam para conhecer a Capela Centenária. É um bem tombado e precisa ser cuidado, não só pela paróquia, mas por todos nós, ela faz parte da história de Passos”, finalizou o padre.

O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis, criação do logo de Armando Vidigal. Das 24 igrejas, este é o 12º vídeo e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-cepela-nossa-senhora-da-penha/